Ensaio · Sistema · Escrito XXXI

XXXI

A Esteira que Esmaga

Sobre o sistema que nos formata antes de perguntar o que queríamos ser

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I

O talento sem valor

II

A vida pausa

III

A roda que gira

IV

A dádiva mal vivida

V

As interfaces

VI

As vitrines

Numa sala de aula, fileiras de carteiras enfileiradas voltadas para uma única direção, uma criança pequena aprende, antes de qualquer conteúdo escolar propriamente dito, a esperar o sinal, a levantar a mão antes de falar, a permanecer sentada por períodos que nenhum corpo infantil pediu para suportar. Ninguém explica a essa criança por que o sinal soa nos horários em que soa, nem por que sentar-se imóvel durante quarenta minutos seguidos é considerado comportamento adequado. Ela simplesmente aprende, pela repetição diária, que existe uma ordem a ser obedecida antes de existir qualquer pergunta sobre o que ela gostaria de aprender, ou sobre o ritmo em que seu próprio corpo e sua própria mente funcionam melhor.

Michel Foucault dedicou parte substancial de sua obra a descrever exatamente esse processo, ao qual deu o nome de fabricação de corpos dóceis. Para Foucault, instituições como a escola, o quartel e mais tarde a fábrica não apenas transmitem conteúdo ou disciplina no sentido moral da palavra. Elas produzem, através de horários rígidos, vigilância constante e punição sistemática de pequenos desvios, um tipo específico de corpo: dócil no sentido literal, treinado a obedecer sinais externos antes de qualquer capacidade de questionar sua origem ou sua necessidade. O poder, nessa análise, não opera principalmente através de proibições explícitas. Opera através da normalização silenciosa do que se considera comportamento aceitável, internalizada tão cedo que, quando a pessoa adulta finalmente teria condições de questionar, já nem percebe mais que há algo a ser questionado.

Ivan Illich, filósofo austríaco, escrevendo poucos anos antes de Foucault publicar sua obra mais influente, chegou a uma conclusão semelhante por outro caminho. Em sua proposta de desescolarização da sociedade, Illich argumentou que a escola, tal como estruturada no mundo industrializado, ensina muito menos conteúdo genuíno do que aprendizado de submissão a calendários, hierarquias de avaliação e currículos definidos por interesses distantes do desejo real de aprender de cada estudante. A escola, para Illich, prepara menos para o conhecimento do que para o encaixe: o encaixe numa linha de produção, num escritório, numa rotina que exigirá, décadas depois, a mesma capacidade de esperar sinais e obedecer horários que a sala de aula já vinha ensaiando desde os primeiros anos de vida.

É aqui, muito antes do primeiro salário, muito antes de qualquer escolha profissional consciente, que a engrenagem começa a instalar suas primeiras peças. Este ensaio percorre seis desses mecanismos, cada um nomeado por pensadores que dedicaram a vida a expor exatamente o que a naturalização cotidiana insiste em manter invisível, e cada um confrontado, em seguida, por uma tradição oriental que enxergou, séculos antes, uma saída possível para o mesmo mecanismo de aprisionamento.

I

O talento que não vale nada

Sobre a coisificação do que não gera lucro

Sob a lógica que organiza a vida produtiva contemporânea, um talento só passa a ser socialmente reconhecido quando se torna monetizável, quando se converte em profissão, produto ou marca pessoal vendável. Um dom que não gera receita é tratado, com frequência até por quem o possui, como hobby, distração, coisa menor, algo a ser praticado nas margens do tempo que sobra depois do trabalho que realmente conta.

Karl Marx descreveu o mecanismo por trás dessa hierarquia de valor através da distinção entre valor de uso e valor de troca. Uma coisa tem valor de uso quando satisfaz uma necessidade humana direta, independentemente de qualquer mercado. Tem valor de troca quando pode ser convertida em dinheiro através da venda. O capitalismo, argumentava Marx, tende a subordinar sistematicamente o primeiro tipo de valor ao segundo, até que a própria capacidade humana de avaliar o que importa passe a operar quase exclusivamente pela pergunta: isso pode ser vendido?

