Ensaio · Percepção · Escrito CXXXIII
A Mão Que Apalpa no Escuro
Sobre por que só vemos o que temos cognição para ver, e o real não ser aquilo que existe, mas o recorte que fazemos dele
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Aba I
Abertura e I · Os cegos e o elefante, e a vela de Rumi
Aba II
II e III · Donald Hoffman sobre a interface da percepção, e José Geraldo de Sousa Júnior
Aba III
IV e V · Os Himba e a cor, e o fechamento
A sala não tinha uma única fresta de luz, e ninguém ali sabia dizer havia quanto tempo estava sentado naquele escuro. Alguém tinha avisado que havia algo grande no centro do cômodo, um animal, disseram, mas nenhuma outra pista além dessa. As mãos foram se estendendo devagar, tateando o ar até encontrar alguma superfície, e cada pessoa, ao tocar, sentiu uma coisa completamente diferente da que o vizinho descrevia em voz alta.
Uma mão caiu sobre algo comprido, flexível, que se mexia sozinho, e a voz disse, com convicção total, que aquilo só podia ser uma cobra grossa. Outra mão alcançou uma superfície larga e fina, que balançava ao vento como um leque, e essa voz jurou tratar-se de algo achatado e leve. Uma terceira mão encontrou uma coluna firme, quase impossível de abraçar por completo, e concluiu sem hesitar que ali estava um tronco de árvore, talvez uma coluna de templo. Nenhuma das três pessoas estava mentindo. Nenhuma delas via o todo. E, ainda assim, cada uma saía dali absolutamente certa de ter descrito a coisa como ela realmente era.
I
Uma Vela Cada
Sobre a parábola indiana dos cegos e o elefante, e o final que Rumi acrescentou séculos depois
A cena descrita acima não é recente, nem original. É uma das parábolas mais antigas que se conhece sobre os limites da percepção humana: a dos cegos e o elefante, com raízes documentadas em textos jainistas anteriores ao século cinco antes da Cristo, e presente também em escrituras budistas, como o Tittha Sutta, e em textos hindus posteriores. Na versão mais difundida, um grupo de homens cegos é levado a tocar um elefante pela primeira vez, e cada um, tendo alcançado apenas uma parte do animal, descreve o todo a partir daquele fragmento: quem tocou a tromba jura que o elefante é uma serpente, quem tocou a orelha descreve um leque, quem tocou a perna afirma que é um pilar, quem tocou a cauda garante que é uma corda.
Séculos depois, o poeta persa Rumi recontou a mesma história com uma variação reveladora: ele imagina o elefante trazido para dentro de um quarto totalmente escuro, onde ninguém, cego ou não, conseguiria enxergar nada além do que as próprias mãos alcançassem. Cada homem descreve uma parte diferente e as descrições entram em conflito direto, quase em briga. Rumi então oferece a única saída que a parábola sugere: se cada um tivesse carregado consigo uma vela, e todos tivessem entrado juntos na sala, as diferenças teriam se desfeito na mesma luz compartilhada. O problema, insiste o poeta, nunca foi o elefante. Foi a ausência de luz suficiente para que mais de uma mão enxergasse ao mesmo tempo.
O detalhe que a maioria das versões modernas da fábula deixa passar é que ela não termina condenando ninguém à ignorância. Termina apontando que a percepção parcial, sozinha, produz descrições sinceras e ao mesmo tempo incompletas, e que a única correção possível para isso não é uma única mão tocar mais forte, e sim várias mãos comparando o que tocaram.
Vale notar também que a parábola não nasceu como simples entretenimento popular. Estudiosos do jainismo a associam diretamente ao conceito de anekantavada, ou muitos aspectos, doutrina segundo a qual nenhuma afirmação isolada sobre a realidade pode ser completamente verdadeira nem completamente falsa, porque toda afirmação depende do ponto de vista específico de quem a formula. Para essa tradição, admitir a própria parcialidade diante do real não era sinal de fraqueza intelectual: era, ao contrário, o primeiro requisito para qualquer discussão filosófica séria.
A parábola indiana não pede para ninguém tocar mais fundo. Pede para comparar o que cada mão já tocou.
