Fábula · Justiça Social · Escrito CLII
A Sombra para Todos
As Conversas do Terreiro, II: uma fábula sobre quem decide a medida da sombra
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Aba I
Abertura, I e II · O anúncio e a régua
Aba II
III a V · As tigelas, a cerca e o mérito
Aba III
VI a VIII · A cabra, o touro e a última página
Aba IV
IX a XII · A interpretação, o galo, o jumento e Mozi
Aba V
XIII a XV · A vaca, o pombo e a sombra que se move
Na Fazenda das Quatro Vozes havia uma figueira antiga junto ao muro de pedra, tão larga de tronco e tão aberta de galhos que, nas horas mais quentes, a sombra dela alcançava boa parte do terreiro. As galinhas descansavam ali depois de ciscar. Os porcos se deitavam na terra fresca. As vacas ruminavam em silêncio, e os cavalos ficavam perto do tronco, onde o ar parecia ter alguns graus a menos.
Ninguém sabia dizer de quem era a figueira. Quando a sombra era dividida sem discussão, todos diziam que não era de ninguém.
Naquele verão o calor chegou mais cedo e ficou mais tempo. A terra rachou em alguns pontos, o vento parou, e os animais passaram a procurar a árvore antes mesmo de o sol nascer.
I
O Anúncio
Sobre o galo que decidiu organizar o que ninguém pediu para organizar
No terceiro dia de calor intenso, quando o sol ainda subia, Estouro apareceu no tronco principal com uma fita vermelha amarrada ao pescoço.
“ATENÇÃO! A PARTIR DE HOJE, A SOMBRA DA FIGUEIRA SERÁ ORGANIZADA!”
Os animais levantaram a cabeça. Rumina, que estava deitada perto de uma raiz, interrompeu a ruminação.
“Organizada por quem?”
“Por mim.”
“Por quê?”
“Porque alguém precisa tomar uma decisão.”
Farofa, num galho mais alto, inclinou a cabeça.
“Você decidiu que alguém precisava decidir e depois decidiu que esse alguém seria você?”
“Exatamente”, disse Estouro. “Isso é liderança.”
Baltazar chegou devagar, com a vara e a pequena bolsa de couro.
“Qual é a regra?”
“Cada animal terá direito à mesma quantidade de sombra.”
“Quanto é a mesma quantidade?”, perguntou Rumina.
“Uma parte igual para cada um.”
“Uma parte igual de quê?”
“Da sombra.”
“Como se mede uma sombra?”
Estouro abriu as asas.
“Com autoridade.”
Farofa soltou um ruído que parecia riso. O galo prosseguiu: desenharia círculos no chão, cada animal ficaria dentro do seu, e assim ninguém teria mais sombra do que os outros.
“E se um animal for maior que o círculo?”, perguntou Rumina.
“Terá de se abaixar.”
“E se o círculo ficar ao sol quando a sombra mudar?”, perguntou Farofa.
“Teremos círculos móveis.”
“Quem vai movê-los?”, perguntou Baltazar.
“Os animais responsáveis.”
“Quem são eles?”
“Eu ainda vou escolher.”
Baltazar fincou a vara na terra.
“Antes de criar uma regra, é preciso entender o problema.”
“O problema é que alguns ocupam mais sombra do que outros.”
Rumina olhou ao redor. Havia três porcos junto às raízes, uma égua com o potro e galinhas espalhadas sob os galhos.
“Eles ocupam mais espaço porque são maiores.”
“Então é injusto. Todos devem receber o mesmo.”
Baltazar ergueu os olhos para a copa por um instante.
“Todos devem receber o mesmo, ou todos devem receber o suficiente?”
O galo abriu o bico e não respondeu logo.
Todo mundo tem pressa de organizar a sombra de que já está usufruindo.
II
A Régua
Sobre quadrados iguais num chão desigual
Estouro convocou uma assembleia e mandou Farofa anunciá-la, embora não tenha gostado quando o pombo acrescentou que a conversa seria aberta a todos.
“Eu disse para anunciar a reunião.”
“E eu anunciei que todos poderiam participar.”
“Isso não estava no pedido.”
“Estava no assunto.”
O galo trouxe do galpão uma régua de madeira. Baltazar levou o giz, Rumina o caderno, e Farofa pousou no galho mais baixo para ver quem chegava. Estouro desenhou quatro quadrados no chão: um para as galinhas, um para os porcos, um para os cavalos e um para as vacas.
