Ensaio · Conhecimento · Escrito LIV
Duas Rãs que Nunca se Falaram
Sobre por que tradições sem contato nenhum inventam, de forma independente, a mesma fábula
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I
O mesmo ângulo de fuga
II
O método que revela
III
O enovelado
Passamos as últimas semanas atravessando fábulas de continentes que nunca tiveram razão nenhuma para se conhecer, e algo começou a incomodar antes mesmo de eu conseguir nomear o quê. Na Costa do Ouro, o povo akan conta que a Lebre desafiou a Tartaruga para uma corrida por puro desdém, e a Tartaruga, sabendo que não tinha chance nenhuma sozinha contra as próprias pernas, escondeu parentes idênticas ao longo do percurso inteiro, cada uma esperando a vez de aparecer no momento certo, de modo que a Lebre, olhando para trás a cada subida, sempre visse a mesma "Tartaruga" impossivelmente à frente, sem imaginar que estava competindo contra uma família inteira disfarçada de indivíduo só. A milhares de quilômetros dali, entre os montes Apalaches, os cherokee contam praticamente a mesma história, com o Coelho no lugar da Lebre e o Terrapin no lugar da Tartaruga, corrida por quatro cristas de montanha em vez de quatro paradas de estrada, mas a artimanha final idêntica até no detalhe mais fino: parentes escondidos, disfarce coletivo, o corredor mais rápido enganado pela própria certeza de que só existia um adversário.
Ninguém documentou contato entre o povo akan e o povo cherokee antes da chegada dos europeus às Américas. Nenhuma rota comercial, nenhuma migração registrada, nenhum missionário contando a mesma história dos dois lados do oceano. E ainda assim, separadas pelo Atlântico inteiro e por quem sabe quantos séculos, as duas tradições resolveram o mesmo problema exatamente da mesma forma: quando alguém pequeno precisa vencer alguém grande, e não pode vencer pela força, a solução que aparece, de novo e de novo, é fingir ser um só enquanto se é muitos.
Sem rota comercial, sem missionário em comum, dois povos claramente distantes chegaram exatamente à mesma solução narrativa.
O mesmo aconteceu com uma fábula completamente diferente. No sudeste da Nigéria, o povo igbo conta que a Tartaruga pediu penas emprestadas aos pássaros para participar de um banquete no céu, convenceu o grupo inteiro a adotar um nome coletivo que, por acaso, também servia para ela sozinha, comeu a refeição toda alegando que pertencia a "todos", e pagou o preço quando os pássaros, furiosos, recolheram as penas e a deixaram cair, rachando para sempre a casca que hoje carrega. Nos Andes, a mesma estrutura reaparece com atores diferentes: a Raposa, querendo participar do casamento da Coruja no céu, convence o Condor a levá-la voando, insulta os papagaios que seguram a corda de volta, e cai morta quando eles, ofendidos, cortam a corda de propósito. Um continente inteiro entre as duas versões. Nenhum comércio documentado, nenhuma travessia conhecida antes da colonização. E o mesmo esqueleto por baixo: alguém que pede acesso emprestado a um mundo que não é o seu, e que a diferença de natureza acaba expondo e derrubando.
Por que isso acontece? Essa é a pergunta que este ensaio quer perseguir, e a resposta, suspeito, não é tão mística quanto parece à primeira vista, nem tão banal quanto "coincidência" faria supor.
I
A unidade psíquica
Sobre Adolf Bastian e os pensamentos elementares
O etnólogo alemão Adolf Bastian passou boa parte do século dezenove viajando, catalogando mitos, comparando rituais de povos que jamais tinham ouvido falar uns dos outros. Ele notou algo que o incomodou o suficiente para virar teoria: temas demais se repetiam entre culturas distantes demais para qualquer explicação de contato fazer sentido. A resposta que Bastian propôs ficou conhecida como unidade psíquica da humanidade. Toda mente humana, segundo ele, carrega o mesmo conjunto de pensamentos elementares, os *Elementargedanken*, ideias universais, atravessando qualquer fronteira de raça ou cultura. O que muda de um povo para outro não é a ideia elementar em si, é a roupagem que cada ambiente específico costura em cima dela, o que Bastian chamou de pensamentos populares, os *Völkergedanken*.