Georg Lukács, filósofo húngaro, décadas depois, deu a esse fenômeno o nome que melhor o descreve: reificação, a transformação de relações e capacidades humanas em coisas, objetos que parecem existir independentemente das pessoas que os produziram, e que só ganham realidade social plena quando podem circular como mercadoria no mercado. Um talento reificado deixa de ser parte de quem alguém é e passa a ser avaliado como ativo: rentável ou não rentável, escalável ou não escalável, com ou sem potencial de monetização. O que não se encaixa nessa gramática simplesmente perde peso ontológico, torna-se, aos olhos do próprio sistema e muitas vezes aos olhos de quem o pratica, quase inexistente.

A tradição taoista chinesa oferece, contra essa lógica, uma das imagens mais poderosas já formuladas sobre o valor daquilo que não serve a nenhum propósito produtivo.

Zhuangzi conta a história de uma árvore enorme e retorcida, de madeira tão irregular e imprestável que nenhum carpinteiro jamais quis cortá-la para fazer móveis, vigas ou qualquer objeto útil. Por essa mesma inutilidade completa, a árvore escapou do machado durante séculos, crescendo livre, imensa, oferecendo sombra generosa a quem passasse por baixo dela, enquanto as árvores retas e úteis da floresta eram cortadas, uma a uma, exatamente por servirem a algum propósito comercial. Zhuangzi chamou esse princípio de a utilidade da inutilidade: aquilo que não serve ao mercado é, muitas vezes, precisamente o que sobrevive inteiro, o que continua sendo, sem precisar justificar sua existência através de nenhuma transação. Um talento que resiste à monetização não é, sob essa luz invertida, um talento desperdiçado. É, talvez, o único que ainda pertence inteiramente a quem o possui.

II

Quando falta dinheiro, a vida pausa

Sobre a precariedade como controle

Sem dinheiro suficiente, projetos de vida inteiros entram em suspensão indefinida, não por falta de vontade ou de talento, mas pela ausência pura e simples de condição material. Um curso não começa. Uma mudança não acontece. Um tratamento de saúde é adiado. A vida, nesses momentos, não avança nem recua: pausa, numa espécie de estado suspenso que pode durar meses ou anos, esperando que a circunstância financeira mude o suficiente para que o movimento seja retomado.

David Graeber, em sua extensa história antropológica da dívida, argumenta que o endividamento estrutural funciona como forma de controle moral tão eficaz quanto qualquer prisão física, precisamente porque transforma a sobrevivência cotidiana em obrigação perpétua, sempre a um imprevisto de distância do colapso completo. A dívida, mostra Graeber, nunca foi apenas mecanismo econômico neutro. Foi, ao longo de toda a história registrada, instrumento de subordinação, capaz de transformar pessoas livres em reféns permanentes de credores, sistemas bancários ou, na versão contemporânea, de faturas recorrentes que nunca terminam de ser pagas.

Mas há uma camada dessa paralisia que raramente aparece nas análises estruturais, porque não se mede em números, apenas se sente por dentro, e é justamente aí que ela produz seu dano mais duradouro. A falta de dinheiro não paralisa apenas o projeto adiado. Paralisa, antes disso, a própria capacidade de imaginar o projeto como possível. Existe uma exaustão cognitiva específica de quem vive sob escassez sustentada, documentada por pesquisadores como o economista Sendhil Mullainathan e o psicólogo Eldar Shafir: a mente ocupada em calcular, o tempo todo, o que falta, quanto falta, até quando vai faltar, tem menos espaço mental disponível para qualquer outra coisa, incluindo a própria esperança. Não é fraqueza de caráter. É a arquitetura previsível de uma mente sob pressão constante, a mesma mente que, em condições de folga, planejaria, sonharia, arriscaria, e que sob escassez apenas sobrevive, um vencimento de cada vez.

A dívida, nesse sentido, não é só financeira. É também uma dívida de futuro, uma hipoteca sobre a própria capacidade de imaginar outra vida possível, cobrada em juros de autoestima corroída, dia após dia, sem que ninguém assine contrato nenhum para isso.