“Por que por grupos?”, perguntou Rumina.
“Fica mais organizado.”
“E quem não pertence a nenhum?”
“Poderá escolher um.”
“E quem não couber no escolhido?”
“Deverá esperar.”
Uma galinha pequena levantou a asa.
“Esperar até quando?”
“Até que haja espaço.”
“E se eu desmaiar antes?”
“Não seja dramática.”
Baltazar olhou os quadrados.
“Estouro, todos têm o mesmo tamanho?”
“Sim.”
“Recebem a mesma sombra?”
“Sim.”
“Em todos os momentos do dia?”
Estouro olhou para a árvore.
“Talvez não.”
“Então a igualdade dos quadrados não garante igualdade de sombra.”
“Se o desenho é igual, a regra é igual”, insistiu o galo.
Rumina se aproximou de um dos quadrados.
“Mas o chão não é igual. Aqui há uma raiz, ali uma pedra. Este fica junto ao muro e pega o vento quente. Aquele fica debaixo do galho mais espesso.”
Farofa voou até o alto da figueira e voltou depois de alguns minutos.
“De cima dá para ver que a sombra anda. De manhã cobre o lado do muro. Ao meio-dia fica no centro. À tarde alcança o bebedouro.”
“Então até a sombra tem horário”, disse Rumina.
“Tudo o que parece fixo também se move quando se olha por tempo suficiente”, respondeu Baltazar.
Ao meio-dia a sombra deixou o canto onde a galinha pequena esperava. Ela cambaleou, abriu o bico e deitou de lado na terra quente.
Ninguém gritou. Rumina foi a primeira a chegar e Baltazar, depois, cobriu a galinha com a própria sombra, que era larga. Trouxeram água numa cuia. A galinha respirou fundo, abriu um olho e fechou outra vez, mais tranquila.
Estouro tinha dito que ela não fosse dramática, e a frase ficou no chão como um objeto que ninguém quis pegar. A régua, que ele ainda segurava, não media nada que importasse naquele instante.
III
Três Tigelas
Sobre dar a mesma coisa e fazer justiça
Rumina escreveu três palavras no caderno: igualdade, necessidade e direito.
“Baltazar, qual é a diferença entre dar a mesma coisa a todos e fazer justiça?”
O jumento desenhou três tigelas no chão.
“Imagine três animais. Um está com sede, outro com muita sede e o terceiro está doente e não consegue beber sozinho. Se cada um recebe a mesma quantidade de água, o tratamento é igual.”
“Mas não necessariamente justo”, disse Rumina.
“Justiça precisa olhar as diferenças que importam.”
Estouro cruzou as asas.
“Então você quer dar mais para alguns. Isso é favoritismo.”
“Favoritismo é dar vantagem sem uma razão justa. Cuidar de uma necessidade maior pode ser um jeito de corrigir uma desigualdade.”
Rumina apontou para a égua e o potro.
“Então o potro deveria ter um espaço maior?”
“Ou prioridade nas horas de maior calor, porque o corpo dele suporta menos.”
Uma galinha velha entrou na conversa.
“Mas eu trabalho o dia inteiro e também fico cansada.”
“Por isso a justiça não pode olhar um fator só”, respondeu Baltazar. “É preciso saber quem está mais exposto, quem tem menos alternativas, quem ajuda a manter a sombra e quem vem sendo afastado dela há muito tempo.”
“Quem vem sendo afastado?”, perguntou Estouro.
Farofa levantou a asa.
“Os pequenos ficam perto da borda. Quando o calor aumenta, os maiores avançam para o centro e os pequenos recuam para não serem pisados.”
Rumina escreveu uma quarta palavra: poder.
“Talvez a questão não seja só quanto cada um recebe, e sim quem consegue chegar primeiro.”
Baltazar assentiu.
“Os recursos não se repartem só por regras escritas. Repartem-se também por força, por costume, por tamanho e por medo.”
“Mas os grandes chegam primeiro porque são mais rápidos”, disse Estouro.
“E por que são mais rápidos?”, perguntou Rumina.
“Porque são mais rápidos.”
“Isso é uma explicação ou uma repetição?”
O galo ficou quieto.
“Uma regra pode parecer neutra e favorecer sempre os mesmos”, disse Baltazar. “Se a sombra é de quem chega primeiro, talvez não estejamos premiando o esforço. Talvez estejamos guardando a vantagem de quem já tinha mais força.”
