Diário · África do Sul · Escrito CXI
Enkosi Kakhulu
Sobre a gratidão como arma de igualdade, e o pequeno gesto de agradecer nas línguas de quem serve
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Aba I
Abertura, e a palavra que nomeia um chefe
Aba II
Quem são os ancestrais desta terra, e a cegueira do turista que não aprende uma palavra
Aba III
O peso ínfimo de um gesto imenso, e o fechamento em dedicatória
Numa viagem onde a grande maioria dos serviços, do motorista ao garçom, do guia ao camareiro, é prestada por sul-africanos negros, existe uma escolha pequena que se repete dezenas de vezes por dia: como agradecer. A opção mais fácil é o inglês, língua oficial, universalmente compreendida, socialmente segura. A outra opção, mais trabalhosa e mais desconfortável no início, é aprender uma única palavra na língua de quem está do outro lado do balcão, e usá-la, mesmo com sotaque errado, mesmo hesitando, a cada pequeno serviço recebido.
Enkosi kakhulu. Muito obrigado, em xhosa, uma das onze línguas oficiais da África do Sul e, hoje, a mais falada entre a população negra da Cidade do Cabo. A frase não resolve a desigualdade estrutural que qualquer visitante atento percebe em poucos dias de viagem. Mas ela faz alguma coisa, pequena e real, que vale a pena examinar com cuidado: reconhece, na língua original de quem serve, que a pessoa do outro lado do balcão não é apenas função. É origem, é história, é povo.
Chegando numa cidade ao nordeste, a mesma lógica pediu ajuste. Nem todo mundo ali falava xhosa como primeira língua, e usar sempre a mesma palavra, com todos, seria trocar um gesto de atenção por um gesto de rotina. Ke a leboga, obrigado em setswana, passou a ser a forma certa de agradecer quem vinha da região do país onde essa língua predomina. Inkomu, obrigado em xitsonga, servia para quem falava a língua do povo tsonga, também chamado shangaan, presente sobretudo nas províncias do nordeste sul-africano. Nenhuma das duas carrega, tão explicitamente quanto o xhosa, a raiz de chefe escondida dentro da palavra. Mas as duas carregam algo igualmente importante: a diferença entre agradecer alguém em geral e agradecer aquela pessoa específica, na língua que ela de fato chama de sua.
Este ensaio nasce de uma pergunta simples: como um gesto tão pequeno, quatro ou cinco sílabas repetidas ao longo do dia, em uma entre várias línguas possíveis, pode carregar peso político? A resposta passa pela etimologia de uma dessas palavras, pela história de quem realmente habitava esta terra antes de qualquer fronteira colonial ser traçada, e por uma teoria filosófica sobre o que significa, de verdade, ser reconhecido como humano.
Uma palavra de quatro sílabas não redistribui riqueza nenhuma. Mas também não é nada, e a diferença entre as duas coisas importa.
I
A Palavra Que Nomeia um Chefe
Sobre a etimologia de enkosi e a inversão hierárquica escondida na língua
A palavra xhosa para agradecer carrega, na própria raiz, uma reviravolta que nenhuma tradução direta para o português ou o inglês consegue capturar completamente. Enkosi deriva de inkosi, que significa chefe, ou senhor. Registros sobre o inglês sul-africano documentam essa origem desde o século dezenove: agradecer, em xhosa, é literalmente dirigir-se à outra pessoa como se ela fosse a autoridade máxima, o chefe da própria comunidade.
Existe um registro de 1976 que resume bem essa lógica: dizer enkosi implica que a generosidade é a marca de um chefe, então agradecer alguém por um gesto de generosidade é, na prática, reconhecer nessa pessoa a mesma dignidade que se reconheceria num líder. Quando um viajante estrangeiro usa essa palavra para agradecer o motorista que carrega a mala, ou a camareira que arruma o quarto, ou o garçom que traz o prato, ele está, mesmo sem perceber inteiramente, invertendo por um instante a hierarquia social que a viagem inteira, de outra forma, reforça sem parar.
Não é um gesto que muda salários, nem que corrige séculos de desigualdade estrutural documentados em qualquer relatório sobre a economia sul-africana. Mas é um gesto que se recusa a tratar a língua, e por extensão a pessoa, como pano de fundo decorativo da viagem. Chamar alguém de chefe, mesmo que apenas na estrutura escondida de uma palavra de agradecimento, é o oposto exato do costume, ainda comum entre turistas apressados, de tratar quem serve como extensão invisível do hotel ou do restaurante.
