Ensaio · Aprendizagem · Escrito CXXXV
Ainda Dá Tempo de Aprender o Caminho
Sobre a dificuldade real de reaprender depois dos quarenta, a andragogia, e a capacidade que continua presente mesmo quando dói
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Aba I
Abertura e I · Malcolm Knowles e a andragogia
Aba II
II e III · Eleanor Maguire e os taxistas de Londres, e Masako Wakamiya
Aba III
IV, V e VI · Kimani Maruge, Suzana Herculano-Houzel, e o fechamento
A tela do curso online carregou devagar, e a pessoa sentada diante do computador sentiu, antes mesmo de a primeira aula começar, uma tensão familiar demais para ser ignorada: a mesma que sentia décadas atrás, na infância, diante de um caderno novo e uma matéria que ainda não fazia sentido nenhum. Só que agora havia currículo, cargos ocupados, reuniões marcadas para depois, uma reputação profissional inteira construída ao longo de vinte anos, tudo isso sentado junto na mesma cadeira, observando o cursor piscar na primeira pergunta do teste de nivelamento.
A resposta errada veio rápido, sem aviso, e trouxe consigo um desconforto que nenhum diploma antigo conseguiu amortecer. Não era exatamente vergonha. Era mais parecido com a sensação de tropeçar em público depois de décadas andando sem pensar em como se caminha. A pessoa fechou a aba do navegador por um instante, respirou, e reabriu em seguida. A pergunta seguinte também errou. E ainda assim, alguma coisa dentro daquele desconforto insistia em não ser definitiva, insistia em soar mais como início do que como veredito.
I
Um Aluno Que Já Não Existe Mais
Sobre Malcolm Knowles, e os cinco pressupostos que tornam o adulto um aprendiz diferente
Essa sensação específica, a de que aprender depois de adulto dói de um jeito diferente do que dói na infância, tem explicação estruturada há mais de cinco décadas, num campo da educação batizado de andragogia. O termo já existia desde o século dezenove, cunhado pelo educador alemão Alexander Kapp em 1833, mas foi o americano Malcolm Knowles quem, a partir de um artigo de 1968 intitulado Andragogy, Not Pedagogy, transformou a ideia numa teoria estruturada, valendo-lhe o apelido de pai da andragogia moderna.
Knowles argumentava que adultos aprendem de um jeito fundamentalmente diferente de crianças, e resumiu essa diferença em cinco pressupostos centrais. O adulto já chega com um autoconceito formado, então se ressente de ser tratado como recipiente vazio esperando instrução. O adulto carrega uma reserva de experiência acumulada que tanto serve de atalho quanto de obstáculo, porque hábitos antigos competem ativamente com o conteúdo novo pela mesma atenção. O adulto só se dispõe a aprender algo quando enxerga relevância imediata para um papel de vida real, não uma promessa abstrata de utilidade futura. O adulto se orienta por problemas concretos a resolver, não por disciplinas organizadas em sequência lógica. E o adulto, ao contrário da criança motivada por notas e aprovação externa, aprende principalmente por motivação interna: autoestima, qualidade de vida, satisfação pessoal.
A implicação prática desses cinco pontos é direta: o mesmo curso, ensinado do mesmo jeito, pode funcionar bem para uma turma de dezessete anos e falhar completamente com uma turma de quarenta e cinco, não porque os adultos tenham menos capacidade, mas porque a arquitetura inteira do ensino pressupõe um aluno que ainda não existe mais dentro daquela sala. A dor de errar a primeira pergunta de um teste de nivelamento, então, não é sinal de declínio. É sinal de que o método usado para ensinar ainda não reconheceu quem, de fato, está sentado na cadeira.
Pedir uma aula pensada para adultos não é sinal de fraqueza. É a primeira escolha inteligente de quem decidiu recomeçar.
II
O Hipocampo Que Cresceu Depois dos Quarenta
Sobre Eleanor Maguire, os taxistas de Londres, e a prova física da neuroplasticidade adulta
Mas será que o cérebro adulto, estrutura biológica e não apenas metodológica, ainda tem margem real para mudar depois dos quarenta? A resposta mais concreta que a ciência já produziu sobre isso vem de um grupo bastante improvável de sujeitos de pesquisa: taxistas londrinos. Para dirigir um táxi preto oficial em Londres, um candidato precisa passar num exame conhecido informalmente como O Conhecimento, que exige memorizar de cor um labirinto de vinte e cinco mil ruas e milhares de pontos de referência dentro de um raio de dez quilômetros ao redor de Charing Cross, sem qualquer auxílio de navegador. A preparação leva, em média, de três a quatro anos, e menos da metade dos candidatos que começam o processo efetivamente passa no exame final.
