Ensaio · Esperança · Escrito LXIX

LXIX

A Terra Molhada da Primeira Chuva

Sobre a espera coletiva que atravessa a seca sem prova nenhuma, e o que ela ensina sobre a diferença entre esperança e aposta

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I

A porta aberta

II

A nuvem mensageira

III

O canto de quem já perdeu a conta

O céu muda de cor antes de qualquer gota cair. As nuvens se acumulam, pesadas, escuras de um jeito que o sertão aprendeu a reconhecer de longe, e o povo sai de dentro de casa para a porta, parado, olhando para cima. Ninguém precisa avisar ninguém. A notícia se espalha pelo próprio ar, pelo cheiro que ainda não chegou mas que todo mundo já sabe que vai chegar.

E então chega. O petricor sobe do chão torrado antes mesmo da primeira gota tocar a pele, um cheiro denso, quase inebriante, que nenhuma cidade grande, nenhum asfalto, consegue produzir com a mesma intensidade. A água fria bate na poeira acumulada por meses, talvez anos, e a terra vermelha, que há tanto tempo só sabia rachar, começa a virar lama entre os dedos dos pés descalços. A paisagem muda de cor diante dos olhos, o cinza cedendo lugar a um marrom vivo, quase animal, como se o chão inteiro estivesse respirando de novo depois de prender o fôlego por uma estação inteira.

I

Esperar não é apostar

Sobre a diferença que a linguagem cotidiana não nomeia direito

Existe uma diferença que a linguagem cotidiana raramente nomeia direito, entre esperar e apostar. Apostar é confiar num resultado sem nenhuma base real para essa confiança, jogar a favor de uma sorte que pode ou não vir. Esperar, no sentido mais fundo da palavra, é outra coisa: é sustentar, com o corpo inteiro, uma disposição interna que não depende do resultado final para continuar existindo.

Esperar sem prova, ano após ano, é o único jeito de garantir que a chuva, quando chegar, encontre alguém ainda de pé para recebê-la.

O povo que sai à porta de casa, ano após ano, seca após seca, não está apostando que dessa vez vai chover. Está fazendo algo mais difícil e mais digno: continuando a esperar, mesmo sem garantia nenhuma, porque a alternativa, deixar de esperar, seria uma derrota maior do que qualquer seca já provocou. A primeira chuva, quando finalmente cai, não inaugura a esperança. Confirma uma esperança que já estava lá, sustentada durante todo o tempo em que não havia prova nenhuma de que valeria a pena.

II

Esperança versus prognóstico

Sobre Václav Havel escrevendo de dentro da própria cela

O dramaturgo e ex-presidente tcheco Václav Havel escreveu, durante os anos em que esteve preso pelo regime comunista, uma das definições de esperança mais precisas já formuladas. Para Havel, esperança não é a convicção de que algo vai dar certo. É a certeza de que algo faz sentido, independentemente de como vai terminar. Ele insistia que essa distinção importava mais do que parecia à primeira vista: confundir esperança com otimismo é condenar a esperança a desmoronar no primeiro sinal de que as coisas não vão bem.

Havel escrevia isso de dentro de uma cela, sem nenhuma garantia de que o regime que o prendia um dia cairia. E ainda assim ele sustentava a esperança, não porque acreditasse cegamente numa vitória certa, mas porque a própria resistência já fazia sentido, resultado nenhum incluído na equação. É exatamente esse tipo de esperança que sustenta quem espera a chuva no sertão. Não é aposta calculada sobre a meteorologia. É certeza de que continuar esperando, mesmo sem prova, ainda é a coisa certa a fazer.

III

A nuvem mensageira

Sobre Kalidasa e o Meghaduta

Na Índia do século cinco, o poeta clássico Kalidasa escreveu um dos poemas mais celebrados da literatura sânscrita, o *Meghaduta*, ou Mensageiro da Nuvem. A história conta um espírito da natureza, um yaksha, exilado por um ano numa região distante, longe da esposa que ama. Sem meio nenhum de mandar notícia através da distância enorme que os separa, ele se dirige a uma nuvem que passa, pedindo que ela atravesse a paisagem inteira do subcontinente indiano carregando uma mensagem de esperança até quem ele ama, do outro lado da distância.

Kalidasa entendeu, séculos antes de qualquer ciência do clima, que a mesma água capaz de salvar uma lavoura também é capaz de carregar sentimento de um lado a outro do mundo.

A nuvem, na poesia de Kalidasa, não é fenômeno meteorológico neutro. É a única forma possível de comunicação entre dois corações separados por uma distância que nenhum mensageiro humano conseguiria atravessar a tempo. Kalidasa descreve a nuvem regando jardins ressecados ao longo do caminho, molhando montanhas exaustas, cumprindo, sem saber, uma função dupla: aliviar a terra seca que atravessa e carregar, ao mesmo tempo, a esperança de um encontro que ainda vai acontecer. A chuva do sertão cumpre exatamente essa dupla função. Não molha só a terra. Carrega, junto com a água, a confirmação de que a promessa feita ano após ano ainda vale.