Na prática, a reação de quem recebe a palavra costuma ser imediata e visível. Um sorriso mais largo do que o sorriso profissional padrão, às vezes uma pausa de surpresa, às vezes a pergunta de volta sobre onde o visitante aprendeu aquilo. Não é o tipo de reação que se explica só por educação. É o tipo de reação que aparece quando alguém percebe, ainda que por um segundo, que não está sendo tratado como parte do cenário.
II
Quem São os Ancestrais Desta Terra
Sobre khoikhoi, san e a migração xhosa até o Cabo
Antes de aprender uma palavra em xhosa, vale a pena aprender uma correção histórica importante, porque tratar essa língua como se fosse automaticamente a língua original do território onde a Cidade do Cabo foi construída seria, ironicamente, uma nova forma de apagamento. Os povos xhosa são, historicamente, um grupo de língua bantu que migrou, ao longo de séculos, das regiões mais ao norte do continente africano, estabelecendo-se predominantemente no Cabo Oriental muito antes da chegada dos colonizadores holandeses em 1652.
Os habitantes originais da própria região do Cabo eram os povos khoikhoi, pastores, e san, caçadores-coletores, às vezes referidos em conjunto como khoisan. Foram eles que os primeiros navegadores europeus encontraram ao ancorar na baía da Mesa. A colonização holandesa, seguida da britânica, dizimou, escravizou e deslocou essas populações de forma sistemática, e boa parte da população hoje classificada oficialmente como coloured na África do Sul descende diretamente desses povos khoikhoi e san, somados a pessoas escravizadas trazidas de outras partes da África e da Ásia durante o período colonial holandês, e a uniões entre esses grupos e colonizadores europeus.
A presença xhosa maciça na Cidade do Cabo de hoje é, em boa parte, resultado de migrações internas muito mais recentes, intensificadas justamente pelas políticas de segregação forçada do apartheid do século vinte, que direcionavam trabalhadores negros para os centros urbanos e industriais onde a mão de obra era exigida, mantendo ao mesmo tempo essas mesmas pessoas confinadas a bairros afastados. Isso não torna o gesto de agradecer em xhosa menos válido. Torna-o mais preciso: é um reconhecimento da língua mais falada entre quem hoje presta serviço nesta cidade, ao mesmo tempo em que exige, de quem quer aprender de verdade, a humildade de saber que essa mesma cidade também apagou outros povos, ainda mais antigos, cuja língua quase ninguém mais fala.
A cidade que hoje fala xhosa nas ruas guarda, embaixo dessa língua, outra ainda mais antiga que quase ninguém mais fala.
III
A Cegueira do Turista que Não Aprende Uma Palavra
Sobre a recusa turística de aprender o mínimo da língua local
A cegueira voluntária, aquele mecanismo psicológico que permite a alguém não ver o que seria custoso demais reconhecer, não se manifesta apenas diante de grandes desigualdades estruturais. Ela também aparece, em miniatura, na recusa cotidiana de aprender sequer uma palavra da língua de quem serve. É mais fácil, e socialmente mais confortável, presumir que o inglês basta, que a hospitalidade do outro é obrigação profissional, e que não há necessidade nenhuma de esforço além de deixar uma boa gorjeta.
Essa recusa não costuma vir de má intenção explícita. Vem, quase sempre, da mesma anestesia social que qualquer turismo apressado favorece: a sensação de que se está ali de passagem, sem tempo nem obrigação de conhecer mais profundamente o lugar visitado. Mas é exatamente essa pressa que perpetua, em escala pequena e repetida milhares de vezes por dia em qualquer destino turístico do mundo, a mesma lógica colonial que separava quem manda de quem serve: uma língua para os que decidem, outra, tratada como irrelevante, para os que executam.
Aprender uma única palavra não desfaz essa lógica sozinha. Mas recusa participar dela sem questionamento. É um gesto mínimo de atrito consciente contra o piloto automático que trata cada interação de serviço como transação anônima, sem nome, sem origem, sem língua própria.
