Ensaio · Memória · Escrito XVII

XVII

O Que a Gente Carrega

Ensaios sobre a condição humana a partir da literatura brasileira

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Palavra

Uma Palavra Antes

I–II

O Corpo · A Ferida

III–IV

A Fome · A Dignidade

V–VI

A Linguagem · O Ordinário

VII–VIII

O Saber · A Escrita

IX–X

O Encontro · O que Fica

Cena

Uma Cena Imaginada

Palavra

Uma Palavra Antes

Tenho um jardim no décimo quarto andar. Quem ouve isso pela primeira vez estranha, e tem razão de estranhar. Jardim é chão, é terra batida, é o lugar onde as coisas crescem porque a chuva vem e o sol esquece de perguntar permissão. Jardim no décimo quarto andar é uma contradição que só faz sentido para quem decidiu, em algum momento, que certas contradições merecem ser habitadas em vez de resolvidas. As plantas estão lá há mais de vinte anos. O mar está do outro lado da janela. E há dias em que fico parado entre as folhas e o horizonte sem saber exatamente onde estou, se dentro ou fora, se em Fortaleza ou em nenhum lugar específico, se no presente ou dentro de alguma memória que ainda não sei que tenho.

Foi num desses dias que este ensaio começou, embora eu não soubesse ainda que era um ensaio. Era apenas uma pergunta que não saía: por que a literatura brasileira me alcança de um jeito que a filosofia europeia, com toda a sua precisão e beleza, frequentemente não alcança? Não é questão de qualidade. É questão de proximidade. Quando leio Hegel, entendo. Quando leio Clarice, reconheço. Quando leio Manoel de Barros, me lembro de algo que nunca vivi mas que juro que sei.

E foi Machado de Assis quem me deu a chave. Não de uma vez, não numa página específica. Foi por acumulação, por releituras de Memórias Póstumas de Brás Cubas feitas em momentos diferentes da vida, quando finalmente parei de ler Brás Cubas como personagem e comecei a lê-lo como diagnóstico. Machado havia feito algo que nenhum filósofo brasileiro havia feito antes ou desde: havia radiografado a alma nacional sem nenhuma das condescendências que a radiografia normalmente exige, sem o melodrama que o tema pedia, sem a indignação que seria a resposta mais fácil.

Brás Cubas é o Brasil olhando para si mesmo e se absolvendo. Machado é o Brasil olhando para Brás Cubas e não se absolvendo. A diferença entre os dois é onde mora a literatura.

Filosofia europeia explica. Literatura brasileira devolve o peso de uma lembrança que talvez nunca tenha sido vivida, mas que chega como se fosse.

A partir de Machado, os outros escritores que este ensaio convoca ganham coordenadas. Carolina Maria de Jesus escreve do quarto de despejo onde Brás Cubas nunca olhou. Graciliano Ramos descreve o que o sistema de Brás Cubas produz nos que ficam fora do jogo. Clarice Lispector vai para dentro de onde Brás Cubas nunca teve coragem de ir. Guimarães Rosa inventa uma língua para o Brasil que Brás Cubas nunca visitou. Conceição Evaristo nomeia os que Brás Cubas descreveria apenas como pano de fundo. Manoel de Barros olha para o chão que Brás Cubas nunca abaixou a cabeça o suficiente para ver.

A tese que este ensaio desenvolve é simples de enunciar e difícil de esgotar: a literatura brasileira não é apenas arte. É o único arquivo completo do que significa ser humano num país que nunca resolveu suas fraturas fundadoras. Cada grande escritor brasileiro carregou, consciente ou não, uma das perguntas que a civilização ocidental formulou em abstrato e o Brasil viveu em carne.

I

O Corpo Sabe Primeiro

Sobre a experiência que antecede o pensamento

Numa manhã de 1964, em algum apartamento do Rio de Janeiro, uma mulher chamada G.H. abriu a porta do quarto da empregada e encontrou uma barata. Essa cena banal ocupa mais de cem páginas de um dos romances mais perturbadores escritos em língua portuguesa. E o que acontece nessas cem páginas não é ação, não é trama: é um corpo sendo atravessado por uma experiência que a mente ainda não tem vocabulário para nomear.