Estouro apertou a régua com o bico.
“Então justiça é dar a vitória a quem chega depois?”
“Não. É perguntar se a corrida começou no mesmo lugar para todos.”
Uma regra neutra no papel pode ser uma ladeira no chão.
IV
A Cerca
Sobre a história que a sombra esconde
Farofa voou até o muro de pedra e voltou carregando uma folha seca, marcada por linhas e sinais.
“Descobri uma coisa.”
“Você sempre descobre uma coisa”, disse Estouro.
“Desta vez trouxe uma folha como prova.”
Baltazar a examinou.
“Parece parte de um registro.”
“Achei um caderno no depósito velho”, disse Farofa. “A figueira foi plantada por um grupo de animais que trabalhava na parte mais seca da fazenda. Eles carregaram água durante duas estações para que a muda sobrevivesse.”
Uma vaca mais velha levantou a cabeça.
“Minha avó falava disso.”
“Quando a árvore cresceu, os donos da fazenda puseram uma cerca em volta. Durante muitos anos só alguns animais podiam descansar debaixo dos galhos. Os outros ficavam do lado de fora.”
“E quando a cerca caiu?”, perguntou Rumina.
“Há três gerações.”
“Por que ninguém contou essa história?”
Farofa inclinou a cabeça.
“Uns diziam que era passado. Outros diziam que todos sempre tinham tido acesso à sombra.”
Estouro apontou para a árvore.
“Mas hoje ninguém mantém cerca nenhuma.”
“Uma cerca pode desaparecer e deixar os efeitos dela”, disse Baltazar. “Quem ficou anos do lado de fora pode ter menos força, menos saúde, menos confiança, menos hábito de ocupar o espaço.”
Rumina demorou a escrever.
“Então tirar a barreira nem sempre basta.”
“Às vezes é preciso reparar o que a barreira produziu.”
“Isso é dar mais a alguns?”
“É criar condições para que os prejudicados possam participar de verdade.”
Estouro bateu com a asa no próprio peito.
“E quem vai decidir quais foram os prejudicados?”
“Boa pergunta”, disse Baltazar. “Por isso a justiça não deve ser caridade de cima para baixo. Quem foi afetado precisa ajudar a dizer qual é o problema e qual é o remédio.”
Farofa pousou na pedra do muro.
“De cima, muita coisa parece escolha. De perto, às vezes era a única porta aberta.”
V
O Que Se Faz Sozinho
Sobre o mérito e a rede que ninguém vê
Estouro não estava convencido.
“Entendi a história da árvore. Mas ninguém falou do mérito.”
“O que você chama de mérito?”, perguntou Rumina.
“Quem trabalhou mais deve receber mais.”
“Em todos os casos?”
“Claro.”
“Se um animal trabalhou mais porque tinha mais tempo, mais saúde e melhores ferramentas, o resultado dele é igual ao de quem trabalhou o mesmo tanto sem nada disso?”
“Trabalho é trabalho.”
Baltazar caminhou até a figueira.
“Imagine duas trilhas. Uma começa no lado da fazenda onde há água, sombra e ferramentas. A outra começa na parte seca, entre pedras e cercas quebradas. Se dois animais chegam ao mesmo ponto, fizeram o mesmo esforço?”
“Não”, disse Rumina. “O caminho importa.”
Estouro sacudiu a crista.
“Mas se tirarmos toda diferença, ninguém vai querer se esforçar.”
“Justiça não quer dizer que todos terão o mesmo resultado”, respondeu Baltazar. “Quer dizer que as diferenças não devem nascer de uma barreira injusta, de uma regra arbitrária ou da falta do básico.”
“Pode haver diferença de resultado e haver justiça”, acrescentou Rumina. “Mas não há justiça quando alguns sequer conseguem entrar na disputa.”
Farofa baixou o voo sobre o terreiro.
“Na fazenda do norte, todos recebem a mesma quantidade de sementes. Mas uns têm terra fértil e outros recebem solo seco. Os registros dizem que a divisão é igual. As colheitas mostram que as condições não são.”
“Você está dizendo que o mérito não existe?”, perguntou Estouro.
“Estamos dizendo que o mérito não explica sozinho o resultado”, respondeu Baltazar. “Também é preciso olhar as oportunidades, as condições e o ponto de partida.”
O galo desceu da pedra.
