Diário · África do Sul · Escrito CVIII

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A Paisagem que Ainda Cobra

Sobre a desigualdade visível na África do Sul, a cegueira que a sustenta, e a esperança que ainda resiste no coração de quem foi oprimido

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Aba I

Abertura, o que os olhos veem primeiro, e a cegueira voluntária

Aba II

A lente perdida, e os grilhões que só afastam

Aba III

A esperança no coração do oprimido, e o fechamento em dedicatória

O avião pousa e a primeira coisa que os olhos registram não é a beleza anunciada nos folhetos de turismo. É a geografia. Da estrada que sai do aeroporto, dá para ver, sem precisar de nenhum guia explicando, onde a cidade formal termina e o township começa. Não é uma transição suave. É uma linha quase cirúrgica, como se alguém tivesse desenhado, décadas atrás, exatamente até onde a infraestrutura deveria chegar, e parado ali de propósito.

Essa linha não é acidente de urbanismo. É arquitetura política, herdada de um sistema que tinha nome, data de início e um conjunto de leis escritas para garantir que negros e pessoas classificadas como coloured vivessem, trabalhassem e circulassem apenas onde o regime branco determinasse. O apartheid terminou formalmente em 1994, com a primeira eleição em que todos os sul-africanos, independentemente da cor, puderam votar. Mas trinta anos não apagam séculos, e a paisagem, dez dias de viagem deixam isso claro, continua cobrando a conta de um sistema que a lei aboliu, mas que a geografia, a economia e o hábito ainda sustentam de pé.

São quatro perguntas que se impõem a quem atravessa este país prestando atenção de verdade. Como conviver com a injustiça de quem escolhe não ver? Como desenvolver sensibilidade em quem perdeu, ou nunca teve, a lente para enxergar o outro como igual? Como romper grilhões que foram desenhados, com precisão de engenharia, para afastar? E que esperança ainda cabe plantar no coração de quem carrega o peso histórico de ter sido, por gerações, o lado errado dessa equação?

Uma lei pode ser revogada num único dia. A cidade que essa lei desenhou continua de pé décadas depois.

I

O Que os Olhos Veem Primeiro

Sobre a desigualdade visível e o legado que a lei não desfez

Não é preciso estatística para perceber quem ocupa que função nesta sociedade. Basta caminhar por um shopping center numa área nobre da Cidade do Cabo ou de Joanesburgo e observar, sem esforço, o padrão: quem está atrás do caixa, quem carrega as sacolas, quem dirige o carro do patrão, e quem senta na mesa do restaurante decidindo o cardápio. A pele que ocupa cada uma dessas posições segue, com uma consistência incômoda, o mesmo desenho hierárquico que o apartheid formalizou por lei entre 1948 e 1994.

O Group Areas Act de 1950 dividiu cidades inteiras por raça, forçando remoções em massa de populações negras e coloured para zonas afastadas do centro, sem infraestrutura, sem transporte digno, sem proximidade dos empregos e das universidades. O Bantu Education Act de 1953 desenhou, deliberadamente, um sistema de ensino inferior para a população negra, justificado publicamente pelo argumento de que ela não precisaria de uma educação que a preparasse para posições além do trabalho manual. Essas leis foram revogadas há três décadas. As cidades que elas desenharam continuam de pé, e a distância entre onde as pessoas moram e onde o emprego qualificado se concentra continua sendo, na prática, uma forma de segregação sem precisar de placa nenhuma proibindo a entrada de ninguém.

A África do Sul de hoje figura, de acordo com organismos internacionais que medem desigualdade, entre os países com a distribuição de renda mais desigual do planeta. Não é coincidência que essa desigualdade siga quase exatamente as linhas raciais desenhadas há mais de setenta anos. As leis mudaram. A distribuição do capital acumulado, da terra, da educação herdada e das redes de contato que abrem portas, essa levou muito mais tempo para mudar, e ainda não terminou de mudar.

II

A Cegueira Voluntária

Sobre Frantz Fanon e a psicologia de quem não quer ver

Uma das perguntas mais difíceis desta viagem não é sobre quem sofre a desigualdade. É sobre quem convive com ela sem parecer perturbado. Existe, em qualquer sociedade profundamente desigual, um mecanismo psicológico que permite a quem se beneficia do sistema atravessar o dia sem sentir o peso moral do que vê ao redor.

