Ensaio · Cotidiano · Escrito LXVI
A Colher Que Ninguém Nunca Olhou Direito
Sobre o extraordinário que mora dentro do trivial, e o olhar que é preciso aprender para enxergá-lo
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I
A coisa que ninguém olha
II
O que a colher já viu
III
O nome que a colher nunca teve
Existe uma colher de pau na gaveta de talheres de quase toda cozinha que já cozinhou de verdade. Um lado dela é mais escuro que o outro, queimado devagar por décadas de fogo, e a curva mais funda tem uma lasca raspada de tanto raspar fundo de panela. Ninguém escolhe essa colher. Ela está lá, disponível, óbvia, do jeito que só as coisas realmente necessárias conseguem ser óbvias sem que ninguém repare nelas.
I
A coisa que ninguém olha
Sobre Pablo Neruda e Ferreira Gullar
A mão que pega a colher de pau não pensa nela. Pensa no arroz, no refogado, no tempo que falta até a comida ficar pronta. A colher é meio, nunca fim. Existe uma cebola parecida com isso: ninguém para para olhar uma cebola de verdade, ela é ingrediente, é etapa, é o que se descasca rápido para chegar em outra coisa. Foi o poeta chileno Pablo Neruda quem decidiu, um dia, escrever um poema inteiro só para a cebola. Não uma metáfora sobre a cebola servindo para falar de outra coisa. Um poema para a cebola em si, pela cebola, sobre a cebola redonda como um planeta pequeno, brilhante como o interior de um vidro, que se desmancha em camadas até desaparecer sem nunca ter escondido nada de podre lá dentro.
As Odas Elementares de Neruda exigem uma decisão anterior ao poema: a decisão de que nada, absolutamente nada do que existe, é pequeno demais para merecer ser olhado até o fim.
A colher de pau nunca recebeu essa atenção. Também não recebeu, por muito tempo, um nome capaz de justificar essa atenção. O poeta e crítico de arte maranhense Ferreira Gullar, um dos fundadores do movimento neoconcreto no Rio de Janeiro, passou parte da vida discutindo o que separa uma obra de arte de um objeto qualquer, e chegou a uma conclusão desconfortável em sua Teoria do Não-Objeto: a diferença às vezes não está no objeto. Está no gesto de quem olha para ele como se ele merecesse ser olhado. Um pedaço de madeira gasto pode ser lixo ou pode ser, para quem sabe olhar, o resumo silencioso de todas as refeições feitas numa casa. A mudança não acontece na madeira. Acontece no olho.
II
O que a colher já viu
Sobre Gabriel García Márquez e Mia Couto
Se a colher pudesse contar, contaria sobre a noite em que a geladeira quebrou e a comida toda precisou ser cozida de uma vez, sobre o caldo mexido devagar enquanto alguém chorava por um motivo que não tinha nada a ver com a cozinha, sobre a festa de aniversário em que ela mexeu o doce de leite até o braço doer. É esse mesmo jeito de contar histórias que atravessa a obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez: o insólito entra pela porta da cozinha sem pedir licença e ninguém acha estranho. O espírito do avô que ainda mexe a panela nas madrugadas de inverno, o cheiro de guisado que atravessa paredes e gerações, a colher que sempre soube quando a comida estava no ponto antes de qualquer relógio dizer a hora. No realismo mágico que García Márquez consolidou em Cem Anos de Solidão, ninguém separa o que é real do que é mágico numa cozinha dessas. As duas coisas cozinham juntas, na mesma panela, sem fila de espera.
Na cosmovisão que Mia Couto revisita, o mágico não pede licença ao real. Cozinham juntos, na mesma panela, sem fila de espera entre um e outro.
Essa mistura tem nome em algumas tradições e não tem nome em outras. O escritor moçambicano Mia Couto aprendeu a contar histórias assim porque foi assim que ouviu contarem para ele: o espiritual não separado do material, herdado da tradição oral de Moçambique. Em romances como Terra Sonâmbula, o objeto de cozinha carrega tanto peso quanto qualquer acontecimento histórico, porque na cosmovisão que formou Mia Couto o mundo nunca foi dividido em real de um lado e fantástico do outro. É a mesma mistura que faz uma colher de pau guardar, sem exagero nenhum de linguagem, mais história de uma família do que qualquer retrato pendurado na parede da sala.
III
O nome que a colher nunca teve
Sobre Motoori Norinaga e o mono no aware
Perto do cabo, a colher tem uma rachadura fina que aparece só quando a luz bate de lado. Ninguém nunca reparou nisso, exceto talvez uma vez, um segundo, antes de voltar a mexer o feijão sem pensar mais no assunto. O estudioso japonês do período Edo Motoori Norinaga deu nome a esse tipo exato de atenção: mono no aware, o instante em que alguém repara que uma coisa comum vai, um dia, se quebrar de vez, e essa mesma fragilidade é o que torna aquele instante de reparar bonito, não triste. Norinaga escreveu sobre a flor de cerejeira que floresce e cai na mesma semana, não mais bonita que qualquer outra árvore: é a queda certa, marcada, sabida de antemão, que dá à flor uma beleza que uma flor eterna nunca teria.
A rachadura na colher promete a mesma coisa que a flor promete: um dia ela vai partir ao meio, e é exatamente essa promessa que a torna, agora, inteira.
Quem devolve a colher à gaveta, depois disso, não devolve mais a mesma coisa que tirou de lá. Tirou um utensílio. Devolve um objeto que já viu gente chorar, já ouviu histórias que misturam espírito e guisado sem constrangimento nenhum, já carrega uma rachadura que promete um fim que ainda não chegou. Nada na colher mudou fisicamente. O que mudou foi inteiramente o olho.
A vida comum só parece pequena para quem nunca aprendeu a olhar direito. E aprender a olhar direito não exige viagem, nem livro raro, nem acontecimento extraordinário. Exige, apenas, parar diante da colher de pau na gaveta o tempo suficiente para perguntar: quanta coisa essa madeira já viu, que eu nunca parei tempo nenhum para perguntar?
Colher de pau, escurecida de um lado,
rachada perto do cabo, gasta na curva funda,
ninguém nunca escolheu você. Você estava lá.
Assim como a cebola de Neruda nunca pediu poema
e ganhou um inteiro, feito só para ela,
sem precisar significar mais nada além de si mesma.
Você já mexeu caldo enquanto alguém chorava,
já ouviu o espírito do avô madrugada adentro,
já soube o ponto certo antes de qualquer relógio.
A rachadura que ninguém nunca viu
promete, um dia, te partir ao meio,
e é exatamente essa promessa que te torna, agora, inteira.
Volto a te guardar na gaveta.
Mas quem te devolve já não é quem te tirou de lá.
Aprendi, enfim, a te olhar direito.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem um dia vai olhar de novo para a colher de pau da própria casa.
Ainda aprendendo a olhar o que já estava na gaveta, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?