“Então uma conquista nunca é só de quem conquistou?”
“Quase nunca”, disse Rumina. “Há sempre uma rede invisível: quem ensinou, quem cuidou, quem abriu o caminho, quem fez a ferramenta, quem alimentou o trabalhador, quem protegeu o tempo para ele tentar.”
Estouro olhou para a fita vermelha.
“Eu aprendi a cantar sozinho.”
“Você aprendeu a cantar porque alguém cuidou de você quando ainda não cantava”, disse Baltazar.
O galo não respondeu.
Ninguém se levanta sozinho: sempre houve alguém que segurou a escada antes de a gente subir.
VI
A Cabra
Sobre quem não veio à assembleia
Os animais decidiram fazer um teste. Dividiram a sombra em períodos. Nas horas mais quentes teriam prioridade os filhotes, os doentes, os velhos e quem trabalhava exposto ao sol. Nas horas amenas, a sombra seria aberta a todos por ordem de chegada, mas ninguém poderia ocupar espaço suficiente para expulsar os outros. A manutenção da figueira seria responsabilidade comum: quem podasse, limpasse o solo, protegesse as raízes ou trouxesse água para a árvore teria reconhecimento, mas não ganharia o direito de possuir a sombra.
Coube a Estouro anunciar os horários. No primeiro dia, ele gritou:
“PRIORIDADE PARA OS FRACOS!”
Uma galinha velha se encolheu.
“Não somos fracos”, disse. “Estamos mais expostos ao calor.”
“Palavras também podem humilhar”, disse Rumina.
O galo baixou a voz.
“Prioridade para quem precisa de mais proteção.”
“Melhor”, disse Baltazar.
Farofa saiu para avisar os animais que não tinham ouvido a regra e voltou com uma notícia.
“Há uma cabra que não veio à assembleia porque acha que ninguém escuta o que ela diz.”
“Por que ela acha isso?”, perguntou Rumina.
“Porque nas últimas reuniões os animais maiores falavam por cima dela.”
“Ela deveria falar mais alto”, disse Estouro.
“Você está ensinando que só quem grita merece ser ouvido?”
O galo ficou calado.
“Uma reunião pode ser aberta no nome e fechada no modo como funciona”, disse Baltazar. “Participar não é só estar presente. É ter uma chance verdadeira de falar e de ser levado em conta.”
No fim da tarde a cabra apareceu junto à figueira. Era pequena, tinha uma perna machucada e uma expressão desconfiada. Rumina foi até ela.
“Você quer falar sobre a nova regra?”
“Não sei se adianta.”
“Podemos escutar.”
“Escutar é diferente de mudar.”
“Você tem razão”, disse Baltazar.
A cabra contou que morava perto da parte mais seca, onde o vento levava a poeira para os olhos. No verão, precisava atravessar um longo trecho de terra para chegar à figueira, e quando chegava os maiores já tinham ocupado a sombra.
“Eu achava que era falta de esforço. Passei a sair mais cedo, e a perna piorou. Depois parei de ir às assembleias. Parecia que tudo já estava decidido.”
Estouro olhou para o chão.
“Eu não sabia.”
“Você nunca perguntou”, disse a cabra.
A frase ficou entre os dois.
Farofa abriu as asas, mas não voou. Pela primeira vez percebeu que a notícia mais importante não era a que ele podia levar para longe: era a que precisava ser ouvida por quem estava diante dele.
Rumina escreveu no caderno: A ausência também pode ser produzida.
“Explique”, disse Baltazar.
“Às vezes achamos que alguém não participa porque não quer. Mas pode ser que tenha aprendido que sua fala não muda nada, ou que o caminho até a reunião seja longo demais, ou que precise trabalhar justamente na hora em que todos se reúnem.”
“Uma comunidade justa não pergunta só ‘quem veio?’”, disse Baltazar. “Pergunta também ‘quem não conseguiu vir, e por quê?’”
Estouro amarrou a fita vermelha na própria pata.
“As próximas reuniões serão em lugares diferentes.”
“E em horários diferentes”, disse Rumina.
“E com tempo para cada grupo falar”, acrescentou Farofa.
“E com registro das decisões”, completou Baltazar.
A cabra se aproximou da sombra. Dessa vez ninguém precisou pedir espaço por ela.
Uma porta aberta que ninguém consegue alcançar ainda é uma parede.