A empresária e escritora britânica Margaret Heffernan deu nome a esse mecanismo num livro de 2011, chamando-o de cegueira voluntária. Segundo ela, seres humanos são notavelmente capazes de não ver aquilo que seria custoso demais, emocionalmente ou socialmente, reconhecer. Não é ignorância no sentido de falta de informação. A informação está disponível, muitas vezes literalmente do outro lado da rua. É uma espécie de escolha inconsciente de não processar o que os olhos captam, porque processar exigiria uma resposta, e a resposta exigiria mudança.

O psiquiatra martinicano Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, publicado em 1952, descreveu o outro lado dessa mesma equação: o efeito que séculos de colonização produzem na psique de quem foi colonizado. Fanon argumentou que o racismo não fere apenas de fora para dentro, através da discriminação visível. Ele penetra a própria autoimagem do oprimido, que aprende, cedo demais, a se ver através dos olhos de quem o despreza. A cegueira de quem não quer ver e a ferida de quem foi ensinado a duvidar do próprio valor são, segundo Fanon, dois produtos do mesmo sistema, fabricados em fábricas diferentes.

Conviver com essa injustiça, para quem visita e não pode resolvê-la em dez dias, exige recusar duas tentações igualmente fáceis: a indignação performática que serve mais para aliviar a própria consciência do que para mudar qualquer coisa, e o silêncio educado de quem prefere não estragar as fotos da viagem comentando o que viu pela janela do carro.

III

A Lente Perdida

Sobre Gordon Allport e a hipótese do contato como caminho de sensibilidade

Como se desenvolve sensibilidade em quem, por geração após geração, foi criado para não precisar enxergar o outro como igual? A pergunta pressupõe que sensibilidade seja algo que se ensina por discurso, e a pesquisa em psicologia social sugere que não é bem assim.

O psicólogo Gordon Allport, num livro de 1954 que se tornou fundação inteira de um campo de estudo, propôs o que ficou conhecido como hipótese do contato intergrupal. Sua conclusão central é que o preconceito não se dissolve pela exposição a discursos sobre igualdade, por mais bem-intencionados que sejam. Dissolve-se, quando dissolve, pelo contato direto, repetido e de status equivalente entre membros de grupos diferentes, trabalhando juntos por um objetivo comum, com o apoio explícito de alguma autoridade que legitime essa convivência.

Décadas depois, o psicólogo Thomas Pettigrew revisou centenas de estudos aplicando a ideia de Allport em contextos reais, e confirmou o padrão com um detalhe importante: contato superficial, do tipo que acontece entre patrão e empregada doméstica, ou entre turista e guia, praticamente não reduz preconceito algum, porque preserva a hierarquia em vez de suspendê-la. O que funciona é o contato entre iguais, sentados na mesma mesa, com o mesmo peso de voz.

Essa é, talvez, a explicação mais concreta para por que trinta anos de lei igualitária não bastaram para desfazer o hábito de décadas de segregação forçada: a lei mudou o que é permitido, mas não organizou, na prática, o encontro repetido entre iguais que a psicologia mostra ser a única coisa capaz de mudar, de verdade, a lente com que um grupo humano enxerga o outro.

Discurso sobre igualdade muda o que é permitido dizer em público. Só o convívio real, sustentado e repetido, muda o que alguém realmente sente por dentro.

IV

Os Grilhões que Só Afastam

Sobre Steve Biko e a mente como território de resistência

Os grilhões mais visíveis do apartheid, os que aparecem nos livros de história, foram jurídicos: leis de identidade racial, proibição de casamento entre raças, restrição de movimento, passes obrigatórios para circular fora das áreas designadas. Esses grilhões foram formalmente quebrados. Mas existe outro tipo de grilhão, mais difícil de legislar contra, que a arquitetura urbana e a distância econômica ainda sustentam todos os dias: o grilhão que mantém pessoas fisicamente afastadas dos lugares onde as decisões são tomadas, do capital, das redes de contato, da educação de qualidade.