A neurocientista irlandesa Eleanor Maguire, da University College London, aproveitou essa exigência extrema para responder a uma pergunta que a neurociência vinha discutindo havia décadas: será que o cérebro adulto ainda é capaz de mudança estrutural física em resposta a aprendizado intenso? Em 2000, Maguire publicou um estudo mostrando que taxistas londrinos qualificados tinham o hipocampo posterior, região ligada à memória espacial, mensuravelmente maior do que o de motoristas de ônibus com rotas fixas e do restante da população. Mas o dado mais convincente veio só em 2011, quando Maguire e sua colega Katherine Woollett publicaram um acompanhamento de quatro anos com setenta e nove candidatos, escaneando o cérebro de cada um antes de começar o treinamento e de novo ao final. Entre os trinta e nove que passaram no exame, o hipocampo posterior de fato tinha crescido fisicamente ao longo daqueles quatro anos. Entre os que desistiram ou reprovaram, nada mudou.
A idade média de quem se candidata ao exame de taxista em Londres costuma passar dos trinta, e boa parte já está na casa dos quarenta ou cinquenta anos quando decide se candidatar, muitas vezes depois de trocar completamente de carreira. Maguire encontrou crescimento mensurável de tecido cerebral nesses adultos, prova física de que o cérebro adulto, longe de ser um órgão estático depois de certa idade, ainda responde a exigência intensa de aprendizado exatamente como um músculo responde a exercício.
Vale registrar a ressalva honesta que a própria Maguire fez questão de destacar: existe um custo real embutido nesse ganho. Os taxistas que desenvolveram hipocampo posterior maior mostraram, em compensação, desempenho ligeiramente pior em outras tarefas de memória visual não relacionadas à navegação. Nenhuma mudança cerebral vem de graça. O cérebro adulto não fica maior sem recortar espaço de algum outro lugar.
III
Suor e Lágrimas Aos Sessenta
Sobre Masako Wakamiya, e a dificuldade real por trás da programadora de oitenta e um anos
No Japão, a bancária aposentada Masako Wakamiya oferece o retrato mais honesto possível do que essa capacidade custa na prática, sem embelezamento. Depois de quarenta e três anos trabalhando no mesmo banco, foi obrigada a se aposentar aos sessenta anos, idade limite imposta pela empresa. Temendo o isolamento que via se aproximar, decidiu, já sessentona, aprender a usar um computador pela primeira vez na vida. Levou três meses inteiros só para conseguir configurar a máquina sozinha, processo que ela mesma descreveria depois, sem qualquer romantismo, como uma fase em que seu rosto ficava coberto de suor e lágrimas.
Wakamiya não parou por aí. Aos setenta e cinco anos começou a estudar piano. Aos oitenta e um, depois de seis meses de curso de programação e orientação remota de um professor mais jovem, lançou seu primeiro aplicativo para celular, batizado Hinadan, inspirado na tradicional festa japonesa das bonecas Hinamatsuri, pensado especificamente para outras pessoas idosas que, como ela, sentiam falta de aplicativos feitos para a própria faixa etária. O aplicativo chamou tanta atenção que a Apple a convidou, pouco depois, para participar da conferência mundial de desenvolvedores da empresa, tornando-a a participante mais velha da história do evento.
Wakamiya nunca escondeu a dificuldade atrás do resultado final. Em entrevistas, repetiu várias vezes que a maioria das pessoas idosas simplesmente desiste da ideia de aprender algo novo, e que o fato de algumas ainda tentarem não é só bom para elas mesmas, é bom para a economia inteira ao redor delas. A frase que resume sua filosofia não promete facilidade nenhuma: ela apenas insiste que a idade, sozinha, nunca foi o verdadeiro impedimento.
Suor e lágrimas para ligar um computador não é fracasso. É o preço de entrada de qualquer aprendizado real.
IV
O Primeiro Dia de Aula Aos Oitenta e Quatro
Sobre Kimani Maruge, e aprender a ler do zero absoluto
No Quênia, a história de Kimani Ng'ang'a Maruge leva essa mesma capacidade a um extremo ainda mais radical. Ex-combatente do movimento Mau Mau pela independência queniana, Maruge nunca tinha aprendido a ler. Em 2003, o governo do Quênia anunciou educação primária pública e gratuita para todos os cidadãos. Maruge, então com oitenta e quatro anos, apareceu na porta da escola primária Kapkenduiywo, em Eldoret, em janeiro de 2004, pedindo para se matricular.