VII
O Touro
Sobre o que o dinheiro não compra, e o que compra
Durante alguns dias a nova divisão funcionou. Os animais ainda discutiam, mas as discussões já não começavam sempre do mesmo lugar.
Então chegou à fazenda um touro grande, vindo de uma propriedade distante, com três carroças. Parou diante da figueira.
“Esta árvore dá os melhores frutos da região. Quero comprar todos.”
“E a sombra?”, perguntou Rumina.
“O acordo inclui a árvore inteira.”
Estouro subiu num barril.
“Mas a figueira não é de ninguém!”
O touro riu.
“Tudo tem dono. Se vocês não sabem quem é, é porque ninguém se deu ao trabalho de registrar.”
Farofa voou até o muro e voltou.
“Ele trouxe papéis assinados.”
Baltazar examinou os documentos.
“Estes papéis registram a terra em volta, mas não mencionam a figueira.”
“Então ela é minha, porque está na minha terra.”
“Se a árvore não existisse, sua terra valeria o mesmo?”, perguntou Rumina.
“Talvez.”
“Se os animais que cuidaram dela durante três gerações não tivessem cuidado, ela estaria dando frutos agora?”
O touro não respondeu.
“NINGUÉM VAI LEVAR NOSSA SOMBRA!”, gritou Estouro.
Baltazar levantou a pata.
“Não basta impedir a venda. Precisamos dizer por que a árvore deve continuar sendo de todos.”
“Porque é antiga”, disse uma galinha.
“Porque dá frutos”, disse um porco.
“Porque dá sombra”, disse a cabra.
“Porque foi cuidada por muitos”, disse Farofa.
Rumina olhou para Baltazar.
“Porque certas coisas sustentam a vida de todos e não podem ser tratadas só como mercadoria?”
“Essa é uma razão.”
“Eu pagaria bem”, disse o touro, balançando os papéis.
“Dinheiro não compra tudo”, disse Estouro.
“Compra algumas coisas”, disse Farofa, pousando ao lado dele. “A questão é saber quais coisas uma comunidade tem o direito de preservar, mesmo quando alguém oferece muito.”
“Há coisas que se compram e se vendem”, disse Baltazar. “E há outras que sustentam a vida de todos e pedem uma regra comum.”
“Quem decide o que é de todos?”, perguntou a cabra.
“Os afetados”, respondeu Rumina. “Não só quem tem dinheiro para fazer a oferta.”
A assembleia foi convocada, e dessa vez aconteceu em três lugares e em horários diferentes. Farofa levou o registro de uma reunião à outra. Rumina juntou as perguntas. Baltazar organizou os argumentos. Estouro anunciou a decisão sem transformar a reunião em espetáculo.
A figueira ficaria como bem comum da fazenda. Seus frutos seriam repartidos em três partes: uma para quem cuidava da árvore, uma para os animais que mais precisavam de alimento e uma para manter o terreno. A sombra continuaria aberta a todos, com prioridade pela necessidade e pela exposição.
Na véspera, Rumina tinha dito a Estouro, sem dar importância, que dobrar o preço de uma coisa que não está à venda não a coloca à venda.
O touro foi embora levando seus papéis. Antes de sair, perguntou:
“E se eu oferecer o dobro?”
Estouro respondeu em voz alta, com tanto peito que a frase quase parecia dele:
“Dobrar o preço de uma coisa que não está à venda não a coloca à venda.”
Baltazar olhou o galo, surpreso.
“Essa foi uma resposta muito precisa.”
“Eu ouvi vocês”, disse Estouro.
Rumina sorriu e não disse de quem era a frase.
VIII
A Última Página
Sobre o caderno da Rumina e o que a sombra ensinou
O verão acabou algumas semanas depois. A primeira chuva chegou de madrugada, lavou a poeira das folhas e encheu as marcas do chão. Os animais saíram dos abrigos e ficaram olhando a água cair.
A figueira ficou de pé. As regras da sombra continuaram existindo, mas passaram a ser revistas com as estações. No frio, ninguém precisava de prioridade. Na época dos frutos, a divisão era refeita. Quando um animal novo chegava à fazenda, os outros contavam a história da árvore antes de explicar a regra.
Um dia, Rumina reabriu o caderno e encontrou as palavras que tinha escrito: igualdade, necessidade, direito, poder, mérito, participação, bem comum. Chamou os outros.
“O que é justiça social?”
Estouro respondeu primeiro, mas dessa vez não gritou.
