Escólio · O Capital · Escrito XCIII

XCIII

A Mesa Que Aprendeu a Dançar

Um escólio sobre O Capital, a magia da mercadoria e o vampiro que suga o tempo dos vivos

Ouvir este escrito · narrado

0:00--:--
1×

Aba I

A mesa, o marceneiro e o fetichismo da mercadoria

Aba II

O vampiro e o crime anterior a Manchester

Aba III

Quem serve a quem, e a viração de hoje

Observe as mãos de um marceneiro trabalhando sobre uma tora bruta de carvalho. Existe um atrito honesto ali. A lixa raspa a superfície áspera, o pó fino sobe pelo ar e gruda no suor da testa dele, a farpa de madeira ocasionalmente entra na pele e exige uma agulha para ser arrancada. O tempo físico do corpo daquele homem está sendo transferido imperceptivelmente para o objeto. Ele gasta as próprias calorias, a própria atenção focada e as horas irrecuperáveis do seu dia finito para transformar uma árvore morta em uma mesa de jantar. A relação é transparente: existe um criador humano de carne e osso exercendo poder sobre a matéria inerte.

Dias depois, essa mesma mesa é colocada no centro de uma vitrine iluminada de uma loja sofisticada. O chão ao redor é polido. A iluminação fria incide diretamente sobre o verniz impecável. Neste exato instante, o marceneiro desaparece. O suor evapora da história. A farpa sangrando no dedo não deixa registro contábil. A mesa recebe uma etiqueta de preço e sofre uma mutação assustadora: ela deixa de ser um objeto passivo construído com dor e passa a ser uma entidade dotada de intenção. Ela emana desejo, status, promessas de jantares perfeitos e uma aura de respeitabilidade intransponível.

Por que nós nos sentimos tão esgotados em uma sociedade que jura que somos absolutamente livres e que não nos acorrenta fisicamente a nenhum pelourinho? Como é possível que estejamos exaustos até a medula dos ossos, entregando o nosso sono e a nossa paz mental para pagar por objetos de consumo, e por que um tratado denso escrito no século dezenove sobre moinhos de algodão na Inglaterra ainda consegue explicar com precisão aterrorizante a notificação de aplicativo que apita no nosso bolso à meia-noite? A resposta exige encarar o fato insuportável de que a nossa prisão não é feita de grades grossas de ferro. Ela é tecida inteiramente por feitiçaria.

Karl Marx não era apenas um leitor obsessivo de balancetes financeiros e taxas de juros. Ele era um devorador das tragédias de Shakespeare e dos dramas de Goethe, um investigador agudo que entendia que o capital operava muito mais como um fenômeno fantasmagórico do que como uma simples transação racional de feira livre. No primeiro livro de O Capital, logo no denso capítulo de abertura, ele formula o que talvez seja o diagnóstico psicológico mais perturbador sobre a nossa relação com as coisas materiais do mundo.

“A forma da madeira, por exemplo, é alterada quando se faz dela uma mesa. A mesa continua a ser madeira, uma coisa ordinária, sensível. Mas logo que se apresenta como mercadoria, transforma-se numa coisa ao mesmo tempo sensível e suprassensível. Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e de sua cabeça de madeira saem caprichos muito mais maravilhosos do que se ela começasse a dançar.”

I

O Fetichismo da Mercadoria

O véu de Maya

O conceito técnico para essa dança assombrosa é o fetichismo da mercadoria. O feitiço consiste em uma ilusão de ótica que inverte completamente o eixo da realidade existencial. Nós somos os seres vivos e respirantes. Nós produzimos toda a riqueza que existe. Nós derramamos o nosso tempo de vida na construção de paredes, códigos e alimentos. Mas quando os frutos desse esforço chegam à prateleira do mercado, eles ganham vida própria, arrogante e descolada de quem os criou. Nós transferimos a nossa alma para a madeira.

Repare na linguagem exata que utilizamos nos noticiários todas as manhãs. O mercado financeiro amanheceu “nervoso”. O dólar está “agressivo” perante os vizinhos. A bolsa de valores “reagiu com otimismo” ao decreto ministerial. Nós atribuímos emoções complexas, temperamentos humanos e vontades próprias a abstrações matemáticas e transações de dígitos de crédito. As coisas começam a agir como deuses caprichosos do Olimpo exigindo sacrifícios diários.

Em contrapartida cruel, como o sistema prefere nomear os seres humanos que sangram a própria saúde para manter esse teatro majestoso funcionando? Nós somos “recursos humanos”. Capital humano ativo. Força de trabalho disponível. Custo operacional a ser minimizado na planilha do próximo trimestre. As pessoas são rebaixadas à categoria de coisas estáticas e mensuráveis, enquanto as coisas são elevadas ao panteão misterioso dos deuses vivos. A mesa de carvalho dança de alegria e presunção no centro da vitrine enquanto o marceneiro que a fabricou rasteja exausto para tentar negociar a dívida do aluguel na última sexta-feira do mês.