A motivação declarada por Maruge era direta: queria aprender a ler a Bíblia com os próprios olhos, sem depender de pregadores que, segundo ele mesmo relatou, o tinham enganado ao longo da vida por causa do seu analfabetismo. Sentado em carteiras junto de crianças, muitas delas seus próprios bisnetos, Maruge terminou o primeiro trimestre com notas máximas em inglês, suaíli e matemática, entre os cinco melhores alunos da turma inteira. Em 2005, foi eleito o aluno mais graduado da escola, com a responsabilidade de orientar os colegas mais novos, e viajou pela primeira vez de avião na vida para discursar na sede da ONU em Nova York sobre a importância da educação gratuita.
Maruge entrou para o Guinness como a pessoa mais velha do mundo a começar o ensino fundamental, mas o dado que mais importa aqui não é o recorde. É que ele começou do zero absoluto, sem nenhuma base prévia de alfabetização, depois dos oitenta anos, e não apenas acompanhou o ritmo da turma como superou boa parte dela. Morreu em 2009, aos oitenta e nove anos, ainda matriculado.
V
O Mito dos Dez Por Cento
Sobre Suzana Herculano-Houzel, e a desculpa da idade que a ciência já derrubou
No Brasil, a neurocientista carioca Suzana Herculano-Houzel dedicou boa parte da carreira a um trabalho menos visível do que qualquer descoberta isolada: desmontar mitos populares sobre o cérebro que circulam havia gerações sem nenhuma base científica real. O mais famoso deles, o de que usamos apenas dez por cento da capacidade cerebral, aparece repetidamente em pesquisas internacionais como uma crença aceita por cerca de metade da população em geral, inclusive entre professores, segundo levantamentos publicados na revista científica Nature.
Herculano-Houzel, primeira brasileira convidada a falar no palco principal do TED Global, construiu a carreira justamente na fronteira entre neurociência rigorosa e comunicação para o público leigo, insistindo que boa parte do que se acredita popularmente sobre limites do cérebro simplesmente não resiste a exame científico cuidadoso. O mito de que o cérebro adulto perderia, depois de certa idade, a capacidade de se reorganizar fisicamente pertence à mesma categoria: pesquisa de neuroimagem contemporânea mostra que o cérebro segue formando novas conexões e, em resposta a prática constante, até aumentando volume de substância cinzenta em regiões específicas, em qualquer década de vida adulta, não apenas na juventude.
O trabalho de divulgação científica de Herculano-Houzel tem um efeito prático que ultrapassa a curiosidade: cada mito de limitação cerebral desmontado remove, também, uma desculpa socialmente aceita para não tentar. Mudar de mentalidade sobre a própria capacidade de aprender, nesse sentido, não é otimismo vazio. É atualização de dado, o mesmo tipo de atualização que qualquer boa ciência exige de quem se dispõe a acompanhá-la.
VI
Ainda Dá Tempo de Aprender o Caminho
Fechamento
A pessoa sentada diante da tela do curso online, no início deste ensaio, não sabia de nada disso enquanto errava a segunda pergunta seguida do teste de nivelamento. Não sabia que taxistas de meia-idade em Londres tinham feito seus hipocampos crescerem fisicamente depois dos quarenta. Não sabia que uma bancária japonesa tinha chorado de frustração durante meses só para ligar um computador antes de se tornar programadora aos oitenta e um anos. Não sabia que um homem queniano tinha aprendido a ler pela primeira vez aos oitenta e quatro, sentado ao lado dos próprios bisnetos. Não sabia que uma neurocientista brasileira passava a carreira inteira provando, com dados, que a desculpa da idade não se sustenta.
O que restava fazer, ali, diante do cursor piscando de novo na terceira pergunta, era simplesmente continuar. Não porque o caminho fosse indolor. As histórias reunidas neste ensaio provam justamente o contrário: aprender depois de adulto dói, custa tempo, às vezes custa lágrimas reais, e nenhuma delas promete atalho. Provam apenas que a dor não é veredito final sobre capacidade. É, quando muito, o primeiro sinal de que um mapa antigo está, finalmente, começando a ser redesenhado.
Errar a primeira pergunta não é veredito, é apenas o primeiro traço do mapa novo.
O cérebro que aprende depois dos quarenta cresce do mesmo jeito que um músculo cresce.
Nenhuma das histórias aqui reunidas prometeu facilidade, só possibilidade real.
Ainda dá tempo de aprender o caminho, mesmo sem saber ainda para onde ele leva.
Dedicatória
A quem já fechou a aba do navegador por um instante, respirou, e voltou a abrir mesmo assim.
Ainda diante do cursor piscando, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?