Ensaio · Tempo · Escrito XLV
A Árvore que Ainda Cresce
Sobre o prazo inventado para o aprendizado, e os que provaram que ele não existe
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I
O prazo inventado
II
A transformação tardia
III
O primeiro livro
Uma árvore de setenta anos não para de crescer só porque já é grande. Continua produzindo anéis novos todos os anos, cada um mais fino que o anterior, quase invisível a olho nu, mas real, contável, quando alguém corta o tronco ao meio e examina as camadas concêntricas que se acumularam desde a semente. Ninguém pergunta a uma árvore antiga por que ela "ainda" está crescendo. A pergunta simplesmente não existe para ela.
Essa pergunta só nasce quando se trata de gente. Alguém de sessenta anos matriculado num curso novo escuta, com uma frequência que deveria incomodar mais do que incomoda, a mesma frase disfarçada de elogio: que bonito, aprendendo ainda nessa idade. A frase pressupõe algo que ninguém nunca provou: que existe um prazo de validade natural para o crescimento humano, depois do qual continuar aprendendo vira exceção admirável, em vez de continuidade esperada.
I
De onde vem o prazo
Sobre um arranjo social recente confundido com lei da natureza
De onde vem essa ideia de prazo? Não da biologia, que segue produzindo neuroplasticidade mensurável até o fim da vida, mesmo que em ritmo diferente do de uma criança. Vem de um arranjo social relativamente recente: a escola formal, organizada em séries e ciclos com início e fim bem marcados, seguida do mercado de trabalho, que espera competência já formada na entrada e trata a formação continuada como custo extra, não como parte natural de qualquer carreira. Esse arranjo, tão comum que parece lei da natureza, tem menos de dois séculos de existência generalizada.
Recusar o próprio crescimento por causa de um prazo inventado não poupa esforço algum. Só adianta a desistência.
O problema não é a estrutura em si, útil para organizar sistemas educacionais em larga escala. O problema é a crença que essa estrutura, sem querer, instalou: a de que aprendizado é fase da vida, não característica permanente dela. Quem aceita essa fronteira como definitiva não está economizando esforço. Está desistindo, mais cedo do que precisaria, de uma parte inteira de si mesmo que continuaria capaz de crescer, só porque alguém, em algum momento, decidiu que crescer depois de certa idade não contava mais como crescimento de verdade.
II
O pensamento inacabado
Sobre Montaigne e a recusa de declarar o texto pronto
O filósofo francês Michel de Montaigne, no século dezesseis, inventou literalmente o formato que hoje chamamos de ensaio, palavra que vem do verbo francês para tentar, testar, experimentar. E ele viveu o próprio formato com uma coerência radical: passou os últimos anos da vida revisando, ampliando, contradizendo às vezes o que havia escrito antes, sem nunca declarar o texto definitivamente pronto. Montaigne tratava o próprio pensamento como processo permanentemente inacabado, nunca como conclusão fechada esperando apenas ser publicada.
Isso não era falta de disciplina. Era o oposto: uma disciplina rara, a de recusar a tentação de fingir que, numa certa idade, finalmente se sabe o suficiente para parar de testar as próprias ideias contra a experiência. Montaigne escreveu, entre outras coisas, que ensinar as crianças não é encher a cabeça delas, é formar o próprio julgamento, e essa formação, para ele, nunca tinha data de conclusão, nem mesmo para o filósofo que a estava descrevendo.
III
A voz que chegou depois
Sobre Rumi e a transformação que a sociedade já não esperava
O poeta persa Jalal ad-Din Rumi viveu boa parte da vida adulta como respeitado professor de teologia, seguindo um caminho intelectual convencional e bem-sucedido para os padrões da época. A obra pela qual ele é hoje mundialmente conhecido, a poesia mística e extática que atravessou séculos e fronteiras, só começou a existir depois que Rumi já passava dos trinta e sete anos, quando conheceu o derviche errante Shams de Tabriz.
O encontro entre os dois provocou em Rumi uma transformação tão profunda que ele abandonou parte da vida acadêmica estabelecida para se tornar o poeta que conhecemos hoje. Não foi um ajuste de percurso. Foi um recomeço, numa idade em que a sociedade ao redor já esperava que ele estivesse simplesmente exercendo, de forma cada vez mais refinada, o que já havia aprendido antes.
A obra de Rumi só começou a existir depois dos trinta e sete anos. A transformação mais decisiva de uma vida pode chegar bem depois da idade em que a sociedade espera que alguém já esteja formado.
