Fábula · Poder e Custo Alheio · Escrito CXII
A Pegada na Lama
Sobre uma disputa de pegadas na savana, quem decide sozinho o que vale como grandeza, e quem paga o custo de uma decisão que não tomou
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I
A disputa pela pegada mais funda
II
A chuva que revela
III
Weil, Arendt, Fanon, Krenak e Sen
Na margem lamacenta do rio que cortava a savana, o Leão reuniu os animais ao pôr do sol. Com o peito estufado, propôs uma disputa simples: cada um deixaria sua marca na lama fresca, e a maior, mais funda pegada definiria quem era o habitante mais importante daquelas terras.
O Hipopótamo abriu caminho ruidosamente, afundando as patas até os tornozelos. A Girafa desceu seus cascos com um baque seco. Por fim, o Elefante deu um único passo: a terra tremeu, e o solo cedeu numa depressão funda como uma pequena bacia.
— A vitória é óbvia — rugiu o Leão, observando o buraco colossal. — Quanto maior o peso, maior a importância de quem pisa.
Ninguém perguntou aos outros o que eles achavam. A regra já estava posta antes que alguém tivesse voz para discuti-la.
As impalas e as zebras assistiam em silêncio, afastadas da lama. A nyala, com suas marcas brancas reluzindo na penumbra, olhou para o kudu ao seu lado e recuou um passo, como quem decide não competir por um jogo cujas regras não escolheu.
— Esperem as primeiras chuvas — advertiu a Coruja, do galho de um baobá. — O barro revela mais do que a vaidade de um dia.
II
A chuva que revela
Sobre o solo que compacta e o solo que respira
Semanas depois, choveu. Onde o Elefante e o Hipopótamo haviam pisado com toda a força, a terra ficou tão compactada que a água empoçava e apodrecia sem penetrar. Nenhuma semente ali germinava.
Ao redor da clareira, o cenário era outro. A nyala e o kudu tinham caminhado com passos finos, sem peso para provar. Os cascos delicados não esmagaram a terra, abriram pequenos sulcos, afofando o chão, enterrando sementes que o vento trouxera. Em poucos dias, brotos verdes despontavam nas trilhas mais leves, exatamente onde ninguém tinha reparado.
O Elefante olhou para o próprio rastro, agora poça parada e estéril. Depois olhou para os brotos nascendo na trilha estreita da nyala. Não disse nada.
A Coruja desceu do baobá e pousou perto da água parada.
— Vocês mediram a pegada — disse ela. — Ninguém mediu o que nasce dela.
III
A força que transforma em coisa
Sobre Simone Weil
A força, escreveu a filósofa francesa Simone Weil em seu ensaio sobre a Ilíada, é aquilo que transforma um ser vivo em coisa. Não precisa matar para fazer isso, basta pesar o suficiente para que o outro deixe de contar como sujeito e passe a existir apenas como obstáculo, medida ou meio. O Elefante não pisou para destruir, pisou para provar grandeza. E ainda assim a terra sob seu pé virou pedra, incapaz de responder a qualquer coisa que não fosse o próprio peso que a calou.
Weil escreveu isso em 1939, às vésperas da guerra, olhando para Aquiles arrastando o corpo de Heitor ao redor de Troia, mas a observação vale para qualquer régua que meça grandeza pelo tamanho da marca deixada, e não pelo que essa marca permite crescer depois.
IV
Poder não é violência
Sobre Hannah Arendt
A filósofa política alemã-americana Hannah Arendt fazia uma distinção que ilumina o resto da fábula: poder não é o mesmo que violência. Poder, para ela, é a capacidade de agir em concerto, aquilo que nasce quando muitos decidem juntos e sustentam essa decisão coletivamente. Violência é o que aparece justamente quando o poder, nesse sentido, já se esgotou, quando não há mais consentimento a construir, só peso a impor.
O Leão nunca perguntou aos outros animais o que valia como grandeza. Definiu a régua sozinho e chamou de vitória o que era, na verdade, ausência de qualquer deliberação.
Isso não é força política, é a sua falência disfarçada de autoridade.
V
A régua que entra por dentro
Sobre Frantz Fanon
O filósofo martinicano Frantz Fanon foi ainda mais longe ao descrever o que a dominação faz por dentro. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, de 1952, ele mostrou que a subjugação não termina quando o corpo se cala diante do peso alheio, ela continua quando a própria vítima passa a enxergar o mundo pelos olhos de quem a esmagou, quando aprende a medir o próprio valor pela régua que nunca foi feita para ela.
A nyala e o kudu recuaram diante do jogo do Leão não porque fossem fracos, mas porque a régua da disputa já tinha sido desenhada para que só uma forma de pisar contasse como vitória. O silêncio deles na cena de abertura não era ausência de força, era a régua alheia operando antes mesmo de qualquer pé tocar a lama.
VI
Quem paga a conta da decisão alheia
Sobre Ailton Krenak e Amartya Sen
Há uma terceira ausência na cena, talvez a mais silenciosa: a nyala e o kudu não foram consultados, mas foram os primeiros a arcar com o resultado. Não escolheram a régua do Leão, apenas viveram sob ela. É essa a mecânica que mais interessa quando se fala em dominação: raramente é quem decide que sofre a consequência da decisão.
O pensador indígena brasileiro Ailton Krenak descreve algo muito parecido quando fala da ideia de humanidade como uma construção que decide, em nome de todos, o que conta como progresso, e depois distribui de forma desigual quem paga a conta dessa decisão. Em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de 2019, ele lembra que rios, florestas e povos inteiros costumam arcar com o custo de escolhas tomadas longe deles, em salas onde nunca foram chamados a falar. O solo compactado da fábula não pune o Elefante, pune a semente que ali tentaria brotar meses depois, quando ele já tivesse seguido para outra parte da savana, livre do peso das próprias consequências.
Onde a régua de quem decide não precisa ouvir quem vive sob ela, o desastre pode se instalar devagar, sem alarme, exatamente como a terra que vai endurecendo sob o peso repetido de quem nunca precisou prestar contas a ninguém.
O economista indiano Amartya Sen ofereceu, em Desenvolvimento como Liberdade, de 1999, uma das provas mais concretas dessa mecânica: fomes de grandes proporções praticamente não acontecem em sociedades onde a imprensa é livre e o governo precisa responder a quem governa, porque ali quem sofreria a fome tem voz para impedi-la antes que aconteça. O contrário também é verdadeiro.
VII
O apagamento que não precisa de força
Sobre a régua que se torna a única régua possível
O apagamento do outro começa nesse ponto cego: quando a régua de quem manda se torna a única régua possível, e todo passo diferente do seu passa a ser invisível até prova em contrário. A nyala só é vista quando a chuva finalmente mostra o que seu passo leve construiu. Antes disso, ela era apenas ausência de barulho, não presença. Isso é o que a dominação mais eficiente faz: não precisa silenciar ninguém à força quando já convenceu todos de que só existe uma forma legítima de deixar marca no mundo.
A fábula não termina com o Leão punido. Termina com ele em silêncio diante de um broto que ele não plantou e não teria sabido plantar. Talvez seja essa a única correção possível ao poder que decide sozinho: não a derrota, mas o instante em que é forçado a olhar para o que sua régua nunca teve como medir.
Quem pisa mais fundo nem sempre é quem mais funda a vida.
Quem cede o próprio peso, às vezes, é quem faz a terra respirar.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem nunca foi consultado, mas sempre foi convocado a pagar a conta, e mesmo assim encontrou, na lama, um jeito de fazer alguma coisa brotar.
Ainda aprendendo a medir grandeza pelo que uma marca deixa crescer, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?