Clarice Lispector sabia, antes de qualquer teórico que ela provavelmente não leu, que o conhecimento humano não começa na razão. Começa no corpo. Começa na nauseia de G.H. diante da barata, na tontura antes da compreensão, no instante em que algo acontece com a carne antes que a cabeça saiba o que está acontecendo. Toda A Paixão Segundo G.H. é, em sua estrutura mais profunda, um argumento contra o primado da mente.

Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês, passou anos tentando desmontar, com as ferramentas da filosofia, o dualismo que separa corpo e mente. Em sua Fenomenologia da Percepção, argumenta que o corpo não é o recipiente onde a mente mora: o corpo é a forma primária de estar no mundo. O pensamento não acontece apesar do corpo. Acontece através dele, com ele, a partir dele. Clarice não precisou de Merleau-Ponty para saber isso. A filosofia chegou à mesma conclusão pelo argumento. A literatura chegou antes pela experiência.

O corpo que Adélia Prado habita em sua poesia aponta para a mesma direção. Adélia não nauseia. Ela cozinha, ela deseja, ela envelhece, ela reza com o mesmo gesto com que descasca batatas. O sagrado, em Adélia, não desce do céu para visitar quem parou de fazer as tarefas domésticas. O sagrado está exatamente nas tarefas domésticas, na textura do pão que as mãos amassam, no cansaço do corpo que se deita e ainda assim sente.

É aqui que Conceição Evaristo entra com uma especificidade que nem Clarice nem Adélia alcançam: o corpo negro feminino brasileiro carrega uma história que antecede qualquer escolha individual. É um corpo que foi escravizado, que foi vendido, que foi usado como instrumento antes de ser reconhecido como sujeito. Evaristo cunhou o conceito de escrevivência precisamente para nomear essa relação entre o corpo que viveu e a escrita que nasce dessa vida.

O corpo sabe primeiro. E o resto é tentativa de alcançar o que ele já sabe.

A filosofia ocidental construiu durante séculos uma desconfiança sistemática do corpo como lugar de conhecimento. Platão queria libertar a alma da prisão do corpo. Descartes tinha certeza da existência do eu pensante e precisou fazer um esforço considerável para provar que o corpo também existia. Clarice, Adélia e Evaristo, cada uma à sua maneira, responderam a essa tradição não com argumento, mas com obra.

"Não me perguntes como estou, pergunta-me o que estou sentindo. São coisas inteiramente diferentes."
Clarice Lispector, Água Viva

II

A Ferida que Não Fecha

Sobre o Brasil como fratura permanente

Em outubro de 1897, o arraial de Canudos foi destruído pela quarta expedição militar enviada pelo governo da República brasileira. Não destruído no sentido de derrotado. Destruído no sentido literal: as casas foram demolidas, os corpos foram degolados ou queimados, e o nome do lugar foi apagado dos mapas oficiais. Estima-se que morreram entre quinze e trinta mil pessoas. A imprensa da época cobriu o evento com entusiasmo: a República havia vencido o fanatismo.

Euclides da Cunha foi enviado como correspondente de guerra e voltou com algo que o jornal não havia encomendado: uma crise de consciência que durou o resto da vida e resultou em Os Sertões. O livro começa como reportagem e termina como acusação. A frase que encerra o livro, sobre um crime que não prescrevia, ficou famosa. O que ficou menos famoso é o diagnóstico que a precede: o Brasil não matou Canudos por ódio. Matou por indiferença. E a indiferença é mais perigosa que o ódio porque não se reconhece como violência.

Walter Benjamin, filósofo e crítico cultural alemão, escreveu sobre o anjo da história: um anjo com o rosto voltado para o passado, os olhos arregalados diante de uma pilha crescente de escombros, enquanto uma tempestade sopra das costas dele em direção ao futuro. Benjamin escreveu que essa tempestade é o que chamamos de progresso. Euclides da Cunha foi esse anjo antes de Benjamin o descrever.

Lima Barreto viveu esse apagamento de dentro. Negro, pobre, funcionário público de baixo escalão no Rio de Janeiro do início do século vinte, tentou entrar na Academia Brasileira de Letras três vezes e foi recusado as três. Triste Fim de Policarpo Quaresma é a história de um homem que acredita genuinamente nas promessas da República e vai sendo destruído por elas uma a uma.

Achille Mbembe, filósofo camaronês que desenvolveu o conceito de necropolítica, oferece a ferramenta mais contemporânea para entender o que Lima Barreto viveu. A necropolítica é o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer, exercido também pelo abandono: a decisão administrativa de não construir hospital em certo lugar, de não levar saneamento a certa favela. A morte por abandono não aparece nos registros como assassinato. Mas é uma política de morte tanto quanto a execução deliberada.