É aqui que a violência simbólica descrita pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu completa o quadro. Bourdieu mostrou como uma estrutura de dominação se naturaliza a tal ponto que a própria pessoa dominada por ela passa a aceitar sua condição como resultado de mérito ou falha pessoal, não como produto de uma estrutura desenhada, com precisão histórica, para funcionar exatamente daquele jeito desigual. Quem vive endividado raramente enxerga isso, no momento em que mais dói, como resultado de um sistema construído sobre juros compostos, salários estagnados e acesso desigual a oportunidade. Enxerga, quase sempre, como fracasso pessoal, uma incompetência íntima e vergonhosa, o que multiplica o sofrimento material com uma segunda camada, invisível e mais corrosiva: a sensação de não ser suficiente, de valer menos, de ter, de algum jeito, merecido ficar para trás. Essa é a engrenagem completando seu trabalho mais cruel: não apenas prender o corpo à necessidade, mas convencer a mente de que a prisão é culpa exclusiva de quem nela está.

A tradição budista, através do conceito que ficou conhecido no Ocidente como economia budista, formulado de maneira mais sistemática pelo economista Ernst Friedrich Schumacher a partir de princípios observados em sociedades budistas asiáticas, propõe uma inversão radical dessa lógica. Em vez de organizar a vida econômica em torno da maximização de produção e consumo, a economia budista propõe organizá-la em torno do conceito de meio de vida correto, um dos elementos do caminho óctuplo budista: trabalhar o suficiente para viver com dignidade, sem que o trabalho se torne fim em si mesmo, e sem que a ausência de riqueza acumulada seja tratada como falha existencial. Sob essa ótica, a pausa forçada pela falta de dinheiro continua sendo dolorosa e real, mas deixa de carregar o peso adicional de vergonha moral que o sistema ocidental insiste em anexar a ela. A suficiência, nessa tradição, nunca foi fracasso. Foi sempre a medida mais sábia disponível.

III

A roda que gira sem que ninguém escolha girar

Sobre o trabalho que se disfarça de realização

Byung-Chul Han descreveu com precisão cirúrgica um fenômeno que caracteriza boa parte da vida profissional contemporânea: o sujeito do desempenho, aquele que já não precisa de um chefe externo explorando-o diretamente, porque aprendeu a se autoexplorar, convencido de que cada hora extra, cada projeto pessoal convertido em trabalho, cada fim de semana dedicado a otimizar a própria produtividade, é escolha livre e realização pessoal, não exaustão cuidadosamente disfarçada de propósito. A sociedade disciplinar que Foucault descreveu, argumenta Han, foi substituída por uma sociedade do desempenho, onde o comando externo perdeu importância porque o próprio indivíduo internalizou o comando, tornando-se ao mesmo tempo senhor e escravo de si, numa exploração que não encontra mais resistência porque não é mais sentida como exploração alguma.

Herbert Marcuse, filósofo alemão-americano, décadas antes de Han escrever, já havia descrito um mecanismo correlato através da figura do homem unidimensional: o indivíduo cuja capacidade de imaginar alternativas reais ao sistema em que vive foi administrada com tanta eficiência que ele deixa, literalmente, de conseguir desejar outra coisa. Não é que as alternativas sejam proibidas por lei. É que elas se tornam impensáveis, fora do horizonte mental de quem foi formatado, desde cedo, a reconhecer apenas uma direção possível de vida bem-sucedida.

A roda de ratos gira, e continua girando, porque convenceu quem a habita de que correr dentro dela é a própria definição do que significa estar vivo e ser alguém.

A tradição japonesa oferece, contra esse esgotamento disfarçado de realização, o conceito de ikigai, frequentemente traduzido como razão de ser, mas que descreve algo mais preciso: a interseção entre aquilo que se ama fazer, aquilo em que se é bom, aquilo de que o mundo precisa, e aquilo pelo qual se pode ser sustentado. A diferença crucial entre ikigai e o sujeito do desempenho descrito por Han está em que o ikigai nunca isola a dimensão econômica como medida única de valor. Uma vida organizada em torno do ikigai pode incluir trabalho remunerado, mas nunca se resume a ele, e inclui necessariamente tempo, presença e atividades que não respondem a nenhuma métrica de produtividade, sem que isso seja motivo de culpa ou de justificativa. Comunidades japonesas tradicionalmente associadas a maior longevidade e bem-estar, estudadas por antropólogos e médicos ao longo de décadas, mostram um padrão recorrente: pessoas que continuam ativas, socialmente conectadas e com propósito claro até idades avançadas, sem que essa atividade seja medida, em nenhum momento, pela lógica do desempenho que Han descreve como esgotamento. A roda, nessa tradição, nunca foi a única forma disponível de estar em movimento.

