Ensaio · Mortalidade · Escrito XC

XC

A Casa em Ordem

Sobre o último dia, e o que ele revela sobre todos os outros

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I

Abertura, e Sêneca sobre a brevidade da vida

II–III

Zhuangzi e a transformação · Mbiti e a memória que expira

IV–V

Manuel Bandeira e a casa em ordem · O que fica

Ninguém recebe aviso prévio. Não existe carta anunciando que o dia de hoje vai ser o último, nenhum calendário marca a data com antecedência para que você possa se preparar, dizer o que precisa ser dito, terminar o que precisa ser terminado. A morte chega sem hora marcada, e é exatamente por isso que ela transforma cada dia comum, silenciosamente, num candidato possível. Você pode estar lendo este texto num dia absolutamente qualquer, e ainda assim ele pode ser, sem que ninguém saiba disso ainda, o seu último dia.

Essa incerteza, que poderia paralisar, é também o convite mais honesto que existe para perguntar o que estamos construindo enquanto o tempo passa, quem estamos transformando com a forma como vivemos, e que parte de nós vai continuar existindo no mundo depois que a gente não estiver mais nele. Quatro tradições, em quatro continentes diferentes, chegaram a respostas complementares para essas perguntas, e vale a pena atravessá-las devagar.

I

Sêneca e o Tempo Que Se Desperdiça

Ocidente · De Brevitate Vitae, ano 49

Por volta do ano 49, o filósofo romano Sêneca escreveu uma carta ao sogro, Paulino, que se tornaria um dos textos mais lidos da filosofia estoica: Sobre a Brevidade da Vida. A tese central é quase provocadora: a maioria das pessoas reclama que a vida é curta demais, e Sêneca discorda. A vida não é curta, ele escreve, nós é que a fazemos curta, desperdiçando a maior parte dela em ambição, distração e adiamento. Quem vive de olho fixo num futuro distante, prometendo a si mesmo que vai começar a viver de verdade assim que alguma condição se cumprir, geralmente descobre, tarde demais, que a vida inteira passou nesse estado de espera.

Sêneca argumenta que só está realmente vivo quem trata o tempo com a mesma avareza que trata o próprio dinheiro, talvez mais, porque dinheiro perdido pode ser recuperado, e tempo perdido jamais volta. A maioria das pessoas, escreve ele, só percebe isso no fim, quando a morte já está próxima demais para qualquer correção. Aí está a primeira peça do quebra-cabeça: o que estamos construindo só tem chance de virar algo sólido se parar de ser adiado para um "depois" que nunca chega sozinho.

Há um detalhe na carta que costuma passar despercebido: Sêneca não está pedindo pressa nem ansiedade. Ele defende exatamente o oposto, que viver com atenção plena ao presente é mais lento, não mais rápido, do que a correria de quem vive perseguindo objetivos futuros sem nunca habitar o momento em que os persegue. Ocupação constante, escreve ele, é a forma mais eficiente de perder a própria vida sem perceber, porque cada dia ocupado parece produtivo, e a soma de muitos dias assim, olhada de longe, revela-se um tempo inteiro gasto em coisas que não importavam de verdade.

Não é que a vida seja curta. É que gastamos a maior parte dela nos preparando para viver, em vez de vivendo.

II

Zhuangzi e o Tambor

Oriente · A morte como transformação

No século quatro antes de Cristo, o filósofo chinês Zhuangzi perdeu a esposa, com quem viveu por décadas e criou filhos. Seu amigo Huizi foi prestar condolências e o encontrou sentado no chão, batendo numa bacia como tambor e cantando. Escandalizado, Huizi perguntou como ele podia se comportar assim depois de tantos anos ao lado dela. Zhuangzi respondeu que, quando ela morreu, ele chorou como qualquer pessoa chora. Mas depois parou para olhar mais fundo, até antes do nascimento dela, antes mesmo de ela ter corpo, antes de ter qualquer forma de existência. Nesse ponto de origem, disse ele, havia só um estado indefinido de possibilidade, que se transformou em energia, depois em corpo, depois em vida. A morte, concluiu, era só mais uma transformação nessa sequência, tão natural quanto a passagem do verão para o outono.