A ferida que não fecha não é metáfora. É o endereço onde muita gente ainda mora.

"Sou produto de um país ainda por fazer, sem tempo para fazer-me."
Lima Barreto, Diário Íntimo

III

A Fome que Denuncia

Sobre a privação como experiência filosófica

Em 2 de maio de 1958, uma mulher acordou antes do sol, pegou um saco e saiu para catar papel no lixo da cidade de São Paulo. Antes de sair, escreveu no caderno rasgado que guardava debaixo do colchão: Amanheceu. Levantei as crianças. Fui buscar água. Não tenho o que dar de comer para eles. Fui catar papel. Essa frase, com sua sequência implacável de verbos no pretérito, contém mais filosofia sobre a condição humana do que muitos tratados escritos em gabinetes aquecidos. Não porque seja mais inteligente que os tratados. Porque é mais verdadeira.

John Rawls, filósofo político americano, publicou Uma Teoria da Justiça em 1971, treze anos depois daquela manhã de maio em São Paulo. Propôs o experimento do véu da ignorância: imagine que você precisa desenhar os princípios de uma sociedade justa sem saber, de antemão, qual será o seu lugar dentro dela. O problema do véu de Rawls, quando se lê Carolina, aparece com uma clareza que a filosofia analítica raramente alcança: o véu já caiu. Carolina não estava atrás de nenhum véu em 2 de maio de 1958.

Graciliano Ramos chegou à mesma fome por um caminho diferente. Em Vidas Secas, a família de Fabiano atravessa o sertão nordestino fugindo da seca com uma cachorra chamada Baleia e dois filhos sem nome próprio no texto. Essa ausência de nome não é descuido literário. É o gesto mais preciso do romance: a pobreza extrema retira das pessoas não apenas o conforto e a segurança, retira também a particularidade. Transforma sujeitos em tipos.

Quarto de Despejo foi publicado em 1960 e vendeu mais de cem mil exemplares nos primeiros meses. Carolina foi para a televisão, foi para as livrarias, foi para as conferências. E então o Brasil perdeu o interesse, como o Brasil costuma perder o interesse quando a novidade passa. Ela morreu em 1977 praticamente esquecida, ainda pobre. Esse arco, da descoberta ao esquecimento, não é acidente biográfico. É estrutura.

A fome que denuncia não pede audiência. Ela apenas continua existindo, todos os dias, até que alguém decida finalmente prestar atenção.

"Fui ao armazém comprar arroz, feijão e banha. Falei ao Senhor Arnaldo que eu não tinha dinheiro. Ele falou: Então, não."
Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo

IV

A Dignidade que Não Pede Licença

Sobre a resistência sem heroísmo

Ponciá Vicêncio herdou do avô um gesto. Não uma terra, não um nome que valesse alguma coisa. Herdou um gesto: o braço esquerdo dobrado para trás, paralisado naquela posição como se ainda estivesse algemado, como se o corpo do velho tivesse decidido carregar para sempre a memória do que as palavras não podiam dizer. Quando Conceição Evaristo abre o romance com esse detalhe, ela está propondo uma teoria da dignidade: a dignidade humana não se transmite pelo sobrenome, não pelo título, não pela propriedade. Transmite-se pelos gestos. Pelo que o corpo guarda quando a história oficial apagou tudo o mais.

Emmanuel Levinas, filósofo franco-lituano, construiu uma filosofia inteira em torno de uma intuição que Evaristo habita sem precisar enunciá-la: a ética começa no rosto do outro. O que Evaristo acrescenta a Levinas é a pergunta sobre o que acontece quando o rosto do outro foi sistematicamente treinado a não ser visto. A história brasileira produziu um aparato inteiro de invisibilização destinado a fazer com que certos rostos não convocassem a responsabilidade que Levinas descreve.

Fabiano, o protagonista de Vidas Secas, é a imagem literária mais poderosa que a prosa brasileira produziu de uma dignidade que existe sem vocabulário para se anunciar. Quando ele tenta falar com alguém de fora do seu mundo imediato, as palavras não saem direito, embaralham, e ele se cala com vergonha, convencido de que a culpa é sua. Mas há algo em Fabiano que não cede. Graciliano não o romantiza, não o transforma em herói. E ainda assim há, na teimosia com que ele continua existindo, algo que a filosofia reconheceria como força vital.

