Escólio · Caráter · Escrito XXVIII
A Terra Inteira e o Que Nela Existe
Um ensaio comentado sobre o Se, de Rudyard Kipling
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I
A calma e os instrumentos
II
Reconstruir e arriscar
III
Persistir e a plebe e os reis
IV
O minuto e o Homem
Por volta de 1895, Rudyard Kipling escreveu um poema para o próprio filho, John. O texto só seria publicado em 1910, dentro do livro Rewards and Fairies, mas nasceu como algo mais íntimo do que um poema destinado ao público: nasceu como um mapa que um pai desenhava para o filho atravessar a vida inteira. Duas décadas depois, o mundo mudaria de um jeito que nenhum dos dois poderia prever.
Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, John tinha visão fraca demais para ser aceito no exército pelos exames médicos regulares. Kipling, que via a guerra com entusiasmo patriótico e via no próprio filho a chance de honrar esse ideal, usou sua influência e seus contatos para conseguir a admissão de John apesar da recusa médica anterior. John morreu em 1915, aos dezoito anos, na Batalha de Loos. Seu corpo nunca foi identificado com certeza. Kipling, que havia ajudado a abrir o caminho que levou o filho à morte, carregaria essa culpa pelo resto da vida, e escreveria depois um poema mais curto e mais duro, My Boy Jack, que muitos leem como confissão.
O Se, lido à luz desse fato, muda de peso inteiramente. Não é mais o conselho tranquilo de um pai bem-sucedido para um filho promissor. É uma espécie de prece, escrita por alguém que ainda não sabia que o tempo não daria ao filho a chance de cumprir o que ali estava pedido. Este ensaio acompanha o poema estrofe por estrofe, com esse peso ao fundo, buscando em cada trecho os pensadores e as tradições que iluminam o que Kipling estava, sem saber quanto custaria, pedindo ao filho.
I
A calma que não é ausência de sentimento
“Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso.”
O primeiro pedido do poema é mais difícil do que parece à primeira leitura. Não pede ausência de emoção. Pede a recusa em deixar que a emoção alheia decida o próprio estado interior. Epicteto, no Manual, ensinava a distinção mais importante de toda a filosofia estoica: existe o que está sob nosso controle e o que não está, e a opinião dos outros sobre nós pertence inteiramente à segunda categoria. Manter a calma quando se é culpado injustamente por um caos que não se criou não é indiferença ao caos. É a recusa de emprestar a terceiros o poder de decidir o que se sente por dentro.
Há também, nesse primeiro bloco, um pedido mais sutil e mais raro: encontrar uma desculpa para quem duvida de você. Isso não é fraqueza disfarçada de virtude, nem covardia diante da injustiça de ser duvidado. É a compreensão madura, difícil de alcançar sem alguma experiência de vida, de que a dúvida alheia raramente fala sobre quem a recebe. Quase sempre fala sobre o medo de quem a produz.
Baltasar Gracián, escritor jesuíta espanhol, no Oráculo Manual, escreveu sobre a arte de não se deixar arrastar pela opinião pública sem, por isso, tornar-se indiferente a ela. É uma linha fina: nem escravo do que pensam de você, nem cego ao que isso pode revelar sobre o ambiente em que você está.
Há um exemplo histórico que carrega esse pedido do plano abstrato para o concreto de um jeito difícil de ignorar. Nelson Mandela passou vinte e sete anos preso, boa parte deles em Robben Island, período em que foi acusado, vigiado e tratado por seus captores exatamente como o poema descreve: um homem a quem se atribuía a culpa por um caos que ele não havia criado sozinho. Há relatos, entre companheiros de prisão e biógrafos, de que Mandela guardava consigo uma cópia datilografada justamente deste poema de Kipling, relida nos anos mais duros do cárcere. O interessante não é a coincidência literária. É que a biografia de Mandela ilustra, com uma precisão quase didática, a diferença entre paciência e resignação que o poema exige: ele esperou sem se desesperar, mas nunca deixou de agir dentro do espaço que lhe restava, nunca confundiu calma com passividade. Saiu da prisão sem mentir aos que o haviam enganado e sem devolver ódio ao ódio recebido, o que talvez seja a demonstração mais completa que a história recente oferece deste primeiro bloco do poema, vivido, não apenas lido.
