Eco · Antônio Conselheiro · Escrito LXXXIII

LXXXIII

O Crucifixo de Prata

O peregrino que morreu abraçado à própria fé

Ouvir este escrito · narrado

0:00--:--
1×

I

O painel de Carybé, e a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel

II

A fundação de Belo Monte, e os manuscritos nunca lidos por Euclides

III

Os Sertões e a reabilitação tardia, e o crucifixo de prata

Num painel de Carybé que narra, em cores fragmentadas, a formação inteira do povo baiano, entre índios guerreiros e cangaceiros a cavalo, ergue-se uma figura descalça, vestida de branco surrado, apoiada num cajado alto quase do próprio tamanho. Do pescoço pendem várias correntes, terços, medalhas, e no meio delas, mais pesado que as outras, um crucifixo. Ao redor, romeiros o acompanham, uma mulher de véu rosa, um menino de chapéu, todos caminhando na mesma direção que ele.

Décadas antes de Carybé pintar essa cena, um militar encontrou o corpo de um homem real, morto havia pouco, rígido e frio, abraçado ao peito exatamente com um crucifixo de prata. Entre a tela e o fato há apenas a distância normal entre arte e história. O homem retratado e o homem encontrado morto são a mesma pessoa: Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.

I

Vida

De Quixeramobim ao Peregrino

Nasceu em 13 de março de 1830, em Quixeramobim, no sertão do Ceará, filho de Vicente Mendes Maciel e Maria Joaquina, ambos pardos, o pai descrito por quem o conheceu como homem irascível mas de caráter íntegro. Ficou órfão de mãe aos seis anos. Menino, devorava tudo que encontrava para ler, o Lunário Perpétuo, romances de cavalaria sobre Carlos Magno e os Doze Pares de França, a história da Princesa Magalona, as lições do catecismo católico, formação livresca incomum para um menino pobre do sertão brasileiro do século dezenove.

Aos vinte e sete anos perdeu também o pai, e precisou assumir, sem vocação nenhuma para o comércio, o armazém da família, sustentando quatro irmãs. Trabalhou como professor numa fazenda da região, depois como escrivão num cartório, ocupações que exigiam letramento raro entre seus pares. Casou-se com Brasilina Laurentina de Lima, bem mais jovem que ele. O casamento não durou. Abandonado pela esposa, depois de uma sequência de perdas que já incluía mãe, pai e, por fim, a vida doméstica que tentara construir, Antônio Vicente entregou-se de vez à vida errante, pregando e aconselhando os pobres do sertão, o que lhe rendeu o apelido que ficaria na história. Ele próprio preferia se chamar de outro jeito: O Peregrino.

II

Pensamento Central

Sobre Belo Monte

O sertão que Antônio Conselheiro percorreu a pé, durante décadas, vivia sob seca recorrente, fome crônica e a exploração costumeira dos grandes fazendeiros sobre trabalhadores sem terra própria. Quando a República recém-proclamada passou a autorizar a cobrança de novos impostos municipais e instituiu o casamento civil e o registro secular de nascimentos, retirando da Igreja Católica a exclusividade sobre esses atos, Conselheiro leu ali uma ruptura com a lei divina, não apenas uma reforma administrativa distante. Em 1893, na cidade de Bom Conselho, mandou queimar os editais que anunciavam a cobrança. A polícia que foi atrás dele e de seus seguidores foi derrotada.

Perseguido como fora da lei, o grupo se instalou numa fazenda abandonada às margens do rio Vaza Barris, no interior da Bahia, e ali fundou uma comunidade que Conselheiro batizou de Belo Monte, hoje conhecida pelo nome antigo do lugar: Canudos. Diferente das fazendas ao redor, em Belo Monte não se cobrava imposto, a terra era trabalhada em regime de ajuda mútua, e milhares de sertanejos pobres, muitos deles ex-escravizados havia pouco tempo, migraram para lá em busca do que a ordem republicana recém-instaurada não oferecia. A população chegou a dezenas de milhares de pessoas, tornando Belo Monte, por um breve período, uma das maiores cidades do interior do Nordeste brasileiro.

Um homem que queima um edital de imposto não está atacando uma lei qualquer. Está dizendo, em voz alta, que existe uma autoridade maior do que a que assina aquele papel.

O pensamento de Conselheiro não seguia um sistema filosófico organizado, mas uma visão religiosa e milenarista, a crença de que o fim dos tempos se aproximava e de que a nova ordem republicana, laica e distante de Deus, era sinal disso. Essa crença, somada à recusa em pagar imposto e à fuga em massa de mão de obra das fazendas vizinhas, transformou Belo Monte, aos olhos dos fazendeiros que perdiam trabalhadores e da Igreja oficial que perdia fiéis, numa ameaça a ser eliminada.

