Ensaio · Luxúria · Escrito LXXXIX

LXXXIX

O Fogo Que Promete Calor

Sobre a luxúria, o desejo que se mostra como chama e cobra como cinza

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I–II

Uma rua que todo turista encontra · Uma tempestade sem repouso

III–IV

A doença que Agostinho chamava de doce · O ácido que dissolve vínculos

V–VI

Muito tempo para a conexão, poucos minutos para o ato · Ecos no cotidiano

I

Uma Rua Que Todo Turista Encontra

Amsterdam e o De Wallen

Em Amsterdam, o roteiro turístico mais comum passa, cedo ou tarde, pelo De Wallen. A área existe desde o século catorze, quando marinheiros que chegavam ao porto encontravam mulheres acenando com lanternas vermelhas nas janelas. Hoje são cerca de trezentas cabines com vitrines de vidro, iluminadas em vermelho, oferecendo o mesmo comércio que existe ali há setecentos anos, a poucos metros da igreja mais antiga da cidade, a Oude Kerk. Turistas do mundo inteiro caminham por aquelas vielas estreitas como quem visita mais um ponto do itinerário, tirando fotos dos canais, comentando a arquitetura medieval, e só depois, quase sem perceber a mudança de tom, percebendo que aquilo que cruzaram como curiosidade pitoresca carrega um peso bem mais antigo e mais sério do que qualquer guia de viagem admite em voz alta.

Em 2023, a própria prefeitura de Amsterdam baniu os passeios turísticos guiados pela região, e desde então estuda mudar o bairro inteiro de lugar, tirando as vitrines do centro histórico. O motivo declarado não foi a atividade em si, mas o efeito que vira espetáculo: gente parada, filmando, comentando, tratando corpos como atração de vitrine. O desconforto que a própria cidade sentiu, depois de setecentos anos convivendo com aquilo, é exatamente o ponto de entrada deste texto. Não é sobre condenar o desejo. É sobre o que acontece quando o desejo deixa de ser encontro e vira consumo, vitrine, produto exposto sob luz vermelha.

O que mais chama atenção em quem visita o lugar pela primeira vez não é o choque, é a mistura de choque com fascínio, o mesmo par de reações que Dante descreveria, séculos depois, ao encontrar as almas do segundo círculo do Inferno. Ninguém sai daquelas ruas indiferente. Alguns saem incomodados, outros saem curiosos para voltar, e a maioria sai as duas coisas ao mesmo tempo, sem conseguir separar exatamente onde termina a curiosidade turística e onde começa algo mais antigo dentro de si mesmo, algo que reconhece naquela vitrine vermelha uma versão exagerada e pública de um impulso que todo mundo carrega, em grau menor, em segredo.

O fogo que aquece uma casa e o fogo que a incendeia são exatamente a mesma substância. A diferença inteira está na medida.

II

Uma Tempestade Sem Repouso

Dante, Paolo e Francesca

Setecentos anos antes de Amsterdam vender desejo atrás de vidro, Dante já havia colocado a luxúria no segundo círculo do Inferno, o primeiro reservado a um pecado propriamente dito depois do limbo. Ali, as almas são carregadas para sempre por um vento que nunca cessa, sem nunca encontrar chão onde pousar. É uma escolha de imagem precisa: o castigo espelha o próprio pecado, porque quem viveu perseguindo o próprio desejo sem freio passa a eternidade sendo arrastado por uma força que também não tem freio.

A cena mais lembrada desse círculo é a de Francesca da Rimini e Paolo Malatesta. Ela foi casada, por aliança política da família, com o irmão mais velho de Paolo, um homem fisicamente deformado. Paolo era jovem e bonito. Os dois se apaixonaram lendo juntos a história de outro amor proibido, e foram surpreendidos e mortos pelo próprio marido de Francesca, que também era irmão de Paolo. Dante, ao encontrá-los no Inferno, desmaia de pena, porque reconhece que a paixão deles nasceu de um contexto cruel, um casamento imposto, e ainda assim os coloca eternamente entre os condenados. A mensagem do poeta não é que sentir desejo seja errado. É que ceder a ele sem limite algum, mesmo por razões compreensíveis, tem um preço que a pessoa só entende depois, quando já não há mais como voltar atrás.