IV

A dádiva mal vivida

Sobre filhos, tempo roubado e a economia que não perdoa

Sob pressão econômica sustentada, ter filhos se transforma, para grande parte das pessoas, num cálculo adiado indefinidamente, condicionado a uma estabilidade financeira que raramente parece suficiente quando finalmente chega. E quando a decisão finalmente acontece, é exatamente no período de maior necessidade de presença, os primeiros anos de vida de uma criança, que a exigência produtiva do sistema mais aperta, roubando da dádiva boa parte do tempo que deveria, por direito, ser vivido inteiramente com ela.

Silvia Federici, em sua crítica ao trabalho reprodutivo não remunerado, mostra como o sistema capitalista sempre dependeu estruturalmente do cuidado, da criação de filhos, do sustento emocional e físico das famílias, sem nunca reconhecer esse trabalho como economicamente valioso da mesma forma que reconhece o trabalho assalariado. O cuidado é tratado, na contabilidade oficial de qualquer economia nacional, como se não existisse, um dever natural presumido, geralmente atribuído às mulheres, que sustenta silenciosamente toda a força de trabalho remunerada sem jamais aparecer em nenhum balanço, em nenhum produto interno bruto, em nenhuma métrica de sucesso econômico oficial.

Para Confúcio, a família não era esfera privada secundária à vida pública real. Era a própria origem e o próprio modelo de qualquer boa organização social.

A tradição confucionista chinesa oferece, contra essa invisibilização, uma arquitetura filosófica inteira construída ao redor exatamente do oposto: a piedade filial, xiao, como fundamento não apenas moral, mas político, de toda a ordem social. Para Confúcio, um governante justo deveria ser compreendido, primeiro, como um bom pai, e uma sociedade harmoniosa deveria ser, antes de tudo, uma extensão de famílias bem cuidadas. Sob essa ótica, o tempo dedicado a criar um filho nunca foi tempo roubado do que realmente importa. Era, ele mesmo, o que realmente importa, a atividade da qual toda a ordem social mais ampla deveria derivar sentido e legitimidade, não o contrário. Uma civilização que organiza sua economia de tal forma que o cuidado com os filhos precisa competir, em desvantagem estrutural, com a exigência produtiva, inverteu, sob a luz confuciana, a hierarquia correta entre o que sustenta e o que é sustentado.

V

As interfaces que esvaziam o vínculo

Sobre aplicativos, algoritmos e a mercantilização do afeto

Plataformas digitais de relacionamento, de trabalho por demanda e de conexão social transformaram pessoas em perfis comparáveis, classificáveis por filtros, descartáveis com um deslizar de tela, seguindo exatamente a mesma lógica de vitrine que rege o consumo de produtos comuns. Byung-Chul Han, voltando a este ensaio numa segunda contribuição, argumenta em sua reflexão sobre o esgotamento do amor contemporâneo que o excesso de opções permanentemente disponíveis corrói a capacidade humana de se comprometer verdadeiramente com uma única pessoa, porque existe sempre, a um toque de distância, uma alternativa que parece, ao menos na superfície do perfil exibido, potencialmente melhor.

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês-britânico, com o conceito de modernidade líquida, já descrevia, antes da explosão dos aplicativos de relacionamento, essa mesma fragilidade estrutural dos vínculos contemporâneos: relações desenhadas, desde o início, para serem fáceis de desfazer, sob o risco permanente de que qualquer compromisso mais sólido se torne obstáculo à liberdade de buscar, a qualquer momento, uma configuração de vida supostamente superior. Shoshana Zuboff, acadêmica americana, completa esse quadro mostrando como as próprias plataformas que medeiam essas conexões lucram diretamente com os dados extraídos de cada interação humana, monetizando, em silêncio, até mesmo a solidão que suas próprias interfaces ajudam a produzir e a manter.

Nenhum ser existe isoladamente: cada pessoa é tecida por uma rede infinita de relações que a antecedem e a constituem.