O ativista Steve Biko, líder do Movimento da Consciência Negra sul-africano, morto sob custódia policial em 1977, entendeu que romper esses grilhões exigia mais do que mudar leis. Biko escreveu, numa das frases mais citadas do seu pensamento, que a arma mais potente nas mãos do opressor é a mente do oprimido. Para ele, a libertação política sem uma libertação psicológica prévia, sem a reconstrução da autoestima e do orgulho de um povo que havia sido sistematicamente ensinado a se ver como inferior, corria o risco de trocar os donos do poder sem mudar a estrutura mais profunda da desigualdade.

Romper esse tipo de grilhão não é um ato único, é um trabalho de gerações, que envolve tanto a reconstrução material das cidades quanto a reconstrução, mais lenta e mais íntima, da forma como um povo inteiro aprende a se enxergar depois de ter sido ensinado, por lei, durante décadas, a se ver como menor.

V

A Esperança no Coração do Oprimido

Sobre Ubuntu, Desmond Tutu e a reconciliação que não é esquecimento

Depois de tanta ferida documentada, a pergunta mais difícil talvez seja a última: que esperança ainda cabe plantar no coração de quem carregou, por gerações, o peso da opressão? A resposta que a própria África do Sul ofereceu ao mundo, na transição para a democracia, tem um nome: ubuntu.

Ubuntu é um conceito das línguas bantas do sul da África, resumido na frase umuntu ngumuntu ngabantu, uma pessoa só é pessoa através de outras pessoas. Não é um otimismo ingênuo. É uma filosofia que reconhece a humanidade como algo relacional, construído no encontro, e que recusa a ideia de que a dignidade de alguém possa ser plenamente restaurada enquanto a dignidade do outro, inclusive do antigo opressor, permanecer negada.

Foi esse princípio que orientou o arcebispo Desmond Tutu à frente da Comissão da Verdade e Reconciliação, criada em 1995 para investigar os crimes do apartheid. A comissão não ofereceu esquecimento. Ofereceu um espaço público onde vítimas podiam relatar o que sofreram, e onde perpetradores podiam confessar em troca de anistia, num processo que Tutu descreveu como a tentativa de curar uma nação inteira sem fingir que a ferida não existiu.

Nelson Mandela, ao assumir a presidência depois de vinte e sete anos de prisão, escolheu o mesmo caminho difícil: reconciliação que não apaga a memória, mas também não a transforma em vingança. A esperança que se planta no coração de quem foi oprimido, nesse modelo, não depende de esquecer o que aconteceu. Depende de acreditar que é possível construir, junto com quem antes oprimia, algo que nenhum dos dois lados conseguiria construir sozinho.

VI

O Que um Visitante Pode Carregar de Volta

Fechamento

Dez dias não são suficientes para entender um país que levou séculos para se tornar o que é hoje, e seria uma arrogância pretender o contrário. O que um visitante pode honestamente carregar de volta não é uma solução. É um testemunho, e a responsabilidade de não deixar esse testemunho morrer na primeira semana de volta à rotina.

A paisagem que ainda cobra, essa linha quase cirúrgica entre a cidade formal e o township, entre quem serve e quem é servido, não vai desaparecer porque um estrangeiro passou por aqui dez dias prestando atenção. Mas prestar atenção, de verdade, sem desviar o olhar para a próxima foto bonita, é o mínimo que se deve a um povo que pagou, e ainda paga, um preço tão alto por uma injustiça que não escolheu.

Talvez a lição mais honesta desta viagem seja que a esperança e a cobrança não se cancelam. A paisagem cobra, e vai continuar cobrando enquanto a distância entre quem tem e quem não tem continuar desenhada pelas mesmas linhas antigas. E, ainda assim, ubuntu continua sendo praticado, todos os dias, por gente comum que decide, apesar de tudo, tratar a humanidade do outro como parte da própria.

A paisagem não esquece o que a lei fingiu apagar.
A linha entre os bairros ainda é uma cicatriz visível a olho nu.
Mas há gente, dos dois lados dessa linha,
que insiste em atravessar todos os dias,
não para negar a ferida, mas para provar
que uma pessoa só é pessoa através de outras pessoas.
Eu vim de fora e levo comigo o que os olhos não conseguem desver.
Testemunhar não é o mesmo que resolver.
Mas é o começo de tudo que ainda pode ser resolvido.

Dedicatória

Este texto é dedicado a quem atravessa a linha todos os dias, dos dois lados dela, tentando construir alguma coisa nova.

Ainda atravessando a linha, Santos Moisés.

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I · O Que os Olhos Veem Primeiro
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