Antes de chegar a Paolo e Francesca, Virgílio aponta a Dante outras almas naquele mesmo vento, e a lista é reveladora de como esse padrão atravessa toda a história registrada: Helena de Troia, cuja beleza começou uma guerra que destruiu uma civilização inteira; Dido, rainha de Cartago, abandonada pelo próprio homem que amara e que se matou de desespero; Cleópatra, cujo nome Dante associa diretamente à luxúria desregrada. Não são personagens escolhidas ao acaso. São, todas, histórias em que o desejo, levado além de qualquer medida, arrastou consigo impérios, reinos e vidas inteiras, muito além da própria pessoa que o sentiu primeiro.

III

A Doença Que Agostinho Chamava de Doce

Confissões, livro oito

Santo Agostinho conhecia esse mecanismo por dentro, não por teoria. Em suas Confissões, escritas por volta do ano 400, ele descreve a própria juventude dominada por aquilo que chama, com uma honestidade rara para um texto religioso, de "doença da carne", uma doença que ele próprio confessa preferir satisfeita a curada. A frase mais citada do livro inteiro resume o problema com precisão cirúrgica: "dai-me castidade e continência, mas não ainda". Agostinho reconhecia intelectualmente que aquele padrão o prendia, sentia-se arrastado por ele como por uma corrente, e mesmo assim temia ser curado cedo demais, porque ainda queria mais um pouco daquilo antes de parar.

Esse é talvez o retrato mais honesto já escrito sobre a luxúria enquanto vício: não a ignorância de que algo faz mal, mas o adiamento consciente da própria cura, o "só mais uma vez" repetido indefinidamente. Agostinho viveu treze anos com uma companheira que nunca desposou, movido, em suas próprias palavras, por "paixões inquietas" que pousaram nela sem razão especial além do próprio apetite. Décadas depois, já bispo, ele ainda relatava tentações residuais, prova de que o padrão deixa marca mesmo depois de reconhecido e combatido.

IV

O Ácido Que Dissolve Vínculos

Dopamina, ocitocina, e o que a repetição desgasta

A ciência moderna explica, em outro vocabulário, o que Agostinho descreveu por experiência. O ato sexual libera, no cérebro, uma combinação de dopamina, ligada ao prazer e à busca por novidade, e ocitocina, ligada ao apego e à confiança. O neurocientista Larry Young, da Universidade Emory, esclarece um mal-entendido comum: a ocitocina sozinha não cria vínculo automático, ela amplifica, no cérebro, a percepção do rosto, do cheiro, da voz da pessoa com quem se está, tornando essa presença mais marcante. É a combinação dos dois sistemas, prazer mais reconhecimento intensificado do outro, que costuma gerar apego, queira a pessoa ou não.

O problema é o que acontece quando esse sistema é acionado repetidamente, com parceiros trocados, sem tempo de metabolizar cada experiência. Um padrão de busca constante por novidade dessensibiliza o circuito de recompensa, exigindo estímulo cada vez maior para produzir o mesmo prazer, o mesmo mecanismo neurológico descrito em quadros clínicos de compulsão. Uma pesquisa da psicóloga Melina Bersamin encontrou que estudantes que relataram sexo casual recente apresentavam autoestima e índices de felicidade mais baixos do que colegas sem esse padrão, que por sua vez relatavam vínculos afetivos mais seguros. A palavra que melhor descreve esse processo é ácido. Não corrói de uma vez. Corrói aos poucos, cada repetição desgastando um pouco mais a capacidade de formar vínculo real, até que formar vínculo real pareça, ele mesmo, estranho demais para tentar.

Esse efeito de tolerância crescente é o mesmo que se observa em qualquer sistema de recompensa levado ao limite: a primeira vez produz uma resposta intensa, e cada repetição seguinte precisa de mais estímulo, mais novidade, mais intensidade para produzir a mesma sensação. O corpo se adapta ao excesso, e o que antes bastava deixa de bastar. É esse mecanismo, mais do que qualquer julgamento moral, que explica por que a luxúria desregrada tende a escalar, e raramente se estabiliza sozinha num ponto confortável.