Ponciá Vicêncio nunca recebeu do Brasil o que o Brasil lhe devia. O que recebeu foi o braço dobrado do avô. Isso não é consolação. É o único tipo de riqueza que a violência histórica não conseguiu confiscar.

"Vim ao mundo para ser gente. Não vim para ser coisa."
Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio

V

Quando a Linguagem Falha

Sobre os limites do dizível

Existe uma cena no início de Grande Sertão: Veredas que nenhum leitor esquece, não porque seja dramática, mas porque é imediatamente desconcertante. O narrador, Riobaldo, começa a falar e não para mais. E o que sai é uma mistura de português que existe e português que nunca existiu, de expressões do sertão mineiro e de palavras que Guimarães Rosa inventou porque as que havia não chegavam onde ele precisava chegar.

Guimarães Rosa não inventou uma nova língua por experimentalismo. Inventou porque a língua que tinha não era suficiente para o que precisava dizer. O sertão era denso demais, ambíguo demais, metafísico demais para uma língua que havia sido moldada pelas necessidades de outra realidade. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein escreveu: os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo. A frase é frequentemente lida como afirmação do poder da linguagem. Deveria ser lida como advertência sobre seus limites. Guimarães Rosa passou a vida inteira recusando esse silêncio.

Clarice Lispector chegou ao mesmo precipício por uma estrada completamente diferente. Em Água Viva, abandona completamente a narrativa. Não há personagens com nomes. Não há sequência de eventos. Há uma voz que tenta capturar o instante, não o que o instante significa, mas o instante em si, enquanto está acontecendo. A dificuldade de Água Viva não é dificuldade de vocabulário. É dificuldade de estrutura.

Hilda Hilst empurrou tudo isso até o limite onde a linguagem não apenas falha mas explode. Ela estava tentando fazer algo que ela própria sabia ser impossível: dar linguagem ao silêncio de Deus. Não à ausência de Deus, não ao ateísmo confortável. Ao silêncio específico de um Deus que poderia responder e não responde.

A linguagem que falha honestamente diz mais do que a que finge que deu conta.

"Viver é muito perigoso."
Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

VI

O Ordinário como Portal

Sobre o sagrado que se esconde no cotidiano

Manoel de Barros passou setenta anos de obra dizendo a mesma coisa de formas diferentes, e a coisa era esta: o que não serve para nada é o que mais importa. Ele escreveu sobre o lodo, sobre o lagarto, sobre o menino que aprende a desfazer palavras para ver o que há dentro delas. Escreveu sobre a inutilidade como categoria filosófica, sobre o descartado como lugar de revelação, sobre o chão úmido como texto a ser lido por quem ainda sabe se abaixar.

Martin Heidegger, filósofo alemão, passou boa parte de sua obra tentando nomear esse fenômeno sem conseguir, porque o nomear já distorce. Manoel de Barros não precisou de Heidegger para saber isso. Sabia pelo Pantanal, pelo lodo das margens do rio, pela infância que ele reinventava em cada ensaio como se a infância não fosse passado mas método.

Adélia Prado chegou ao mesmo lugar pela cozinha. Literalmente pela cozinha, pelo fogão, pelo cheiro do pão que cresce, pela textura da farinha nas mãos. Adélia é católica de uma forma que desconcerta tanto os que não são quanto os que são: sua fé não habita o templo, habita o quintal. Simone Weil escreveu sobre a atenção como a forma mais alta de generosidade: o esvaziamento de si mesmo suficiente para que o real chegasse sem distorção. A atenção de Adélia Prado é exatamente o que Weil descreve.

O portal não se abre para quem o procura. Abre para quem parou de procurar qualquer outra coisa e ficou, finalmente, onde estava.

"As coisas que não têm nome são mais pronunciadas pelas crianças."
Manoel de Barros, Livro sobre Nada

VII

O Saber e Sua Sombra

Sobre a inteligência como armadilha e como libertação

Brás Cubas está morto quando começa a narrar. Não há reputação a proteger, não há futuro a planejar, não há consequência possível para nenhuma revelação. E ainda assim Brás Cubas mente. Não deliberadamente, não com a consciência de quem sabe que está distorcendo. Mente da forma mais sofisticada possível: construindo uma narrativa de si mesmo que o absolve sistematicamente, que transforma cada falha em circunstância, cada crueldade em inevitabilidade.

