Ensaio · Reconhecimento · Escrito L

L

O Espelho D'Água

Sobre a hierarquia que finge que só um lado muda, e o mestre que também aprende

Ouvir este escrito · narrado

0:00--:--
1×

I

A hierarquia que finge

II

A lacuna que se revela

III

O antropólogo formado

Um professor se inclina sobre um poço para explicar a um aluno como a luz se comporta na superfície parada da água, o ângulo exato em que o reflexo se forma, a razão pela qual a imagem aparece invertida. No meio da explicação, ele vê o próprio rosto refletido ali, ao lado do rosto do aluno, os dois inclinados sobre a mesma água, na mesma posição, olhando o mesmo fenômeno.

Por um instante, não fica claro quem está mostrando o reflexo a quem. O professor continua falando sobre ângulos de incidência, mas alguma coisa nele já registrou que aquele rosto jovem ao lado do seu, fazendo a pergunta certa no momento certo, acabou de mudar algo em como ele próprio via a própria explicação, pela primeira vez em anos repetindo a mesma aula.

I

A hierarquia que finge

Sobre a proteção confortável de quem ensina

Existe uma hierarquia útil, necessária até, entre quem ensina e quem aprende: alguém precisa ter percorrido o caminho antes, precisa carregar responsabilidade sobre o que é transmitido, precisa decidir o ritmo e a ordem do que será apresentado. Nenhuma crítica a essa estrutura é o ponto deste ensaio. O problema começa quando essa hierarquia, útil no formato, é confundida com uma hierarquia no fluxo real da transformação, como se apenas o aluno mudasse durante uma aula, e o professor permanecesse exatamente quem já era antes de entrar na sala.

Proteger a própria posição custa caro: é abrir mão exatamente do tipo de ensino capaz de deixar marca nos dois lados.

Essa ficção é confortável para quem ensina. Protege a posição, sustenta a autoridade, evita a vulnerabilidade de admitir que também se está sendo formado, ali, na frente de quem supostamente veio para ser formado. Mas é exatamente essa proteção que empobrece o tipo de ensino mais raro e mais valioso que existe, o que deixa marca dos dois lados, não apenas de um.

II

Eu-Isso, Eu-Tu

Sobre Martin Buber e o encontro que transforma os dois lados

O filósofo austríaco Martin Buber, em *Eu e Tu*, descreveu duas formas radicalmente diferentes de qualquer pessoa se relacionar com outra. Na relação que ele chamou de Eu-Isso, o outro é tratado como objeto, algo a ser observado, processado, utilizado para um fim, mesmo que esse fim seja nobre, como transmitir conhecimento. Nessa relação, quem fala permanece intacto, seguro atrás do próprio papel, e quem escuta é apenas receptor.

Na relação que Buber chamou de Eu-Tu, algo inteiramente diferente acontece: um encontro genuíno, onde nenhum dos dois lados sai exatamente como entrou. Buber insistia que essa segunda forma de relação não é sentimentalismo nem técnica pedagógica aplicável por escolha. É o que acontece quando duas pessoas realmente se encontram, sem que uma reduza a outra a instrumento, mesmo que uma delas esteja, formalmente, na posição de quem ensina.

III

Ensinar e aprender se estimulam

Sobre jiao xue xiang zhang e a lacuna que só ensinar revela

A tradição confucionista registrou, no clássico conhecido como *Livro dos Ritos*, uma expressão que resume com precisão notável o que Buber descreveria séculos depois por outro caminho: jiao xue xiang zhang, que significa, literalmente, que ensinar e aprender se estimulam mutuamente. O texto original argumenta que é apenas através do próprio ato de ensinar que alguém descobre, com clareza, onde a própria compreensão ainda é incompleta.

Uma tradição de mais de dois mil anos já sabia: explicar algo a outra pessoa é o teste mais honesto do que você mesmo ainda não sabe.

Essa observação, antiga e simples, contradiz diretamente a imagem do professor como fonte pronta de conhecimento acabado, distribuindo o que já sabe integralmente para quem ainda não sabe nada. Segundo essa tradição, o próprio ato de tentar explicar algo a outra pessoa expõe, ao professor, exatamente os pontos onde sua própria compreensão era mais frágil do que ele supunha antes de precisar torná-la clara para outra mente.