III

Textos Principais

Os manuscritos que Euclides nunca leu

Ao contrário do que a maior parte da historiografia brasileira sugeriu por décadas, Antônio Conselheiro deixou, sim, registro escrito próprio. Depois do fim da guerra, em 1897, um médico chamado João de Sousa Pondé, cirurgião da expedição militar vencedora, encontrou no santuário onde Conselheiro vivia um caderno manuscrito de próprio punho, contendo sermões, orações e versos. Esse material permaneceu praticamente esquecido por mais de um século, até ser organizado e publicado pela Editora da UFBA, em 2002, sob o título Breviário de Antonio Conselheiro, e mais recentemente reunido numa edição ainda mais completa sob o título Antonio Conselheiro por Ele Mesmo.

O detalhe mais revelador desse achado é o que ele expõe sobre o livro mais famoso já escrito sobre Conselheiro: Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, nunca teve acesso a esses manuscritos originais. Julgou os versos do líder de Canudos apenas por transcrições de terceiros, chamando-os de desgraciosos e disparatados, e enquadrou o próprio Conselheiro dentro do vocabulário racial e cientificista típico do final do século dezenove, como produto de uma camada étnica atrasada. O escritor mais lido sobre o homem, durante mais de cem anos, nunca leu o homem em suas próprias palavras.

Entre os poucos versos que sobreviveram por transmissão oral e chegaram até Euclides, está o que se tornaria a despedida mais lembrada de Conselheiro, escrita quando já sentia a morte próxima: adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos. Quatro despedidas simples, dirigidas não a pessoas específicas, mas à natureza inteira que o cercara a vida toda de peregrino.

IV

Fortuna Crítica

Os Sertões e a revisão tardia

Os Sertões, publicado em 1902, esgotou-se em semanas e permanece, até hoje, um dos livros fundamentais da literatura brasileira. Euclides da Cunha foi correspondente de guerra enviado para cobrir o conflito acreditando na versão oficial, a de um bando de fanáticos monarquistas armados contra a jovem República. A experiência de ver de perto o extermínio de Belo Monte transformou o relato em algo mais complexo do que reportagem de guerra, mas não o livrou de julgar Conselheiro através de teorias raciais europeias então em voga, que hierarquizavam povos e miscigenação como sinais de atraso biológico.

O livro que tornou Antônio Conselheiro famoso é também o livro que, por mais de cem anos, impediu o mundo de ouvir sua própria voz.

A descoberta tardia dos manuscritos originais, em 2002, obrigou pesquisadores a revisar essa imagem construída quase inteiramente por um único autor que nunca leu o material de primeira mão. O que emergiu dos cadernos foi um Conselheiro mais próximo da ortodoxia católica popular do que do fanatismo insano descrito por Euclides, um homem que citava escritura, recitava orações tradicionais e organizava a própria comunidade em torno de práticas religiosas reconhecíveis, não de delírio.

Décadas depois, o escritor peruano Mario Vargas Llosa levou a história de Canudos para além das fronteiras brasileiras com o romance A Guerra do Fim do Mundo, publicado em 1981, apresentando Conselheiro e seus seguidores a um público internacional que jamais teria ouvido falar do sertão baiano de outra forma. E em 2019, mais de cento e vinte anos depois de sua morte, o Congresso brasileiro aprovou a Lei 13.829, incluindo Antônio Conselheiro no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, reconhecimento oficial tardio de alguém que a própria República, em seu nascimento, tratou como inimigo a ser eliminado.

V

Ecos no Cotidiano

Fechamento

O painel de Carybé onde esse ensaio começou continua pendurado em espaço público, décadas depois de pintado, contando a mesma história a quem passa apressado sem necessariamente parar para olhar direito. É um destino curiosamente parecido com o do próprio Conselheiro: presente, visível, mas raramente examinado com a atenção que merece antes de ser classificado, julgado e seguido em frente.

A pergunta que a vida de Antônio Conselheiro deixa em aberto atravessa qualquer época: quem tem autoridade para decidir que a fé do outro é loucura, que o saber popular do outro é atraso, que a resistência do outro contra uma nova lei é fanatismo, sem antes se dar ao trabalho de ler, na própria letra de quem resiste, o que essa pessoa realmente escreveu, pensou e acreditou. Euclides da Cunha escreveu um livro genial sobre um homem que nunca leu. O Brasil levou mais de cem anos para descobrir isso, e mais de cento e vinte para pedir desculpa formal.

O crucifixo de prata que Antônio Conselheiro segurava ao morrer, o mesmo que Carybé pintou décadas depois pendurado ao peito da figura descalça em seu painel, continua sendo a imagem mais honesta que existe dele: não a de um louco armado contra a República, mas a de um homem que morreu exatamente como viveu, abraçado à própria fé, sozinho, sem microfone, esperando que alguém, algum dia, se desse ao trabalho de escutar o que ele realmente tinha para dizer.

Quem morre agarrado à própria fé
não está pedindo perdão a ninguém,
está apenas segurando, com as duas mãos,
a única coisa que nenhum exército
consegue confiscar antes do último suspiro.

Dedicatória

Este texto é dedicado a todos do BNB que podem ver, nesta tela, uma conexão para suas próprias vidas.

Ainda aprendendo a escutar antes de classificar, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · Vida
Biblioteca