O corpo foi desenhado para o vínculo, mesmo quando a intenção era só o momento. É por isso que o momento, sozinho, raramente sai barato como parece.

V

Muito Tempo Para a Conexão, Poucos Minutos Para o Ato

A ordem que se inverteu

Nunca foi tão rápido chegar ao ato e nunca foi tão lento chegar à confiança. Aplicativos de encontro comprimem em minutos de deslizar o dedo o que levaria semanas de convivência real para se formar como julgamento sobre outra pessoa, e ainda assim entregam, no mesmo intervalo de tempo, acesso ao ato físico que costumava vir depois, não antes, de qualquer vínculo real ser construído. A ordem se inverteu. O corpo chega primeiro, a confiança, quando chega, chega depois, torta, tentando se encaixar num espaço que não foi preparado para recebê-la.

O resultado, para muita gente, não é liberdade, é um cansaço específico: a sensação de já ter feito o ato dezenas de vezes e ainda não ter feito, nenhuma vez, o trabalho mais lento e mais difícil de deixar alguém te conhecer de verdade. É esse desequilíbrio, entre a velocidade do gesto e a lentidão da intimidade, que transforma a luxúria de prazer pontual em erosão contínua: cada repetição do atalho reforça o hábito de pular a parte difícil, até que a parte difícil pareça, ela mesma, dispensável.

A socióloga Lisa Wade, que passou anos estudando a chamada cultura do encontro casual em campi universitários americanos, descreveu um padrão recorrente em sua pesquisa publicada em 2017: entre os cento e um estudantes que acompanhou de perto, mais de um terço relatou se sentir simultaneamente atraído e incomodado por essa cultura logo na chegada à faculdade, presos entre a vontade de participar e o desconforto de fazê-lo. Muitos admitiram participar não porque a desejassem de verdade, mas porque temiam parecer antiquados ou carentes demais ao admitir que queriam algo mais lento e mais comprometido. O atalho, nesses casos, deixa de ser escolha genuína e vira performance de uma liberdade que, no fundo, poucos sentiam como libertadora. É o oposto exato do que a palavra promete.

VI

Ecos no Cotidiano

Fechamento

Nada neste texto pretende condenar o desejo. Desejo é a coisa mais humana que existe, e fingir o contrário costuma custar caro de outra forma, em repressão que também adoece. O alerta é mais específico: o desejo que perdeu completamente a régua, que trata cada encontro como consumo e cada pessoa como vitrine iluminada, cobra um preço que raramente aparece na hora, mas que se acumula, ano após ano, feito ferrugem em algo que devia ter servido para conectar, não para dissolver.

As consequências de deixar esse fogo queimar sem limite podem, de fato, ser perpétuas: uma capacidade de confiar que não volta fácil, um padrão que se repete até parecer identidade, uma solidão específica de quem já teve contato físico com muita gente e vínculo real com quase ninguém. Dante colocou os luxuriosos num vento sem fim. Talvez o vento não seja metáfora tão distante quanto parece.

A régua que separa desejo saudável de luxúria destrutiva não é a intensidade do sentimento, é o que ele exige de você depois. Desejo que aceita ser recusado, que respeita o tempo do outro, que sobrevive a um não sem se transformar em ressentimento, raramente corrói alguma coisa. O que corrói é o desejo que trata a própria urgência como justificativa suficiente, que confunde querer muito com merecer agora, e que segue empurrando depois que qualquer sinal razoável já pediu para parar. Reconhecer essa régua em si mesmo, antes que outra pessoa precise apontá-la, é talvez o único jeito real de manter o fogo aquecendo a casa, em vez de incendiá-la.

O fogo promete calor
e cumpre, por um instante, o que promete.
Depois, o que resta não é luz.
É a cinza fria de tudo que se queimou
tentando iluminar sozinho
um quarto feito para dois.

Dedicatória

Este texto é dedicado a todo aquele que confundiu, um dia, a intensidade do fogo com a solidez de uma casa.

Ainda aprendendo a compreender o risco das chamas, Santos Moisés.

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I · Uma Rua Que Todo Turista Encontra
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