Essa feitiçaria de ocultamento não é uma invenção inteiramente ocidental, o Oriente conhece a anatomia do autoengano perceptivo há milênios de escuta silenciosa. A tradição hindu e o budismo dão a esse fenômeno o nome sagrado de Maya, a grande ilusão cósmica. Maya é o véu espesso que cobre os olhos da humanidade adormecida, convencendo-nos de que a multiplicidade fugaz das formas materiais é a realidade última e inquestionável. É o truque espiritual que nos acorrenta ao ciclo repetitivo de sofrimento porque nos ensina a cobiçar ferozmente as sombras projetadas na parede, adorando-as como se fossem a luz causadora original.

A vitrine espelhada do mercado capitalista é o altar supremo erguido em devoção a Maya. Ela é desenhada meticulosamente por designers e marqueteiros para fascinar a percepção límbica e ocultar brutalmente todos os rastros de sangue, suor e fricção. Quando você segura um telefone celular de última geração na palma da sua mão macia, deslizando o dedo por uma tela de vidro impecável, o feitiço ontológico está operando em sua potência máxima de destruição.

O brilho nítido daquela tela cega você imediatamente para a narrativa brutal que habita a matéria de dentro daquele aparelho. Você não enxerga as minas de cobalto afundadas na terra da África profunda, onde as mãos feridas de jovens cavam terra tóxica sem equipamentos de proteção. O vidro luminoso desvia a sua atenção das linhas de montagem monótonas asiáticas onde trabalhadores exaustos montam placas microscópicas de silício até que a fadiga destrua as juntas dos seus dedos. Desaparece sob a caixa branca impecável a teia imensa e invisível de vidas esmagadas apenas para que aquele retângulo luminoso chegue até o seu bolso por um preço sedutoramente competitivo.

Maya alcança o seu objetivo com perfeição porque o consumidor exige o conforto de não enxergar a teia de interdependência que sustenta as vigas do mundo. Nós veneramos de joelhos o feitiço de madeira e esquecemos covardemente do animal humano que perdeu um pedaço vivo da própria história para trazê-la à existência.

II

O Vampiro

Capítulo VIII, Livro Primeiro

Existe um segundo truque fundamental guardado no arsenal do capital. Ele abandona a feitiçaria religiosa limpa para adentrar de corpo inteiro no terreno sombrio da literatura de terror. No capítulo oitavo do Livro Primeiro de O Capital, inteiramente focado na extorsão da jornada de trabalho, a pena não procura metáforas suaves ou consolos acadêmicos. O argumento afunda os dentes direto na jugular exposta.

“O capital é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, sugando trabalho vivo, e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.”

O vampiro é a figura mitológica definitiva escolhida ali porque a sua anatomia desprovida de coração espelha a lógica da acumulação de forma impecável. O vampiro de lendas antigas não possui sangue próprio nas veias frias. Ele é um cadáver bem vestido, aprumado em costumes respeitáveis, que só consegue manter a aparência sedutora de vida pulsante se cravar os caninos no pescoço de uma vítima inocente e beber a sua energia quente até a última gota. O capital guardado em isolamento absoluto não produz folha de grama nenhuma. Um montante imenso de moedas e títulos trancado a sete chaves num cofre bancário subterrâneo é puramente papel envelhecendo no escuro do tempo. Para se reproduzir exponencialmente e fingir estar vivo, ele necessita imperativamente sugar de forma implacável a força muscular, a capacidade criativa e o tempo irrepetível de pessoas que ainda respiram ar puro. E ele nunca atinge a saciedade de fato.

No começo da engrenagem capitalista inglesa, o vampiro operava escancaradamente nas fábricas sombrias de Manchester e Londres, exaurindo a vitalidade de operários e crianças subnutridas submetidos a espancamentos e a catorze horas ininterruptas de aspiração de fumaça diante de teares ensurdecedores. Aquele vampiro era monstruoso e visível. Nos nossos dias confortáveis, a estética predatória mutou para algo sutil e invisível. O sugador noturno trocou a fuligem tóxica da chaminé britânica pelas linhas minimalistas dos escritórios de vidro brilhante do Vale do Silício.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve a mecânica devastadora dessa mutação perversa moderna. Nós não precisamos mais de capatazes raivosos segurando rebenques de couro nas mãos, vigiando impiedosamente o nosso ritmo acelerado de montagem de peças. O sistema de controle de produção foi plantado no interior da nossa psique com tanto sucesso histórico que nós acabamos por desempenhar simultaneamente os papéis de carrasco dedicado e vítima exaurida, morando perfeitamente bem dentro da mesma pele desgastada.