“É não deixar que os mais fortes decidam tudo sozinhos.”
“É descobrir quem está ficando de fora, inclusive quando ninguém percebe”, disse Farofa.
“É construir regras e condições para que todos possam viver com dignidade, participar das decisões e ter acesso ao que é necessário, levando em conta as diferenças reais entre os animais”, disse Baltazar.
Rumina ruminou as três respostas.
“Então justiça não é dar exatamente a mesma coisa a todos.”
“Não”, disse Baltazar.
“Também não é tirar tudo de quem tem mais”, disse Estouro.
“Não.”
“Não é só ajudar quem precisa”, disse Farofa. “É também mudar as regras que fabricam a necessidade.”
“Essa distinção é importante”, disse Baltazar.
“E não é só chegar a um resultado justo”, completou Rumina. “É garantir que o caminho da decisão também seja justo.”
Os quatro ficaram em silêncio. A sombra da figueira alcançava quase todo o terreiro. Estouro se sentou perto da raiz.
“Eu achava que justiça era cada um receber a mesma medida.”
“E agora?”, perguntou Rumina.
“Agora acho que justiça é garantir que ninguém precise lutar sozinho contra uma regra feita sem escutar a sua vida.”
“Essa definição ainda pode melhorar”, disse Baltazar.
“Então melhore você.”
“Não. Vamos melhorar juntos.”
Farofa subiu ao galho mais alto. De lá viu crianças chegando pela estrada, animais espalhados pela sombra e a figueira abrindo novos frutos. Podia contar a cena para a fazenda inteira. Mas decidiu pousar. Havia momentos em que olhar de cima era importante, e outros em que era preciso ficar no chão, ao lado de quem estava aprendendo a dividir o mesmo espaço.
Na última página do caderno, Rumina escreveu, uma pergunta por linha:
Quem chegou até a sombra?
Quem ficou de fora, e por quê?
Quem fez a regra?
Quem ganha com ela?
A corrida começou no mesmo lugar para todos?
Uma regra igual dá uma sombra igual?
A ajuda cuida do calor ou muda o que produz o calor?
O que é de todos e não pode ter um dono só?
E embaixo, em letra menor: A justiça começa quando deixamos de perguntar apenas se todos receberam a mesma parte e passamos a perguntar se todos puderam viver, participar e ser respeitados.
IX
O Que a Fábula Pergunta
Sobre quatro animais e as vozes que chegaram antes deles
A figueira da fazenda é inventada, mas a pergunta que ela faz é antiga: quando um bem serve a todos, quem decide a medida? A resposta nunca coube numa só tradição. Cada animal do terreiro carrega uma dúvida que outras pessoas, em outros lugares, já enfrentaram, e algumas delas chegaram a respostas que a fábula só intuiu.
Aqui vão cinco vozes. Um sociólogo inglês que inventou uma palavra para avisar contra ela. Uma assembleia da África austral em que ninguém interrompe quem fala. Um filósofo chinês que pensou numa sombra sem lado de dentro e de fora. Mulheres do interior do Maranhão que pararam um machado com o corpo e os filhos. E uma cientista política que foi ver, nas montanhas, como as pessoas dividem o que é de todos. Elas não concordam em tudo. Mas, juntas, cercam a mesma figueira.
X
Estouro e a Régua do Mérito
Sobre Michael Young e a palavra que nasceu como aviso
“Eu aprendi a cantar sozinho” é a frase de todo vencedor de boa-fé. Estouro a diz com a fita vermelha ao pescoço, e Baltazar responde que alguém cuidou dele antes de ele cantar.
A frase tem uma história curiosa. Em 1958, o sociólogo britânico Michael Young publicou The Rise of the Meritocracy, uma sátira que olha para trás a partir de um futuro imaginado. Nela, a sociedade distribui poder segundo inteligência somada a esforço, e a palavra que dá nome ao livro, meritocracia, foi criada por ele para esse fim. Era um aviso: uma elite convencida de que merece tudo, e uma maioria que perde até o direito de se queixar, porque, afinal, quem discordaria de que os capazes governem?
Em 2001, num artigo no Guardian, Young confessou a decepção. A palavra tinha escapado e virado elogio, repetida até nos discursos do primeiro-ministro Tony Blair. Ele não era inimigo do mérito: achava sensato nomear pessoas para cargos pelo que sabem fazer. O que o assustava era a soberba de quem vence e a humilhação de quem perde, porque numa sociedade que valoriza tanto o mérito é duro ser tratado como quem não tem nenhum.