II
O senhor dos próprios instrumentos
“Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires;
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores.”
Este é o centro filosófico de todo o poema. Pedir que se pense sem se tornar escravo do próprio pensamento, e que se sonhe sem se tornar escravo do próprio sonho, é pedir domínio sobre os dois instrumentos que mais frequentemente acabam dominando quem deveria dominá-los: a razão, que pode se transformar em obsessão fria e paralisante, e a imaginação, que pode se transformar em fuga permanente do que é real.
E então vem a formulação mais citada de todo o poema, a que trata sucesso e fracasso como dois impostores a serem recebidos com a mesma serenidade. Essa ideia tem um eco quase exato num texto muito mais antigo e de uma tradição bastante distinta: o Bhagavad Gita, texto sagrado da tradição hindu, ensina que se deve agir com excelência total sem se apegar aos frutos da própria ação, tratando prazer e dor, ganho e perda, vitória e derrota, com a mesma equanimidade interior. É improvável que Kipling estivesse citando conscientemente a tradição indiana. Mas escreveu, talvez sem saber, algo muito próximo dela: triunfo e desastre são impostores porque os dois mentem sobre quem você realmente é. Nenhum dos dois é o veredito final sobre um caráter.
Marco Aurélio e o Bhagavad Gita, separados por geografia, língua e cosmologia, chegam à mesma conclusão prática: os instrumentos da mente, razão e imaginação, servem bem quando usados, e destroem quando se tornam donos de quem deveria apenas empunhá-los.
Marco Aurélio, escrevendo suas Meditações para si mesmo sem intenção de publicação, chegou a essa mesma advertência por um caminho romano, mais seco, menos místico que o hindu. Ele insistia, repetidamente, que a mente tem o poder de se transformar naquilo em que insiste em pensar, e que a ruminação, o pensamento que gira sobre si mesmo sem produzir ação nem clareza, era um dos maiores perigos ao caráter de um imperador que precisava decidir, todos os dias, questões de vida e morte. É a mesma armadilha nomeada pelo poema de Kipling, vista de outro ângulo: pensar demais sobre uma injustiça sofrida não a desfaz, apenas entrega a ela mais tempo de vida dentro da própria cabeça.
III
Reconstruir com o pouco que resta
“Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste.”
Esta é provavelmente a estrofe mais dura de todo o poema, e também a mais honesta. Ela não promete evitar a perda. Promete apenas a possibilidade de reconstruir depois dela, com o pouco que sobrou. Há uma ressonância forte aqui com a história de Jó, na tradição hebraica: um homem que perde tudo o que possuía, questiona, lamenta profundamente, mas não abandona a própria integridade, e ao final reconstrói uma vida, embora nada do que reconstrua jamais apague o que foi perdido.
Há também uma imagem visual, vinda da tradição japonesa, que ilumina este trecho de um ângulo diferente: o kintsugi, técnica de reparar cerâmica quebrada preenchendo as rachaduras com ouro, tornando a fratura uma parte visível e valorizada do objeto reconstruído, em vez de uma imperfeição a esconder. Reconstruir com o pouco que resta não é fingir que nada se quebrou. É integrar a fratura à nova forma, sem gastar energia tentando apagar a cicatriz que ela deixou.
Vale trazer esse verso para um terreno mais próximo e mais contemporâneo, porque a reconstrução que o poema pede não é privilégio de figuras bíblicas nem de artesãos antigos. Ela acontece, com a mesma exigência, em quem perde um negócio construído ao longo de décadas numa falência que não escolheu, em quem vê a própria reputação distorcida em armadilha por um mal-entendido público que nunca conseguirá desfazer por completo, em quem enterra um projeto de vida inteiro por uma decisão alheia. A diferença entre quem se levanta dessas quedas e quem não se levanta raramente está na intensidade do golpe recebido. Está em algo mais discreto: a disposição de recomeçar usando o que sobrou, por menor que seja, em vez de esperar que as ferramentas antigas, já destruídas, voltem a existir para que a reconstrução comece. O kintsugi funciona como metáfora justamente porque não promete um objeto igual ao original. Promete um objeto novo, que carrega a fratura como parte de sua história, e que por isso mesmo pode valer mais do que valia antes de quebrar.