A inteligência desse novo vampiro tecnológico foi seduzir a presa exata ao sussurrar em seu ouvido que doar o próprio sangue farto é, na realidade, um atestado inegável de empreendedorismo meritocrático moderno. Sob o verniz colorido da otimização comportamental constante, apoiados no evangelho da superação performática ilimitada da nossa época, entregamos sem reclamar o nosso direito ao repouso profundo das horas escuras, esvaziamos os nossos escassos dias de descanso familiar e abdicamos da presença mental focada nas refeições compartilhadas de domingo para responder a demandas insignificantes de escritórios burocráticos muito depois do anoitecer.

Nós praticamos a autoexploração voluntária sem amarras metálicas, aplaudindo efusivamente o próprio esgotamento nervoso precoce como se um quadro agudo de estafa equivalesse a um distintivo invisível de honra superior. O vampiro centenário continua sugando litros e litros de energia inestimável, a diferença irônica contemporânea que rasga as nossas ilusões protetoras de controle é que agora nós mesmos seguramos delicadamente o fundo do cálice de vidro na boca dos dentes afiados dele.

III

O Crime Anterior a Manchester

Achille Mbembe

Contudo, a integridade de qualquer pensamento filosófico exige fazer um ajuste necessário no ponteiro cronológico da opressão, um ajuste que a teoria eurocêntrica dominante preferiu arrastar para o fundo da sala por constrangimento histórico acumulado. O vampiro gélido não descobriu o sabor do sangue operário pela primeira vez enquanto inspecionava pátios de tecelagens inglesas. Quando o homem branco trabalhador do norte da Europa perdeu definitivamente o direito autônomo sobre as horas úteis do seu relógio para criar mais-valia alheia, a barriga insaciável do capital já se encontrava empanturrada de lucro extraído mediante um crime abissal e anterior.

O pensador nascido em Camarões, Achille Mbembe, dilacera essa amnésia em seu livro Crítica da Razão Negra. Antes mesmo que a entidade jurídica abstrata chamada capital conquistasse as leis parlamentares suficientes para alienar a força criadora do cidadão assalariado caminhando em praças de cidades francesas, o mecanismo exigiu com selvageria a total transmutação da carne quente de populações inteiras em mercadorias etiquetáveis. A acumulação primitiva e colossal que subsidiou a propalada luz civilizatória da invenção burguesa ocidental ancorou as suas próprias fundações nas costas fraturadas do corpo negro sequestrado do seu solo de origem.

Falar do truque fantasmagórico do preço no asfalto europeu, apagando da lousa de registros o ventre do navio cruzando o Atlântico, constitui uma tentativa ingênua de ler a mecânica da desumanidade através de um espelho distorcido por omissão. A escravização espalhada por quilômetros de costas atlânticas nas Américas configurou o tubo de ensaio onde o cálculo econômico experimentou métodos de extração da dor. Mulheres e homens sem nomes registrados nos livros viraram cotação de mercado em cadernos de leilões nas praças coloniais.

O negro reduzido legal e fisicamente ao papel de coisa apropriável representa muito mais do que um passado moral indigno preso às margens das revoluções técnicas ocidentais do aço e do vapor. O processo configurou o próprio combustível que injetou tração à expansão do maquinário liberal moderno nascente nas províncias centrais. Fechar as portas da percepção teórica às correntes da senzala para concentrar as lágrimas exclusivamente sobre os infortúnios das margens do Rio Tâmisa congela o raciocínio filosófico nas fronteiras de uma hipocrisia parcial. A sombra da acumulação nunca coube inteiramente no terno escuro do banqueiro. Ela repousa, sem disfarce, nas costas marcadas por chibata sob o sol das plantações.

IV

Quem Serve a Quem

A fábrica e a máquina

A perversidade de amputar o instinto criativo de um homem, substituindo seu cérebro pelas engrenagens de um cilindro giratório, atinge um clímax exato no capítulo dedicado à maquinaria e à grande indústria, quando a estrutura das fábricas se firma como matriz que subordina operários e dita leis de conduta.

“Na manufatura e no artesanato, o trabalhador utiliza a ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina.”

Existe nesta formulação uma inversão total do poder humano sobre a matéria transformada. O ferreiro talhando portas retoma o serrote repetidas vezes, a pressão sobre a peça brota do esforço calculado nas palmas espessadas do profissional focado na obra, a ferramenta obedece aos ditames que partem dele. Nas instalações de linhas retas e correias de polias elétricas, o sujeito humano sofre uma amputação de identidade e murcha na posição de servo subordinado, acoplando ritmos a metais que decidem a métrica correta que o próprio sangue precisa correr pela artéria. A estrutura de aço respira, a vida das carnes anexadas empalidece em reflexos musculares meramente corretivos para que as engrenagens não parem.