Estouro é um meritocrata de boa-fé que ainda não ouviu o aviso. O que a fábula acrescenta a Young é uma saída discreta: reconhecer a rede de cuidado que sustentou cada conquista não apaga o esforço de ninguém. Só impede que o esforço vire argumento para fechar a cerca atrás de si.
A palavra mérito nasceu como alarme e foi hospedada como troféu.
XI
Baltazar e a Assembleia Onde Todos Falam
Sobre o kgotla de Botswana e a decisão que precisa de todos
Entre os tswana, em Botswana, o kgotla é a assembleia pública em que a comunidade conversa e decide. O lugar pode ser um terreiro permanente de bancos cobertos ou, no mais simples, algumas cadeiras debaixo de uma cobertura de sombra. A regra central é que ninguém interrompe quem está falando, e a decisão busca consenso: se há desacordo, marca-se outra reunião e continua-se até a conversa produzir algo que a maioria aceite. O chefe anuncia a decisão como vontade da comunidade, e é por isso que ela tem peso.
Dois provérbios setswana resumem o espírito. Um diz que tudo o que se fala no kgotla é bom, o outro que quem fala também pode errar. Juntos, dão licença para dizer sem medo de ser ridicularizado, e para ser corrigido sem humilhação.
A assembleia de Baltazar se parece com isso, e a cabra mostra onde a semelhança acaba. Estudiosos observam que, em kgotlas grandes, o respeito ao chefe podia calar objeções, e que poder falar não é o mesmo que ser ouvido. A cabra não faltou à assembleia por preguiça: aprendeu que sua fala não mudava nada.
O remédio da fazenda foi prático e vale como lição ao kgotla também: reuniões em lugares diferentes, em horários diferentes, com tempo para cada grupo e registro do que foi decidido. A forma de uma assembleia não basta. É preciso cuidar também do caminho até ela.
XII
O Cuidado Sem Distinção
Sobre Mozi e a sombra que não escolhe para quem cair
Mozi viveu na China entre os séculos V e IV antes de Cristo e fundou a escola moísta, rival dos confucianos. Os textos atribuídos à sua escola, compilados por seguidores, trazem duas ideias que a fábula toca sem saber.
A primeira, elevar os capazes, afirma que cargos devem ir a quem tem capacidade, seja qual for a origem social. É a cerca de Farofa lida ao contrário: tira da árvore o lado de dentro e o de fora. A segunda é o cuidado imparcial, em chinês jian ai, muitas vezes traduzido como amor universal. Para os moístas, a raiz dos males do mundo é a tendência de cada um a preferir o próprio bem ao dos outros, e os conhecidos aos estranhos. Quem planta uma sombra só para os seus já cometeu o erro que o touro cometeria em grande escala.
Os moístas não se contentavam em pregar. Formaram uma comunidade que oferecia seu saber de defesa a cidades pequenas ameaçadas por vizinhos poderosos, ou seja, punham a técnica a serviço de quem estava do lado de fora.
Há uma ressalva honesta. O modelo de Mozi era hierárquico, com um soberano que escolhe os capazes. A fábula não herda o desenho, herda a pergunta: o que acontece com quem não faz parte do círculo dos que já sabemos cuidar?
XIII
Rumina e a Palmeira Que Ninguém Vendeu
Sobre as quebradeiras de coco babaçu e a lei do babaçu livre
No interior do Maranhão, do Pará, do Tocantins e do Piauí, mulheres que se chamam quebradeiras de coco babaçu vivem de uma palmeira que costuma crescer em terra de fazendeiros. Durante décadas encontraram cercas, derrubadas e veneno. Organizadas no Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, recorreram aos chamados empates: colocavam-se com os filhos diante das palmeiras para impedir que fossem derrubadas.
Em 1997, o município maranhense de Lago do Junco aprovou a primeira Lei do Babaçu Livre. Ela garante acesso e uso comunitário dos babaçuais, mesmo em propriedade particular, e proíbe derrubar as palmeiras. Outros municípios e estados seguiram o exemplo. As mulheres defendiam que, antes do direito à propriedade, vem o direito à vida, e a ideia circulou por onde havia gente cuidando da mesma árvore.