IV

A diplomacia da chuva

Sobre a Rainha Modjadji e o povo balobedu

Seria fácil, e desonesto, tratar essa espera pela chuva como acontecimento privado, cada família sozinha na própria porta, cada esperança isolada dentro do próprio peito. A imagem que abre este ensaio já desmente isso: o povo inteiro sai de casa ao mesmo tempo, olhando para o mesmo céu, sentindo o mesmo cheiro subir da mesma terra rachada. A espera pela chuva nunca foi assunto de um indivíduo só.

Entre o povo balobedu, no atual território da África do Sul, existe uma instituição que torna essa dimensão coletiva explícita de um jeito que nenhuma outra tradição talvez consiga igualar. Desde o início do século dezenove, a linhagem matrilinear conhecida como Rainha da Chuva governa o pequeno reino balobedu, na província de Limpopo, acreditando-se que ela detém poder real sobre as nuvens. O detalhe mais revelador dessa tradição não é a crença em si, é o comportamento que ela gerou ao longo de séculos: povos rivais, em vez de atacar o pequeno reino balobedu, enviavam emissários para pedir chuva à rainha. A diplomacia, ali, nasceu inteiramente da necessidade compartilhada de água.

A escassez, ali, produziu o efeito oposto ao que costuma provocar. Em vez de guerra, gerou séculos de súplica coletiva dirigida à mesma fonte.

A Rainha da Chuva nunca prometeu água só para o próprio povo. A instituição inteira se organizava ao redor da ideia de que a seca era problema demasiado grande para ser resolvido, ou mesmo suportado, sozinho. A porta de casa aberta, no sertão brasileiro, ecoa essa mesma lógica: ninguém espera a chuva isoladamente, porque a seca nunca castigou só uma casa.

V

O canto de quem já perdeu a conta

Sobre Patativa do Assaré

O poeta cearense Patativa do Assaré, cordelista que passou a vida inteira no interior do Ceará, cantou a seca e a chuva do sertão com uma autoridade que nenhum observador de fora jamais teria. Ele não escrevia sobre a seca como quem visita o sofrimento alheio. Escrevia como quem perdeu a conta de quantas secas já atravessou, e ainda assim nunca tratou a esperança pela chuva seguinte como ingenuidade.

Quem canta a seca de dentro dela nunca precisa escolher entre honestidade e esperança. As duas cabem no mesmo verso.

A poesia de cordel de Patativa do Assaré atravessa, com a mesma naturalidade, versos sobre a terra rachada e versos sobre a alegria explosiva da primeira chuva, sem nunca esconder a dureza real da seca para vender uma esperança fácil. Ele cantava as duas coisas juntas, porque, para quem vive no sertão, elas nunca vieram separadas. A esperança que Patativa canta não é a de quem nunca sofreu. É exatamente a esperança que Havel descrevia décadas depois, do outro lado do mundo, sem que os dois jamais tivessem se lido: a certeza de que vale a pena continuar esperando, mesmo sabendo, por experiência própria, que a seca sempre pode voltar.

VI

Reconhecimento, não surpresa

Sobre o que as quatro vozes, juntas, confirmam

O povo na porta de casa, a nuvem mensageira de Kalidasa, a rainha que negocia chuva em nome de todo um reino, o poeta que canta a seca sem esconder dela a esperança: quatro imagens, quatro tradições, convergindo para a mesma constatação. A espera pela primeira chuva nunca foi ingenuidade. É a forma mais testada de esperança que existe, porque atravessou, sem quebrar, exatamente o período em que não tinha prova nenhuma a seu favor.

Quando a água finalmente cai, e a lama vermelha se forma entre os dedos dos pés, e o cheiro de terra molhada toma conta do ar, o que se sente não é surpresa. É reconhecimento. O corpo inteiro, treinado por seca após seca, sabe exatamente o que aquele cheiro significa, porque já aprendeu, da pior forma possível, o que significa a ausência dele.

O céu muda de cor antes da primeira gota,
e o povo sai à porta,
sem que ninguém precise avisar ninguém.

Esperar não é apostar.
É sustentar, com o corpo inteiro,
uma certeza que não depende do resultado para existir.

Uma nuvem pode atravessar a paisagem inteira ressecada
carregando, ao mesmo tempo,
água para a terra e esperança para quem espera.

A seca nunca castigou uma casa só,
e por isso a chuva, quando chega,
nunca foi assunto de um indivíduo sozinho.

Existe canto que esconde a dureza para vender esperança fácil,
e existe canto que atravessa os dois,
a seca e a chuva, sem nunca separar um do outro.

A lama vermelha entre os dedos dos pés
não é surpresa.
É reconhecimento de uma promessa que se cumpriu de novo.

O cheiro de terra molhada sobe,
e o corpo inteiro, treinado por seca após seca,
sabe exatamente o que ele significa.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a Patativa do Assaré, que cantou a seca cearense sem nunca esconder dela a esperança, e ensinou, verso a verso, que era possível carregar as duas coisas juntas.

Ainda com a lama vermelha entre os dedos, Santos Moisés.

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I · A porta aberta
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