A tradição budista, através do conceito de interdependência, pratityasamutpada, popularizado em linguagem contemporânea pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh sob o termo interser, propõe uma compreensão de vínculo radicalmente incompatível com a lógica de perfil comparável. Para essa tradição, tratar o outro como opção substituível entre várias equivalentes é, sob essa ótica, um erro de percepção sobre a própria natureza da realidade, não apenas um problema ético. Um vínculo genuíno, nessa compreensão, não compete com alternativas, porque a pessoa com quem se está de fato presente nunca foi, em nenhum momento, equivalente a nenhuma outra possível, do mesmo jeito que uma folha específica de uma árvore específica não é substituível por nenhuma outra folha, mesmo que todas pareçam, à primeira vista, semelhantes o suficiente para serem trocadas.

VI

As vitrines que fabricam o desejo

Sobre o espetáculo e a sociedade de consumo

Guy Debord, em sua obra sobre a sociedade do espetáculo, argumentava que a vida contemporânea havia se transformado numa imensa acumulação de representações, onde a experiência direta cede lugar cada vez mais à contemplação e ao desejo daquilo que é exibido, através de imagens cuidadosamente construídas, como digno de ser desejado. Já não se vive tanto quanto se assiste à própria vida sendo vivida, ou pior, assiste-se à vida de outros sendo exibida como padrão do que a própria vida deveria ser.

Jean Baudrillard aprofundou essa análise mostrando que, na sociedade de consumo avançada, já não compramos objetos por sua utilidade concreta. Compramos signos, símbolos de status, pertencimento e identidade que o próprio sistema fabrica cuidadosamente e depois vende de volta a quem os deseja, num circuito fechado onde o desejo nunca foi inteiramente autêntico, apenas instalado com precisão suficiente para parecer, a quem o sente, absolutamente seu. As vitrines contemporâneas, físicas ou digitais, não respondem a desejos preexistentes. Fabricam esses desejos primeiro, e depois oferecem, por um preço, a ilusão de satisfazê-los.

A tradição budista oferece o diagnóstico mais antigo e talvez ainda mais preciso já formulado sobre a origem do sofrimento humano.

A segunda das quatro nobres verdades ensinadas pelo Buda identifica tanha, geralmente traduzido como sede ou anseio, como raiz direta do sofrimento: não o desejo simples de satisfazer necessidades básicas, mas o anseio compulsivo, autoalimentado, que nunca se satisfaz de fato com o que obtém, exigindo sempre o próximo objeto, a próxima experiência, o próximo upgrade de status, num ciclo que a tradição budista reconheceu, com uma antecedência de mais de dois mil e quinhentos anos, como estruturalmente inesgotável por definição. As vitrines contemporâneas não inventaram tanha. Apenas aperfeiçoaram, com uma sofisticação tecnológica que o Buda jamais poderia ter imaginado, a arte antiga de mantê-la sempre insatisfeita, sempre faminta pelo próximo estímulo, exatamente como qualquer sistema econômico baseado em consumo permanente precisa que ela permaneça.

Ninguém perguntou à criança
se ela queria aprender a esperar o sinal.

Ninguém perguntou ao adulto
se o talento sem preço merecia menos respeito.

Ninguém perguntou aos pais
se preferiam trabalhar menos
e ver o filho crescer mais.

E ninguém perguntou ao homem
que assinou um papel
se sabia que aquele papel
tinha o formato exato de uma grade.

Ele achou que estava comprando tempo.
Estava apenas adiando a cobrança,
e chamando de alívio
o primeiro dia de uma prisão
que não tem muro, nem cela,
só uma fatura que sempre vence de novo.

O sistema nunca pergunta.
Ele apenas formata,
e depois chama de escolha
o que restou depois da formatação,
e chama de fracasso pessoal
o que na verdade é arquitetura.

Do outro lado do mundo,
outras tradições já sabiam
que a árvore inútil sobrevive inteira,
que a suficiência nunca foi fracasso,
que ninguém é substituível
por nenhuma folha parecida.

Ver a engrenagem não é escapar dela.
Mas é o único primeiro passo
que ninguém pode dar por você.

E talvez seja também
o único gesto de justiça possível
para com quem nunca soube
que a gaiola já estava sendo construída
enquanto ele apenas tentava
sobreviver mais um mês.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a um homem que contraiu um sonho da sociedade sem saber que, na verdade, estava construindo uma gaiola.

Nomeando as grades antes de tentar abri-las, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · O talento sem valor
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