II
Ícones Numa Tela
Sobre Donald Hoffman, e a percepção como interface evoluída para sobreviver, não para revelar a verdade
Do outro lado do mundo e vinte e cinco séculos depois, o cientista cognitivo americano Donald Hoffman chegaria, por caminho estritamente científico, a uma conclusão parecida com a dos textos antigos da Índia. Professor da Universidade da Califórnia em Irvine, Hoffman dedicou décadas de pesquisa à pergunta mais básica possível sobre visão: será que enxergamos o mundo como ele realmente é?
A resposta que ele defende, reunida no livro The Case Against Reality, publicado em 2019, é um não categórico. Segundo Hoffman, a percepção humana não evoluiu para revelar a verdade sobre o mundo, evoluiu para maximizar a sobrevivência, o que é uma coisa bem diferente. Ele compara os objetos que enxergamos aos ícones de arquivo na tela de um computador: um pequeno retângulo azul em forma de pasta não se parece em nada com o emaranhado real de zeros e uns que ele representa lá dentro do disco, mas é exatamente essa simplificação que permite ao usuário operar o computador sem precisar entender eletrônica.
Hoffman chama essa ideia de teoria da interface da percepção, e sustenta, com base em modelos matemáticos de teoria dos jogos e evolução, que um organismo programado para ver a verdade nua e crua do mundo perderia sistematicamente para um organismo programado apenas para ver o que é útil para sua sobrevivência, mesmo que essa visão seja uma simplificação grosseira da realidade. Não vemos o mundo como ele é, resume Hoffman: vemos a versão dele que nossos ancestrais precisaram ver para não morrer antes de deixar descendentes.
O próprio Hoffman reconhece que essa conclusão é desconfortável, quase vertiginosa: se a percepção é apenas uma interface útil, e não um espelho fiel, então toda certeza cotidiana sobre a forma, a cor e a posição das coisas ao redor passa a ser, tecnicamente, uma simplificação de algo mais profundo e mais estranho do que qualquer um dos sentidos consegue captar diretamente. Isso não significa que o mundo não exista, ele costuma esclarecer em entrevistas. Significa apenas que a experiência de vê-lo nunca foi, e talvez nunca pudesse ser, uma cópia exata daquilo que está lá fora.
III
O Recorte da Realidade
Sobre José Geraldo de Sousa Júnior, as caravelas que os índios não viram, e a etimologia de teoria
No Brasil, essa mesma questão ganhou nas últimas décadas uma formulação direta, quase seca, na obra do jurista José Geraldo de Sousa Júnior, professor de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília. Sua tese central pode ser resumida numa única frase: a gente só vê o que tem cognição para ver. O real, segundo ele, não é aquilo que existe objetivamente diante de alguém, e sim a representação que essa pessoa constrói a partir do que sua própria bagagem cognitiva permite reconhecer.
Para ilustrar o ponto, José Geraldo recorre a uma passagem que o escritor mexicano Octavio Paz registrou em seu livro O Labirinto da Solidão: quando as caravelas de Cristóvão Colombo chegaram ao litoral americano, os povos indígenas que observavam a cena, segundo esse relato, não conseguiram enxergar os navios como navios. As embarcações estavam ali, fundeadas, visíveis a olho nu, mas a mente de quem observava simplesmente não possuía nenhum quadro de referência anterior capaz de organizar aquela forma estranha numa categoria reconhecível. Não é que os indígenas tenham fechado os olhos. É que não havia, no repertório cognitivo daquela cultura específica, nenhuma gaveta mental onde guardar a imagem de um navio de três mastros vindo do outro lado do oceano.
José Geraldo também recorre à etimologia para reforçar o argumento: a palavra grega da qual deriva teoria, theoria, vem de theoros, aquele que vê, aquele que testemunha algo com atenção deliberada. Ver, para os gregos antigos, já nascia como um ato carregado de teoria prévia, nunca uma operação neutra de captação pura da realidade. Enxergar sempre foi, mesmo antes da palavra existir, uma forma de interpretar.
Ver nunca foi um ato neutro. Desde antes da palavra existir, ver já significava interpretar.
A reflexão ganhou repercussão nacional depois de ser proferida publicamente por José Geraldo numa sessão de comissão parlamentar em 2023, num contexto de debate acalorado sobre reforma agrária. Vale separar aqui a ideia filosófica do episódio político que a tornou conhecida: independentemente de qual lado tinha razão naquele debate específico, a tese em si, a de que cognição molda percepção antes mesmo de qualquer discussão começar, é bem mais antiga que qualquer disputa partidária contemporânea, e continua válida fora de qualquer palanque.