Machado de Assis construiu com isso o mais devastador retrato que a literatura brasileira produziu da inteligência a serviço do ego. Brás Cubas é inteligente. É culto. E usa toda essa inteligência para uma única finalidade, que nunca declara mas que organiza cada página do ensaio: não se ver. A inteligência de Brás Cubas é um aparato de proteção contra o autoconhecimento.

Lima Barreto viveu o avesso de Brás Cubas com uma crueldade que o avesso geralmente impõe. Também era inteligente, também era culto. Mas Lima Barreto não podia usar sua inteligência para se proteger, porque estava inscrita num corpo que o Brasil de 1900 havia decidido não reconhecer como repositório legítimo de inteligência. Era negro, era pobre, tinha todos os instrumentos do saber e nenhum dos privilégios que deveriam vir com eles.

O saber que liberta é o saber que aceita olhar para a própria sombra. O saber que nunca se vira contra quem o possui não é saber. É conforto intelectual com nome científico.

"Algum dia, alguém vai me ler e vai entender por que era preciso dizer isso."
Lima Barreto, Diário Íntimo

VIII

A Escrita como Ato Ético

Sobre o testemunho como responsabilidade

Em março de 1936, Graciliano Ramos foi preso em Maceió sem acusação formal, sem mandado, sem julgamento. Dez meses no total, sem saber quando sairia, se sairia, o que estava sendo acusado de ter feito. Saiu em 1937. E esperou mais de dez anos antes de escrever Memórias do Cárcere. Essa espera não foi procrastinação. Foi parte do método. Graciliano sabia que o melodrama é a forma mais eficaz de trair o que se está tentando narrar. Esperou até que a raiva esfriasse o suficiente para que a precisão fosse possível.

Jean-Paul Sartre argumentou que o escritor é sempre responsável pelo que escreve porque a escrita é sempre um ato dirigido a alguém. O escritor que finge escrever fora do tempo, em nome de uma arte pura que não se compromete com nenhuma causa, está fazendo uma escolha política tão clara quanto quem se compromete explicitamente: está escolhendo o lado de quem tem interesse em que as circunstâncias não sejam nomeadas.

Carolina Maria de Jesus nunca teve o problema de Jorge Amado no período militante: não havia nenhuma organização pedindo que ela moldasse o testemunho para servir a uma causa. Havia apenas ela, o caderno rasgado, e a necessidade de nomear o que estava acontecendo antes que o que estava acontecendo a destruísse completamente. A escrita de Carolina é o único ato de agência disponível para uma mulher que a cidade havia colocado no quarto de despejo.

Enquanto o caderno rasgado de Carolina existir, a favela do Canindé existe. A escrita não ressuscita os mortos. Mas impede que sejam enterrados duas vezes.

"Não escrevo por acaso. Escrevo porque alguém precisa saber o que aconteceu aqui."
Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere

IX

O Encontro como Fundamento

Sobre o outro como condição do eu

Um homem pega uma canoa e vai para o meio do rio. Não vai pescar, não vai atravessar para a outra margem. Fica no meio. Dorme no meio, come o que os filhos deixam na beira, e nunca mais volta para a margem onde a vida acontecia. A família espera. Os anos passam. O filho que narra a história envelhece esperando entender o que aquilo significou, e chega ao fim da vida sem entender.

A Terceira Margem do Rio é o retrato mais preciso que a literatura brasileira produziu de uma forma específica de solidão: não a solidão de quem está sozinho, mas a solidão de quem está presente e inacessível ao mesmo tempo. Martin Buber, filósofo austríaco, passou a vida construindo uma filosofia do encontro centrada na distinção entre a relação Eu-Tu e a relação Eu-Isso. Na relação Eu-Tu, o outro é encontrado como sujeito pleno. Na relação Eu-Isso, o outro é tratado como objeto de experiência.

Raduan Nassar chegou ao encontro impossível pelo caminho mais arcaico: a família como estrutura que abraça e sufoca ao mesmo tempo. Em Lavoura Arcaica, cada palavra que os dois irmãos trocam carrega o peso de tudo o que nunca foi dito antes, de tudo o que a estrutura familiar não permitia que fosse dito.

Toda solidão começa com um encontro que não aconteceu do jeito que precisava acontecer. E toda comunidade começa com alguém que decidiu tentar de novo, mesmo sem garantia de que desta vez seria diferente.