IV

O momento em que se domina

Sobre o que significa, de fato, saber algo

Isso muda o que significa, de fato, dominar um assunto. Não é o momento em que alguém para de aprender sobre ele. É o momento em que alguém começa a ensiná-lo a outros, porque é exatamente nesse ato que as lacunas escondidas da própria compreensão, invisíveis enquanto o conhecimento ficava só para uso pessoal, finalmente aparecem, expostas pela pergunta de quem está aprendendo pela primeira vez e não aceita respostas vagas.

V

A técnica ensinada, a sabedoria recebida

Sobre Wangari Maathai e o que voltou das mulheres do Quênia

A bióloga queniana Wangari Maathai, primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz, fundou o Movimento Cinturão Verde ensinando mulheres rurais do Quênia a plantar árvores como estratégia de recuperação ambiental e independência econômica. Maathai chegava a essas comunidades como especialista, portadora de conhecimento técnico sobre solo, espécies nativas, técnicas de plantio que as mulheres locais não possuíam formalmente.

A técnica que Maathai levou para o Quênia voltou como sabedoria que nenhum laboratório teria ensinado a ela.

Mas Maathai declarou, repetidamente, ao longo dos anos de trabalho, que aprendeu tanto de sabedoria prática com essas mulheres quanto ensinou de técnica a elas. Conhecimento sobre o comportamento real da terra local, sobre quais árvores sobreviviam de fato às condições específicas daquela região, sobre como organizar o trabalho comunitário de um jeito que respeitasse as dinâmicas sociais já existentes, tudo isso ela recebeu de volta, no mesmo movimento em que ensinava a técnica que trouxera.

VI

O antropólogo formado por quem veio formar

Sobre Darcy Ribeiro e a formação que a academia não deu sozinha

O antropólogo e educador brasileiro Darcy Ribeiro viveu anos convivendo com povos indígenas brasileiros antes de se tornar um dos fundadores da Universidade de Brasília e um dos pensadores mais influentes da educação pública no país. Ribeiro chegava a essas comunidades como pesquisador, formalmente na posição de quem observa e registra, não de quem aprende no sentido convencional do termo.

Mas ele próprio afirmou, em diferentes momentos da vida, que sua formação como pensador da educação brasileira devia mais ao que absorveu convivendo com os povos que estudou do que a qualquer título acadêmico que carregasse. A experiência de conviver, de ser corrigido em suas próprias suposições, de aprender a ver a organização social e o conhecimento de outro jeito, moldou o educador que ele viria a se tornar tanto quanto, ou mais, do que qualquer formação universitária formal.

VII

O reflexo ao lado

Sobre o que o espelho d'água literalmente descreve

O espelho d'água do início deste ensaio não é força de expressão vazia. É descrição literal do que acontece toda vez que uma relação de ensino é genuína, no sentido que Buber descreveu, no sentido que a tradição confucionista registrou, no sentido que Maathai e Darcy Ribeiro viveram cada um a seu modo. O professor se inclina para mostrar algo ao aluno, e no mesmo movimento, sem planejar, vê o próprio reflexo junto ao reflexo de quem aprende.

Sair de uma aula exatamente como se entrou não é sinal de eficiência. É sinal de que o encontro não aconteceu de verdade.

Não hierarquia que finge simetria onde não existe. Mas reconhecimento honesto de que a transformação, quando o ensino é real, nunca corre em uma única direção. O professor que sai de uma boa aula exatamente como entrou não ensinou tão bem quanto pensa. Só transmitiu.

Um professor se inclina sobre o poço
para explicar a um aluno como a luz se reflete.

No meio da explicação,
vê o próprio rosto ao lado do rosto que aprende,
os dois inclinados sobre a mesma água.

Ensinar e aprender se estimulam mutuamente,
disse uma tradição há muito mais tempo
do que qualquer sala de aula moderna admite.

A lacuna só aparece
quando alguém tenta explicar o que julgava saber inteiro.
E a técnica ensinada
sempre volta como sabedoria recebida,
se houver espaço para recebê-la.

O professor que sai de uma aula
exatamente como entrou
não ensinou tão bem quanto pensa.
Só transmitiu.

O mestre de verdade
sai do próprio poço
com o rosto um pouco diferente
do que era antes de se inclinar.

Dedicatória

Este escrito é dedicado ao mestre que aprende, que se inclina sobre o poço para mostrar o reflexo a alguém e descobre, no meio da explicação, o próprio rosto mudado ali dentro.

Ainda inclinado sobre o próprio poço, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · A hierarquia que finge
Biblioteca