A discussão não terminou. O argumento mais forte contra as leis é o de que elas ferem a propriedade privada, e em alguns lugares as normas foram alteradas de modo a manter a proteção da palmeira e retirar a garantia de acesso. O movimento tem um lema que explica por quê: não existe babaçu livre em terra presa. O acesso à árvore depende do acesso ao território.
A cena do touro é a mesma: os papéis registram a terra, não a árvore. Rumina pergunta o que as quebradeiras perguntam, se a terra valeria o mesmo sem a palmeira e sem quem cuidou dela. Não pede a ninguém que abra mão do que é seu. Pede que se reconheça que há coisas que alguns possuem e todos usam, e que a lei pode escrever isso.
O papel registra o chão, mas quem plantou a sombra não costuma constar na escritura.
XIV
Farofa e as Regras Que Dão Certo
Sobre Elinor Ostrom e as aldeias que dividem sem dono
Em 1968, o ecólogo Garrett Hardin popularizou a ideia da tragédia dos comuns: um pasto de todos acabaria destruído, porque cada um tiraria dele o máximo. A cientista política americana Elinor Ostrom foi ver como as coisas funcionavam de fato, e encontrou o contrário.
Em Törbel, aldeia suíça nos Alpes, o pasto comum é cuidado há séculos por uma regra que remonta a 1517: cada família só pode mandar ao alpe, no verão, tantas vacas quantas consiga alimentar no inverno. Em vez de uma cerca, uma conta que todos entendem. A aldeia chegou a marcar o início do uso da água pelo momento em que os primeiros raios de sol tocavam uma montanha, como se medisse o bem comum com a luz.
Ostrom reuniu casos da Suíça, do Japão, da Espanha e das Filipinas e, em Governing the Commons, de 1990, destilou o que as comunidades bem-sucedidas tinham em comum. Os limites do recurso e de quem pode usá-lo são claros. As regras se ajustam às condições locais. Quem é afetado pode ajudar a mudá-las. Há quem fiscalize, e o fiscal presta contas a quem usa. As punições começam leves e crescem. Existem meios de resolver conflitos. A comunidade tem o direito de se organizar, reconhecido por quem está acima dela. Em sistemas grandes, as camadas se encaixam. Em 2009, ela se tornou a primeira mulher a receber o Nobel de Economia.
A fazenda improvisou boa parte dessa lista: regras revistas a cada estação, quem cuida da árvore recebendo reconhecimento sem posse, reuniões que mudam de lugar para quem fica longe. O que o touro mostrou foi a falta que Ostrom também notou. Sem alguém acima que reconheça a regra, uma decisão local pode ser desfeita por quem chega de fora com papéis. Ela nunca disse que comuns funcionam sempre. Disse que funcionam quando as condições certas existem, e que vale a pena construí-las.
XV
A Sombra Que Se Move
Sobre a pergunta que fica quando a régua é guardada
As cinco vozes não concordam. Young avisa contra a soberba de quem venceu. O kgotla ensina a ouvir sem interromper, e a cabra mostra que isso ainda não basta. Mozi pergunta o que fazemos com quem não conhecemos. As quebradeiras lembram que o papel pode esquecer a palmeira. Ostrom mostra que dividir o que é de todos é um ofício, e que se aprende.
O que as une é uma suspeita da régua. A régua mede o que parou, e a sombra anda. Uma justiça que só sabe medir uma vez por todas acaba como o círculo de giz de Estouro, desenhado ao meio-dia para um sol que já mudou de lugar. A fábula sugere outra coisa: a justiça é um hábito de voltar ao chão, de manhã e de tarde, para ver quem ainda está ao sol.
Rumina fechou o caderno, e a primeira página já estava em branco de novo. Era assim que ela gostava.
Próxima conversa: O Galo que Sabia Tudo
A sombra não pergunta de quem é a árvore.
Cai sobre quem está embaixo
e muda de lugar quando o dia muda.
Quem mede a sombra com régua
mede o que já passou.
Quem mede com a pergunta
volta ao chão, de manhã e de tarde,
e vê quem ainda está ao sol.
Há quem plante a sombra em que não vai deitar.
Há quem se deite sem saber de quem foi a água.
Dividir é lembrar a quem se deve
e guardar um lugar para quem ainda não chegou.
A figueira continua de pé.
A sombra anda com todos nós.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem ainda lembra de quem plantou a sombra em que descansa.
Ainda aprendendo a dividir a sombra, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?