Vale notar a assimetria que essa recusa expõe. A pessoa que serve, na imensa maioria dos casos, já aprendeu inglês, muitas vezes uma segunda ou terceira língua além da própria, precisamente para poder atender quem visita. O esforço linguístico, historicamente, sempre correu numa única direção: de quem precisa do emprego para quem paga por ele. Pedir que o visitante aprenda uma única palavra na direção contrária não é exigência desproporcional. É, na melhor das hipóteses, o começo de um equilíbrio que nunca existiu.
IV
O Peso Ínfimo de um Gesto Imenso
Sobre Axel Honneth e a necessidade humana de reconhecimento
O filósofo alemão Axel Honneth, num livro de 1992 que se tornou referência central da chamada teoria do reconhecimento, argumentou que a identidade humana só se forma plenamente através de três esferas de reconhecimento: o amor, nas relações mais íntimas, o direito, no reconhecimento legal de igualdade perante o Estado, e a estima social, o reconhecimento de que a própria contribuição e existência têm valor aos olhos da comunidade mais ampla.
Para Honneth, a experiência de ser sistematicamente desconsiderado nessas esferas, o que ele chama de desrespeito, não é apenas desconfortável. É uma forma concreta de injustiça, capaz de ferir a estrutura psicológica da própria pessoa, minando a capacidade de se relacionar consigo mesma com confiança e dignidade. Sociedades profundamente desiguais, como a que qualquer viajante atento observa na África do Sul, produzem esse desrespeito em escala industrial: milhões de pessoas cuja contribuição diária, no trabalho manual e no serviço, raramente recebe reconhecimento social equivalente ao que recebem posições de maior status.
Um pequeno gesto de gratidão, pronunciado na língua original de quem trabalha, não resolve esse desrespeito estrutural. Mas oferece, no microcosmo de uma única interação, uma migalha real da estima social que Honneth descreveu como necessidade humana básica. É pouco, comparado ao tamanho do problema. Mas é mais do que nada, e é infinitamente mais do que o silêncio automático de quem nunca se dá ao trabalho de perguntar como se diz obrigado na língua de quem está prestando o serviço.
Há também algo revelador no fato de que essa teoria filosófica alemã, escrita décadas atrás num contexto acadêmico europeu, encontre eco tão direto numa palavra xhosa forjada séculos antes, do outro lado do planeta. As duas, sem qualquer relação histórica entre si, chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes: ser tratado como digno de reconhecimento não é luxo emocional. É condição básica para que qualquer ser humano consiga habitar a própria existência com um mínimo de integridade.
V
O Peso de Uma Palavra Pequena
Fechamento
Nenhuma palavra de quatro sílabas conserta séculos de colonização, nem devolve aos khoikhoi e aos san as terras e as línguas que a história apagou quase por completo, nem paga salários mais justos a quem carrega malas e serve mesas na Cidade do Cabo. Seria ingenuidade, ou pior, uma forma sofisticada de conforto barato, pretender que dizer enkosi kakhulu substitui qualquer trabalho estrutural de justiça.
Mas é também um erro descartar o gesto pequeno como irrelevante só porque ele é pequeno. A gratidão pronunciada na língua original de quem serve não resolve a desigualdade. Reconhece que ela existe, nomeia a origem de quem está do outro lado, e recusa, por um instante, a anestesia confortável de tratar outro ser humano como função anônima de uma viagem.
Talvez o valor real de enkosi kakhulu esteja exatamente nessa modéstia. Não promete revolução. Promete apenas que, pelo menos naquele instante específico, uma pessoa foi vista, nomeada na própria língua, e tratada, ainda que só na estrutura escondida de uma palavra, como chefe.
Enkosi kakhulu. Quatro sílabas, um mundo inteiro dentro delas.
A palavra que agradece nasceu da palavra que nomeia um chefe.
Dizer obrigado, nesta língua, é dizer: eu vejo em você a autoridade
que a história tentou apagar.
Não é revolução. É recusa.
Recusa de tratar quem serve como parte muda da paisagem.
Uma palavra pequena não desfaz o que séculos construíram.
Mas se repete, todos os dias, em cada balcão,
até que recusar o silêncio vire, também, um hábito.
Dedicatória
Este texto é dedicado a quem serviu, sorriu, e recebeu de volta, pela primeira vez naquele dia, uma palavra na própria língua.
Enkosi kakhulu, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?