V

O Ornitorrinco e a Viração

Francisco de Oliveira, e o entregador de hoje

Transportar esse diagnóstico do frio industrial britânico para o calor dos subtrópicos latino-americanos exige apenas olhar para uma esquina qualquer de uma cidade brasileira grande, hoje à noite, e reparar no entregador de aplicativo cruzando o trânsito em cima de uma bicicleta ou de uma moto, correndo contra um relógio que ele não controla.

O sociólogo pernambucano Francisco de Oliveira, em Crítica à Razão Dualista, descreveu o capitalismo brasileiro como um ornitorrinco: um animal que a teoria clássica europeia não sabe classificar, porque ele não substitui o arcaico pelo moderno, ele funde os dois na mesma engrenagem. O trabalho informal, a espera na fila, o bico, a improvisação para sobreviver ao mês, tudo isso que os manuais chamariam de resíduo pré-industrial continua vivo, agora processado por um aplicativo desenhado em São Francisco.

Décadas depois, a pesquisadora Ludmila Abílio deu nome exato a essa mutação: chamou a uberização de "subsunção real da viração", a absorção completa, pelo capital, daquele jeito historicamente brasileiro de se virar nas brechas da cidade para sobreviver. O que antes era estratégia informal e relativamente autônoma do trabalhador pobre virou, sob o aplicativo, trabalho cronometrado por algoritmo, sem os direitos da formalização e sem a liberdade real da informalidade antiga.

O entregador segura o próprio guidão. Ele decide, em aparência, o próprio trajeto. Mas quem dita o ritmo é a nota de avaliação que aparece na tela, o tempo estimado calculado por um servidor a quilômetros de distância, a corrida seguinte que só chega se a anterior foi rápida o bastante. Ele serve à máquina exatamente como o operário da fábrica descrita por Marx, só que a máquina agora é invisível, distribuída, e o convence de que ele é dono do próprio negócio enquanto o cronômetro decide, sem aparecer, quanto tempo de descanso ele pode se permitir entre uma entrega e outra.

O capataz sumiu. No lugar dele ficou uma nota de cinco estrelas e um algoritmo que nunca precisa levantar a voz para ser obedecido.

A publicidade das próprias plataformas chama isso de liberdade, de empreendedorismo, de ser dono do próprio tempo. É a mesma feitiçaria descrita no início deste escólio, só que aplicada ao próprio trabalhador, não apenas à mercadoria que ele entrega. Ele paga as prestações da moto, reabastece o tanque quando o marcador pisca vazio, remenda a corrente solta depois de cada lombada, e segue, porque parar significa não fechar a meta do dia.

VI

Derrubar Ídolos

Fechamento

Quebrar a casca dessa prisão ótica que paralisa as vontades exige da alma o abandono da contemplação preguiçosa e consoladora. Consciência do peso e da gravidade não equivale a panfleto ruidoso nem palavra de ordem estéril perdida no vento, a lucidez exige destrinchar o que a ilusão insiste em encobrir nos anúncios bonitos. Enxergar o sangue invisível que tinge os códigos embutidos atrás da compra imediata, e as mãos machucadas por dentro que poliram as tábuas vendidas na vitrine, implica resgatar do esquecimento a espessura das existências humanas reduzidas à engrenagem.

A madeira envernizada exala o frescor do polimento, repousando calada sob o clarão dos lustres da sala chique iluminada do mercado. Ela não escuta as dores das costas curvadas que suaram no galpão escondido para produzi-la. Reivindicar o avesso das coisas tratadas como deuses brilhantes implica retirar do abismo do rebaixamento a figura humana que o hábito histórico do consumo transformou em insumo gasto, atirado aos fundos do maquinário que segue batendo, sem dor, no próprio ventre.

O nó encravado nas mãos que serraram a tábua não vira troféu na casa de quem enxerga deuses nas lojas e esquece dos homens que morrem cansados no fim da jornada. As farpas engolidas em silêncio pela pele ferida não pedem altar, pedem apenas o golpe exato de uma visão lúcida e honesta que desfaça a magia das vitrines frias.

A mesa dança sozinha na vitrine.
Ninguém pergunta quem lixou a madeira,
quem sangrou a farpa,
quem trocou o sono pela prestação da moto.
Derrubar o feitiço não é quebrar a mesa.
É lembrar, em voz alta,
o nome de quem a fez.

Dedicatória

Este texto é dedicado a todo aquele cujas mãos sangraram para fazer algo que hoje dança sozinho numa vitrine, sem lembrar o próprio nome.

Ainda perguntando quem fez a mesa, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Aba I · A Mesa, o Marceneiro e o Fetichismo da Mercadoria
Biblioteca