Mimos · Sushi · Escrito CLIII
Mimos do Sushi
Dez pequenos acertos de um primeiro sushi, vistos de perto
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Aba I
Abertura e I a III · A receita, o salmão e a pele
Aba II
IV a VI · A colher, o encontro e o corte
Aba III
VII a X · A mesa, a bandeja, a frequência e o arroz
Este é o relato de um primeiro sushi feito em casa, contado em dez pequenos acertos. Nenhum deles ganharia prêmio. Todos ganharam um sorriso.
Quem já encarou uma receita pela primeira vez vai se reconhecer em alguns. Quem nunca encarou vai, no mínimo, torcer.
I
A receita
Sobre querer fazer o próprio e medir a prontidão para a missão
Tudo começou com uma vontade simples: fazer o meu próprio sushi.
Antes de comprar qualquer ingrediente, fiz o que toda pessoa responsável faz. Avaliei o desafio e perguntei a mim mesmo se estava pronto para a missão. Chamei de missão. Sushi, a rigor, é arroz com peixe, mas a gente sabe como a gente é.
Foi então que reparei numa coisa. Se existe uma receita, também existe uma possibilidade real.
A dúvida não sumiu. Só mudou de tamanho. Deixou de ser "será que dá?" e virou "por onde eu começo?".
Comecei pela lista de compras, que é por onde começam todas as grandes missões.
Todo começo é uma lista de compras com ambição.
II
O salmão
Sobre o preço na etiqueta e a decisão que veio contra o bolso
O preço apareceu na etiqueta, e a primeira ideia foi substituir. Era uma ideia sensata, dessas que o bolso aplaude de pé.
Mas sushi sem salmão é sushi de segunda.
Fiquei um instante parado diante do balcão, fazendo a conta e fazendo a escolha. Eram duas operações diferentes, e chegaram a resultados opostos.
Levei o salmão.
Passei pelo caixa com a sensação de quem acaba de assumir um compromisso. Faltava só avisar ao salmão que, a partir dali, ele era da família, e que da família a gente não joga nada fora.
III
A pele
Sobre usar o peixe inteiro e o que sobrou virar acabamento
Decidi usar tudo. Ninguém paga esse preço para mandar uma parte do peixe embora. A carne virou rolo, as aparas viraram recheio, e a pele, que num dia comum iria sem cerimônia, ganhou cerimônia: foi para a frigideira.
Voltou seca, crocante, com o brilho de quem passou por fogo. Coloquei por cima no final, sem acreditar muito que fosse fazer diferença.
Fez. Foi uma experiência incrível, que aperfeiçoou todas as outras. O arroz macio, o peixe sedoso e, por cima, aquele estalo que faltava e que eu nem sabia que faltava.
O que ia sobrar foi justamente o que completou.
Entre a minha mesa e a de um restaurante, a única diferença passou a ser a conta.
O que seria descartado entrou para a história do prato como o fim da frase.
IV
A colher de madeira
Sobre um rito seguido com fé e nenhuma diferença
O arroz tinha outras características, e eu li a embalagem com a atenção de quem escolhe um sócio. O vinagre entrou no tempero, o que já foi uma novidade: arroz também se tempera.
E me disseram da colher de madeira. Que fazia diferença.
Segui o rito completo. Mexi o arroz com a delicadeza de quem teme ofender a colher, e fiz em silêncio a pergunta de todo iniciante: eu devia estar sentindo alguma coisa?
Não senti nada.
O arroz ficou ótimo, de todo modo. Pode ser que a diferença esteja na colher e que eu ainda não esteja à altura dela. Guardei-a na gaveta com a dignidade que merece, porque também não custa manter a boa relação.
V
O encontro
Sobre os acompanhamentos e o cream cheese que mudou tudo
Montei cada coisa pensando no seu lugar: a manga, o pepino, o atum. Tudo com a seriedade de uma reunião de condomínio, cada um defendendo o seu andar.
Então o cream cheese encontrou o salmão.
Sublime.
Nem procurei outro nome. O que estava lado a lado virou uma coisa só, e a primeira mordida deixou de ter partes. A reunião de condomínio terminou em abraço.
Fiquei um instante parado, para entender o que tinha acontecido. Era o mesmo salmão de sempre. Só que agora tinha companhia.
Há ingredientes que somam e há os que apresentam um ao outro.
VI
O corte
Sobre o primeiro rolo aberto e o elogio que veio de dentro
A faca desceu devagar. Prendi a respiração sem perceber.
O rolo abriu.
Saiu certinho.
"Que massa."
Em voz alta, para a cozinha vazia. Não tinha ninguém para ouvir, e o espaço ficou com a frase.
Fiquei olhando as duas metades, procurando o erro, que é o que a gente faz quando o acerto chega sem aviso. Não tinha. Sorri sozinho, aprendendo com a experiência, e aceitei o elogio com humildade. O primeiro aplauso de um cozinheiro iniciante quase sempre vem do próprio cozinheiro.
O primeiro elogio quase sempre vem do espelho.
VII
A mesa
Sobre a degustação posta para a gatinha e o filho
Cortar e montar é uma coisa. Pôr a mesa é outra, e foi aí que o tamanho da história mudou.
Os pratos diferentes, um hashi para cada, o shoyu, os acompanhamentos, tudo no seu lugar. A mesa não era para mim. Era para a minha gatinha e para o meu filho, e isso muda o jeito de ajeitar um prato.
Fui cozinheiro, garçom e plateia ao mesmo tempo. Dei um passo atrás e olhei.
Era incrível. Acima do esperado.
VIII
A bandeja vazia
Sobre o incentivo que veio em forma de sushi acabando
A primeira impressão a gente lê no rosto de quem prova. Foi incrível.
Os sushis foram acabando, um depois do outro, até não sobrar nenhum. E ainda ficou vontade de mais.
Eu tinha começado sozinho, para aprender. A bandeja vazia me disse o que nenhuma palavra diria: continua. Foi o elogio mais claro que eu poderia receber, e o mais fácil de lavar.
A bandeja vazia é o aplauso mais honesto que existe.
IX
Com frequência
Sobre o que começa como missão e termina como hábito
Podia ter ficado só na história, dessas que a gente conta e não repete.
Não ficou.
Agora faço com frequência. O que era desafio virou costume da casa, e o costume virou um jeito de estar junto.
A palavra missão saiu do vocabulário. Hoje ninguém chama de missão. Chama de jantar.
A primeira vez foi para aprender. As outras são para a mesa.
X
Tudo era arroz
Sobre a descoberta de olhar o resultado e ver o que sustentava tudo
Foi olhando o resultado que percebi.
Na bandeja, o salmão, a manga, o pepino, o cream cheese, o atum, cada um com o seu brilho. E embaixo de todos, o arroz.
Sushi é arroz. O resto são acompanhamentos, e são infinitos, e nenhum precisa ser o último.
Pensei no balcão, no preço, em quanto defendi o salmão da substituição. Brigava com o bolso pelo coadjuvante. Valeu a briga: o coadjuvante estava ótimo.
Eu achava que estava aprendendo a fazer sushi. Estava aprendendo a fazer arroz, com companhia.
Todo coadjuvante defendido com unhas e dentes merece um dia de protagonista.
Veio a receita, veio o salmão,
veio a pele, que ninguém esperava.
No fim, sobrou o que sempre esteve embaixo:
o arroz, a mesa e quem chegava.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem ainda se surpreende com o próprio primeiro acerto.
Ainda aprendendo a fazer arroz, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?