A trajetória de Rumi contradiz diretamente a lógica do prazo de validade. Ele não aprofundou o que já sabia. Aprendeu, praticamente do zero, uma linguagem interior inteiramente nova, numa fase da vida que a maioria das culturas trataria como tempo de consolidar, não de recomeçar.
IV
Recomeçar como principiante
Sobre Mamphela Ramphele e as trajetórias inteiras recomeçadas
A socióloga e ativista sul-africana Mamphela Ramphele leva essa lógica ainda mais longe. Ao longo da vida, ela construiu trajetórias completas e distintas em campos que pouco se conectam entre si: formou-se em medicina, tornou-se figura central do movimento de consciência negra na África do Sul ao lado de Steve Biko, depois seguiu carreira acadêmica como reitora universitária, e mais tarde ainda atuou em posições de liderança em organismos internacionais e no setor empresarial.
A disposição de voltar à posição de principiante, repetidamente, mesmo já com reputação estabelecida, é o que diferencia aprofundar do que já se sabe de genuinamente continuar crescendo.
Cada uma dessas mudanças exigiu de Ramphele algo mais radical do que continuar aprendendo dentro de uma mesma área. Exigiu recomeçar como aprendiz, do zero, em campos de conhecimento inteiramente diferentes, já adulta, já com reputação estabelecida num campo anterior que ela poderia simplesmente ter mantido pelo resto da carreira.
V
O primeiro livro aos setenta e seis
Sobre Cora Coralina e a poesia que chegou tarde
No Brasil, a poeta goiana Cora Coralina viveu talvez o exemplo mais direto dessa possibilidade. Passou a maior parte da vida adulta dedicada a criar os filhos e administrar uma doceria na cidade de Goiás, longe de qualquer circuito literário reconhecido. Escrevia, esporadicamente, desde jovem, mas foi só aos setenta e seis anos que publicou seu primeiro livro de poesia, *Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais*, com apoio direto do poeta Carlos Drummond de Andrade, que reconheceu o valor daquele trabalho tardio.
O que veio depois não foi um epílogo modesto de fim de vida. Foi o início de uma carreira literária plena, reconhecida, que continuou produzindo até a morte de Cora, aos noventa e cinco anos. Ela não estava, aos setenta e seis, colhendo o que havia plantado décadas antes. Estava, de fato, começando algo nomeado por ela mesma como recomeço, não continuação.
VI
A janela que nunca fechou
Sobre o que as quatro trajetórias, juntas, provam
Isso muda inteiramente a pergunta com que este ensaio começou. Não existe uma janela biológica que se fecha, deixando para trás quem não aprendeu a tempo. O que existe é uma expectativa social, recente e revisável, de que o crescimento deveria se concentrar nos primeiros anos de vida e depois ceder lugar à simples manutenção do que já foi construído.
Quatro trajetórias, quatro décadas de vida diferentes, provando a mesma coisa por ângulos que nunca se encontraram: não existe hora certa fixa.
Montaigne recusou essa expectativa revisando o próprio pensamento até morrer. Rumi a contradisse ao encontrar sua voz mais verdadeira depois dos trinta e sete. Ramphele a desafiou recomeçando, repetidas vezes, como principiante. E Cora Coralina, aos setenta e seis, provou que o primeiro livro de uma vida pode chegar exatamente quando a sociedade já parou de esperar por ele.
A árvore de setenta anos
continua produzindo anéis novos,
cada um mais fino que o anterior, mas real.
Ninguém pergunta a ela
por que ainda está crescendo.
A pergunta só existe quando se trata de gente.
Existe um prazo inventado,
recente, revisável,
que decidiu onde o crescimento deveria parar.
Mas o pensamento pode continuar inacabado
até o último dia, como Montaigne insistiu.
A voz mais verdadeira pode chegar
depois dos trinta e sete, como chegou para Rumi.
O recomeço pode acontecer
mais de uma vez na mesma vida,
como aconteceu tantas vezes para Ramphele.
E o primeiro livro pode nascer
aos setenta e seis anos,
como nasceu, afinal, o de Cora.
A árvore não sabe que deveria ter parado.
Continua, simplesmente,
produzindo o anel deste ano.
Dedicatória
Este escrito é dedicado aos adultos que ainda crescem, mesmo sem que ninguém peça, mesmo sem que ninguém aplauda, provando, dia após dia, que a árvore não sabe que deveria ter parado.
Ainda contando os próprios anéis, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?