Bastian acertou o diagnóstico e errou a explicação: mentes parecidas não bastam para prever qual história específica elas vão inventar.
A teoria de Bastian tem um problema óbvio, que ele próprio nunca resolveu de forma satisfatória: dizer que toda mente humana pensa igual não explica por que ela produz, especificamente, uma tartaruga disfarçada de família inteira, em vez de qualquer uma das outras milhares de soluções narrativas possíveis para o mesmo problema de força desigual. Mas ele acertou em algo que décadas de folclore comparado confirmariam depois: a explicação mais simples, contato secreto entre povos, simplesmente não dá conta do volume de coincidências que aparecem quando alguém se dá ao trabalho de olhar de perto.
II
O método que revela o padrão
Sobre Yanagita Kunio e a folha de cem histórias
No Japão, o fundador dos estudos de folclore japonês, Yanagita Kunio, enfrentou uma versão menor do mesmo problema, contida dentro de um único país. Ele e seus colaboradores criaram, na década de 1930, uma ferramenta prática e sem glamour nenhum: uma folha com cem histórias representativas, cada uma numa linha, com espaço em branco ao lado para o pesquisador de campo anotar. A instrução era simples. Ao visitar uma aldeia remota e ouvir uma história nova, o coletor deveria comparar aquela história com as cem já catalogadas e marcar qual delas mais se parecia. Só quando uma história de verdade não correspondia a nenhuma das cem é que ela ganhava lugar próprio, na centésima primeira posição, reservada para o genuinamente novo.
O que esse método revelou, aldeia após aldeia, ilha após ilha, foi que a imensa maioria das histórias "novas" que os coletores ouviam já existia, sob outro nome, outro cenário, outro animal, em algum lugar do próprio arquipélago japonês. A ferramenta de Yanagita não resolveu o mistério de por que isso acontece. Mas provou, com rigor metódico, que o fenômeno era real e mensurável, não impressão vaga de pesquisador cansado depois de muitas viagens. E se dentro de um único país, com estradas, comércio e migração interna documentados havia séculos, as histórias já se repetiam de um jeito difícil de rastrear origem por origem, o que dizer de continentes inteiros sem contato nenhum?
III
O teste de campo real
Sobre Zora Neale Hurston e a diáspora negra nas Américas
A antropóloga americana Zora Neale Hurston viveu essa mesma pergunta de um jeito ainda mais concreto, porque o caso dela não era hipotético. Formada sob Franz Boas, um dos fundadores da antropologia moderna nos Estados Unidos, Hurston viajou pela Flórida, pelo Haiti, pela Jamaica, recolhendo histórias, práticas religiosas, formas de contar causos entre comunidades negras nas Américas. O trabalho dela virou, sem que ela tivesse planejado assim, um teste de campo real para uma discussão acadêmica que na época dividia a antropologia inteira: o que sobrevivia nas comunidades negras das Américas era herança direta trazida da África através da travessia forçada do Atlântico, transmitida geração após geração apesar da escravidão tentar apagar tudo, ou era invenção nova, brotando de novo, de forma independente, das mesmas pressões humanas de sobrevivência, comunidade e sentido?
Nem difusão pura, nem invenção pura. O que sobra, ao comparar fontes de verdade, é sempre mistura difícil de desfazer.
Hurston nunca chegou a uma resposta única e definitiva, e é bom que não tenha chegado, porque a resposta provavelmente não existe em versão única. O que o trabalho dela deixa claro, lendo página após página de "Mules and Men" ou "Tell My Horse", é que as duas explicações convivem, entrelaçadas, quase impossíveis de separar uma da outra depois de gerações de mistura, adaptação e reinvenção. Algumas histórias claramente atravessaram o oceano dentro da memória de quem foi sequestrado e escravizado. Outras, muito provavelmente, nasceram de novo no solo americano, respondendo às mesmas pressões concretas, a mesma necessidade de rir da própria dor, de nomear o opressor sem correr risco direto, de guardar sabedoria em forma que sobrevivesse à violência.