IV
Cinco Palavras Para Cor
Sobre o povo Himba da Namíbia, a categoria buru, e o mito que a mídia exagerou
Na Namíbia, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Londres com o povo Himba trouxe evidência experimental concreta para essa mesma ideia, desta vez aplicada a algo tão elementar quanto a percepção de cor. A língua himba reconhece apenas cinco categorias básicas de cor, contra as onze categorias do português e da maioria das línguas ocidentais. Uma dessas categorias, chamada buru, engloba tanto o que chamamos de azul quanto o que chamamos de verde, sem nenhuma palavra que separe as duas coisas.
Os pesquisadores descobriram que essa diferença linguística tem consequência perceptual mensurável. Ao mostrar aos falantes de himba um círculo formado por onze quadrados verdes e um único quadrado azul, muitos tiveram dificuldade real para apontar qual quadrado destoava dos demais, uma tarefa praticamente instantânea para falantes de línguas que separam azul e verde em categorias distintas. Por outro lado, o himba possui duas palavras diferentes para tons de verde que o português trata como uma coisa só, e nesses casos foram os falantes de himba que identificaram a diferença quase de imediato, enquanto falantes de português precisavam de mais tempo para notar a mesma distinção.
Vale registrar uma ressalva importante: quando esse experimento ganhou repercussão mundial através de um documentário da BBC em 2011, a cobertura popular simplificou o achado até distorcê-lo, alegando que os himba seriam fisicamente incapazes de enxergar a cor azul. Os próprios cientistas responsáveis pela pesquisa original, consultados posteriormente, esclareceram que a dramatização exagerou o resultado real: não se trata de cegueira física para uma cor, e sim de uma categoria linguística ausente tornando mais lenta e mais difícil, não impossível, a tarefa de separar aquele tom específico dos demais. A cognição não apaga o que os olhos captam. Ela decide, silenciosamente, o quanto de esforço será preciso para que aquilo vire, de fato, percepção consciente.
Essa distinção entre não conseguir ver e demorar mais para notar é exatamente o tipo de nuance que se perde quando uma descoberta científica vira manchete. E é também, ironicamente, mais uma prova do próprio argumento deste ensaio: até quem estava assistindo ao documentário sobre os himba viu, na tela, não o experimento como ele de fato ocorreu, mas a versão dele que a própria cognição do espectador, ávida por uma história simples e impactante, estava mais preparada para reconhecer e repetir adiante.
V
A Mão Que Apalpa no Escuro
Fechamento
A sala escura da abertura, então, não era metáfora exagerada de nada. Era, quase literalmente, uma descrição precisa da condição cognitiva de qualquer pessoa diante de qualquer parte da realidade que ainda não tenha repertório para reconhecer. Os índios diante das caravelas, os falantes de himba diante de um quadrado azul isolado entre quadrados verdes, os seis homens tocando partes diferentes do mesmo elefante: em todos os casos, a percepção não falhou por preguiça nem por má-fé. Falhou porque enxergar de verdade sempre exigiu mais do que olhos abertos.
O convite que sobra depois de atravessar essas quatro tradições tão distantes entre si, uma parábola indiana de dois mil e quinhentos anos, um laboratório de ciência cognitiva na Califórnia, um jurista brasileiro numa sessão pública, e uma tribo namibiana testada com quadrados coloridos, é o mesmo que Rumi já tinha deixado registrado havia séculos: nenhuma mão sozinha, tateando sozinha, vai algum dia reconstruir o elefante inteiro. Mas várias mãos, comparando honestamente o que cada uma tocou, com uma vela cada, entrando juntas na mesma sala escura, têm uma chance real de compor, aos poucos, algo que se pareça mais com a coisa toda.
Ninguém vê o que existe. Cada mão vê só até onde a própria mão alcança.
O real não é o elefante inteiro. É o pedaço que cada um teve como tocar.
Uma vela sozinha ilumina uma mão. Várias velas juntas começam a desenhar a forma.
Antes de discordar do que o outro viu, pergunte que parte do escuro ele tocou.
Dedicatória
A quem já discordou de alguém sem perguntar antes que parte do elefante essa pessoa tinha tocado.
Ainda tateando no escuro, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?