"Meu pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo. E nunca disse uma palavra a mais."
Guimarães Rosa, A Terceira Margem do Rio

X

O Que Fica

Sobre o legado como consequência, não como projeto

Machado de Assis morreu em 1908 e foi enterrado com honras que o Rio de Janeiro reservava para quem havia chegado onde ele havia chegado. E o Brasil que o enterrou era razoavelmente convicto de que sabia quem ele havia sido. Não sabia. O Brasil de 1908 leu Machado como o escritor do realismo refinado. Levou décadas para que a crítica começasse a enxergar o que estava ali desde o começo: que Machado havia construído, por baixo da elegância e da ironia, uma das análises mais demolidoras que alguém já produziu sobre a hipocrisia das classes dominantes brasileiras.

Carolina Maria de Jesus construiu o arco inverso. Foi celebrada em vida por dois anos, esquecida por décadas, e está sendo redescoberta no século vinte e um com uma urgência que a celebração dos anos 1960 não tinha, porque a urgência da situação que ela descreveu continua sendo urgência.

O padrão que emerge desses dez escritores, quando se olha para as trajetórias e não apenas para as obras, é perturbador na sua consistência: os que foram mais celebrados em vida são frequentemente os que duraram menos, e os que foram mais ignorados em vida são frequentemente os que duraram mais. O presente reconhece o que já sabe reconhecer. O tempo confirma o que era verdadeiro independentemente de ter sido reconhecido.

Nenhum deles estava pensando no legado quando escrevia. Estavam pensando no lápis, no lodo, na narrativa que precisava existir. É exatamente por isso que o legado existe.

O que fica não é o que foi planejado para ficar. É o que era tão verdadeiro que o tempo não soube como destruir.

Cena

Uma Cena Imaginada

Imagine que todos eles estão na mesma sala. Machado de Assis num canto, observando com a ironia de quem já viu esse tipo de reunião antes e sabe como termina. Carolina Maria de Jesus perto da janela, de pé, porque ainda não se acostumou com a ideia de que tem lugar garantido em salas como essa. Manoel de Barros no chão, provavelmente, olhando para algo no rodapé que os outros ainda não perceberam. Guimarães Rosa andando de um lado para o outro, misturando línguas dentro da mesma frase. Clarice Lispector sentada com um copo d'água que não bebe, presente e completamente alhures ao mesmo tempo. Graciliano Ramos em silêncio, contando o que há na sala com a precisão de quem passou dez meses contando o que havia num navio. Conceição Evaristo ouvindo tudo antes de falar. Lima Barreto já irritado com alguma coisa que ainda não disse. Adélia Prado rezando baixinho sem que isso interrompa a conversa. Hilda Hilst esperando que alguém tenha a coragem de fazer a pergunta real.

Alguém pergunta: o que é o Brasil?

O silêncio que se segue é longo o suficiente para que cada um na sala perceba que nenhuma resposta individual será suficiente. A pergunta é grande demais para qualquer uma das vozes sozinha.

Carolina: o Brasil é o quarto de despejo onde moram as pessoas que a casa grande prefere não ver.

Machado sorri com um lado só da boca: o Brasil é um narrador não confiável que acredita genuinamente em tudo o que diz.

Guimarães Rosa: o Brasil é a travessia que não tem outra margem, só a de partir e a de chegar, e entre as duas o sertão que é o mundo.

Graciliano não diz nada por um tempo. Depois: o Brasil é o que sobra depois que retiram tudo o que não era necessário.

Clarice olha para o copo d'água: o Brasil é o instante antes de você saber o que está sentindo.

Manoel de Barros levanta os olhos do rodapé: o Brasil é o que cresce no lugar onde ninguém plantou nada.

Conceição Evaristo: o Brasil é a memória que o corpo guarda quando a história oficial esqueceu.

Lima Barreto: o Brasil é a promessa que nunca se cumpre inteiramente para quem mais precisaria que se cumprisse.

Adélia Prado: o Brasil é Deus morando em lugares onde a teologia não pensa em procurar.

Hilda Hilst, por último: o Brasil é a pergunta que fazemos a Deus e que Deus ainda não respondeu. E enquanto a resposta não vem, a gente escreve.

A sala fica em silêncio de novo. Não o silêncio do fim. O silêncio de antes de começar.

Carregando o que a vida ensinou a carregar, Santos Moisés.

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