IV
Arriscar tudo e não dizer nada ao perder
“Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida.”
Este pedido vai além da simples resiliência diante do infortúnio. Pede dignidade específica diante do risco assumido de forma consciente e deliberada. Há uma diferença importante entre perder algo por acidente e perder algo depois de tê-lo apostado por escolha própria. O código de honra samurai, o Bushido, continha um princípio parecido: o guerreiro que arrisca tudo em batalha e perde não desonra a si mesmo pela derrota em si. Desonra a si mesmo apenas se lamentar publicamente ou tentar culpar as circunstâncias depois. A dignidade, nesse código, nunca esteve em nunca perder. Esteve sempre em ter apostado por escolha própria, e em aceitar o resultado sem transferir a responsabilidade por ele a mais ninguém.
Sêneca oferece, numa tradição bem distante do Japão feudal, um fundamento filosófico para essa mesma dignidade. Em suas cartas a Lucílio, ele insiste que tudo o que chamamos de nosso, riqueza, posição, até a própria vida, é na verdade um empréstimo da fortuna, concedido sem garantia de prazo e sujeito a ser recolhido a qualquer momento, sem aviso e sem justificativa. Quem entende isso de verdade, argumenta Sêneca, não se sente roubado quando perde o que apostou, porque nunca acreditou, com seriedade, que aquilo lhe pertencesse de modo definitivo.
Arriscar numa única parada tudo o que se ganhou nunca foi arriscar algo que já era garantidamente seu. Era arriscar um empréstimo que a fortuna sempre poderia reclamar de volta, apostado ou não.
V
Persistir quando só resta a vontade
“De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: ‘Persiste!’.”
A pesquisadora contemporânea Angela Duckworth deu nome científico a exatamente esse fenômeno décadas mais tarde. Chamou de grit a combinação entre paixão sustentada e perseverança diante de objetivos de longo prazo, demonstrando, ao longo de anos de pesquisa, que essa qualidade prevê realização e sucesso com mais precisão do que o talento bruto isoladamente. O verso de Kipling descreveu, quase um século antes, em linguagem poética, exatamente o que a psicologia contemporânea hoje descreve com dados: a capacidade de continuar não depende de nunca se esgotar. Depende de haver, mesmo esgotado por completo, uma última instância interna que ainda dá a ordem de seguir.
Há um episódio histórico que dá corpo físico, quase literal, a esse verso. Em 1914, Ernest Shackleton partiu rumo à Antártida com a expedição do navio Endurance, que ficou preso e foi esmagado pelo gelo antes mesmo de alcançar o continente. O que se seguiu foram meses de sobrevivência num ambiente que oferecia, todos os dias, motivo suficiente para desistir: frio extremo, fome, travessias marítimas em botes salva-vidas por águas geladas, uma caminhada final sobre montanhas nunca antes atravessadas por ninguém. Nenhum membro da tripulação morreu. O relato mais frequente entre os sobreviventes, décadas depois, não fala de força física excepcional. Fala de uma decisão renovada a cada dia, muitas vezes a cada hora, de dar mais um passo apenas porque ainda havia um passo a dar.
Não a ausência de exaustão, mas a existência de uma vontade que continua ordenando, mesmo quando coração, nervos e músculos já deram tudo o que tinham para dar.
VI
A mesma pessoa entre a plebe e os reis
“Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade.”
Este verso descreve o que Aristóteles chamaria de virtude estável: o caráter que não muda de forma conforme a plateia à sua volta muda. Manter-se incorruptível entre pessoas comuns e manter-se natural, sem intimidação nem bajulação, entre os poderosos, é a mesma virtude aplicada a dois contextos opostos. Alguém que só age bem quando ninguém de posição elevada está observando, ou que só se sente seguro entre iguais, ainda não desenvolveu caráter formado. Desenvolveu apenas um comportamento adaptado a cada plateia específica, o que é uma coisa bem mais frágil.