IV
O enovelado de coincidências
Sobre Câmara Cascudo e o gesto que ninguém mais se atreve a fazer
No Brasil, o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo escreveu, décadas antes de qualquer ferramenta de busca tornar essa comparação trivial, uma frase que resume com honestidade rara o estado real dessa discussão inteira. Segundo ele, havia um tempo em que, com o conhecimento restrito que se tinha sobre etnografia africana, asiática e dos povos das ilhas do Pacífico, ainda era possível apontar com aparente segurança de onde vinha um costume ou uma história específica. Ninguém, escreveu Cascudo, atreve-se mais a esse gesto bonito. A comparação sistemática entre fontes impressas, tradição oral e informações de povos distantes de qualquer contato conhecido, perturba a facilidade antiga de sentenciar origem única. O que sobra, depois de toda essa comparação, é o que ele chamou, numa imagem que carrega o peso exato do que este ensaio tenta descrever, de um enovelado alucinante de convergências, coincidências, presenças, influências e persistências folclóricas.
Cascudo não estava sendo evasivo por preguiça acadêmica. Estava reconhecendo algo que a pesquisa que fizemos nas últimas semanas, comparando fábulas asiáticas, africanas, do Oriente Médio, indígenas norte-americanas e andinas, confirma de novo, história após história: o enovelado é real, denso, e provavelmente não se desfaz nunca por completo, porque tentar separar, fio por fio, o que veio de contato documentado, o que veio de contato esquecido pela história, e o que nasceu duas vezes, de forma genuinamente independente, exigiria um nível de registro histórico que a humanidade, em boa parte de sua existência, nunca teve tempo nem meios de produzir.
V
O mesmo tipo de noite escura
Sobre juntar as quatro vozes sem escolher um lado só
O que proponho, juntando as quatro vozes que atravessamos aqui, é uma explicação que não escolhe um lado sozinho do enovelado, porque a evidência não permite escolher. Bastian está certo ao dizer que a mente humana, diante do mesmo tipo de problema, tende a convergir para soluções parecidas, não porque exista telepatia entre povos, mas porque o próprio problema, enganar a percepção de alguém maior fazendo-o crer que enfrenta um só quando enfrenta muitos, ou expor a diferença fatal entre quem pertence a um mundo e quem só pediu emprestado o acesso a ele, admite um número finito de soluções narrativas realmente elegantes. Yanagita prova que essa convergência acontece mesmo dentro de fronteiras pequenas, sem precisar de oceano nenhum no meio. Hurston mostra que, quando existe contato real, por mais violento e fragmentado que tenha sido, ele se mistura de forma inseparável com a reinvenção independente, ao ponto de nenhuma das duas explicações sozinha dar conta do que sobrevive. E Cascudo nomeia, com uma imagem que carrega peso emocional além do acadêmico, o estado final dessa investigação: um enovelado, não uma linha reta com origem única.
A pergunta certa talvez nunca tenha sido sobre origem. É sobre que tipo de problema exige, de qualquer mente, a mesma solução.
Talvez a pergunta certa nunca tenha sido "quem inventou primeiro". Talvez a pergunta certa seja outra: o que é que dois problemas humanos tão parecidos, vividos em terrenos tão diferentes, exigem de resposta, para que duas mentes, sem nunca terem se falado, caiam exatamente no mesmo desenho de fuga?
Duas rãs cavam em dois poços,
em dois continentes,
sem nunca terem ouvido falar uma da outra.
O mesmo tipo de terra,
a mesma pressão de tempo,
a mesma urgência de escapar.
E as duas, cavando sozinhas,
sem combinar nada,
inclinam o túnel exatamente para o mesmo lado.
Não é mensagem trocada no ar.
É o chão que só permitia
um jeito de sair.
Assim são as fábulas que atravessamos,
a Tartaruga disfarçada de família inteira,
de dois lados do Atlântico,
a Tartaruga e a Raposa,
pedindo emprestado o céu que não era delas,
de dois lados do mundo.
Ninguém copiou ninguém.
O problema era o mesmo,
e o problema só tinha uma saída boa.
Talvez seja isso, afinal,
o que realmente nos une:
não a mesma origem,
mas o mesmo tipo de noite escura
em que qualquer mente, em qualquer canto do mundo,
precisa inventar uma saída.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem se permite conhecer e aprender com outras culturas, e descobre, no meio do caminho, o quanto já tínhamos em comum antes mesmo de nos conhecermos.
Ainda cavando o mesmo túnel, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?