Há uma cena, contada por vários biógrafos da Antiguidade, que ilustra esse verso com uma nitidez quase cômica. Diógenes, o filósofo cínico que vivia num barril e possuía quase nada por escolha própria, foi visitado por Alexandre, o Grande, então o homem mais poderoso do mundo conhecido. Alexandre, impressionado pela reputação do filósofo, perguntou se havia algo que pudesse fazer por ele. Diógenes, sem se levantar, pediu apenas que o imperador saísse da frente, porque estava tapando a luz do sol. Não houve bajulação, não houve intimidação, não houve mudança de comportamento diante do poder mais absoluto que existia naquele momento histórico. É o verso do poema encarnado numa única frase: a mesma pessoa diante da plebe e diante dos reis, sem que o endereço do poder alterasse em nada a naturalidade de quem já não dependia dele para se sentir inteiro.
VII
A plenitude do minuto e o que significa ser inteiro
“E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E – o que mais – tu serás um Homem, ó meu filho!”
O pedido final dialoga diretamente com uma reflexão que já fizemos nesta coleção sobre tratar cada dia como suficiente em si mesmo, sem descontar seu valor na expectativa de um crédito futuro. Mas o verso mais delicado de comentar hoje é o último, o que promete que, cumprido tudo isso, a pessoa se tornará plenamente humana. Escrito em 1910, endereçado por um pai a um filho, o poema carrega inevitavelmente a marca de linguagem do seu tempo. Mas o conteúdo descrito ali, lido com atenção, não é sobre gênero. É sobre o que Carl Jung chamaria, décadas depois, de individuação: o longo trabalho de integrar as partes fragmentadas, contraditórias e testadas pelo tempo de uma pessoa numa totalidade coerente. Kipling não estava descrevendo, no fundo, um tipo específico de masculinidade. Estava tentando descrever o que significa, para qualquer pessoa que atravesse cada uma dessas provas sem se despedaçar nelas, sair do outro lado inteira.
Martin Heidegger, filósofo alemão, oferece uma chave complementar para entender por que o poema insiste em chamar o minuto de fatal, e não de qualquer minuto comum. Para Heidegger, é exatamente a consciência da própria finitude, o que ele chamava de ser-para-a-morte, que dá ao tempo presente seu peso real. Uma existência que se esquece de que é finita trata os minutos como recurso infinito, e por isso os desperdiça sem culpa. Uma existência que carrega essa consciência, mesmo sem falar dela o tempo todo, sabe que cada minuto é, de fato, fatal, no sentido mais literal e menos dramático da palavra: irrepetível, insubstituível, definitivamente encerrado assim que passa. É essa consciência, mais do que qualquer fórmula de produtividade, que o poema parece pedir no verso final. Dar valor e brilho a cada segundo não é tarefa de quem tem tempo de sobra. É tarefa de quem sabe, com Heidegger, que não tem.
Ele escreveu para o filho
o mapa de um homem inteiro.
O filho partiu
antes de terminar o caminho.
O poema ficou.
Não como conselho de quem já tinha vencido,
mas como prece de quem temia perder,
escrita antes de saber
o tamanho exato da perda.
Talvez seja por isso que ainda comove.
Não porque ensina a vencer.
Mas porque foi escrito
por alguém que sabia, sem saber que sabia,
que vencer nunca foi a promessa verdadeira.
A promessa era só esta:
persistir, mesmo exausto.
Reconstruir, com o pouco que reste.
E chamar de sua, no fim,
não porque conquistou,
mas porque atravessou inteiro,
a terra inteira e tudo o que nela existe.
Dedicatória
Este escrito é dedicado à memória de John Kipling, que nunca teve tempo de saber se teria sido, enfim, o homem que o pai um dia lhe pediu para ser.
Atravessando, reflexivo, o que resta do dia, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?