O que torna essa história poderosa não é a ausência de dor, Zhuangzi deixa claro que sentiu luto como qualquer um sentiria. É o que ele fez com essa dor depois: em vez de brigar com a transformação, ele escolheu reconhecê-la como parte do mesmo processo que trouxe a esposa à existência em primeiro lugar. Chorar para sempre diante de algo tão natural quanto as estações, argumentava, seria não compreender o próprio funcionamento da vida. Não é resignação fria. É uma paz conquistada depois do luto, não no lugar dele.

Vale notar a ordem dos acontecimentos nessa história, porque ela costuma ser esquecida por quem conta a passagem de forma resumida: Zhuangzi primeiro chorou, depois pensou, e só então parou de chorar. A serenidade não substituiu o luto, ela nasceu do outro lado dele, depois que o processo de sentir a perda inteira foi cumprido até o fim. É uma diferença que muda tudo: a filosofia de Zhuangzi não pede que ninguém pule a dor. Pede que, depois de atravessá-la, a pessoa não fique presa nela para sempre, recusando-se a reconhecer que a mudança que a machucou é a mesma mudança que trouxe qualquer coisa boa que ela já viveu.

O medo do fim costuma vir de tratar a morte como interrupção. Zhuangzi a trata como continuação, só que numa forma que ainda não conseguimos ver.

III

Mbiti e a Memória Que Expira

África · Sasha e Zamani

O teólogo e filósofo queniano John Mbiti, em seu livro Religiões e Filosofia Africanas, de 1969, descreveu um conceito, presente em várias línguas bantas, que talvez seja a resposta mais precisa já formulada para a pergunta sobre quem estamos transformando enquanto vivemos. Mbiti distingue dois estados depois da morte. O primeiro chama-se Sasha: é quando a pessoa que morreu ainda é lembrada pessoalmente, por nome, por quem conviveu com ela, por quem consegue evocar sua voz, seu jeito de rir, seus hábitos específicos. Nessa fase, o morto é chamado de "morto-vivo", presente na memória de quem o conheceu de verdade.

O segundo estado chama-se Zamani. Ele começa no exato momento em que a última pessoa que conheceu aquele indivíduo pessoalmente também morre. A partir daí, o nome pode até sobreviver em registros, fotografias, histórias contadas de segunda mão, mas a pessoa deixa de ser lembrada como indivíduo específico e passa a existir como ancestral genérico, parte de uma massa coletiva de antepassados sem rosto individual. A transição de Sasha para Zamani é, nessa visão, uma segunda morte, mais silenciosa que a primeira, e definitiva de um jeito que a primeira não é.

Essa ideia muda completamente a pergunta sobre legado. Não se trata de ser lembrado por muitas pessoas ao mesmo tempo, se trata de quão profundamente você marcou quem conviveu com você, porque é essa marca profunda que estica o tempo entre a sua morte e a sua segunda morte, a que apaga o rosto. Quem você transformou, de verdade, enquanto teve tempo, é quem vai carregar seu Sasha por mais tempo depois que você se for.

Há também, na cosmovisão que Mbiti descreve, uma reciprocidade que a tradição ocidental costuma ignorar: os mortos-vivos não são só lembrados, eles continuam, em certo sentido, participando da vida de quem os lembra, influenciando decisões, sendo consultados em momentos difíceis, mantendo uma espécie de presença ativa que só se dissolve de fato quando a última pessoa capaz de sentir essa presença também parte. É uma forma de imortalidade modesta e concreta, que não depende de crença em nenhum plano metafísico distante, depende só de ter tocado gente de verdade enquanto esteve viva.

Todo mundo morre duas vezes. A primeira, quando o corpo para. A segunda, quando a última pessoa que te conheceu de verdade também parte.

IV

Manuel Bandeira e a Casa em Ordem

Brasil · Consoada, 1952

Manuel Bandeira viveu boa parte da vida sob o diagnóstico de uma doença que, na época, costumava ser sentença de morte precoce, e talvez por isso a mortalidade tenha se tornado um dos temas mais recorrentes de sua obra. Em Consoada, poema publicado no livro Opus 10, de 1952, ele imagina o momento em que a morte, chamada de "a Indesejada das gentes", finalmente chega até ele. O eu lírico admite não saber se sentirá medo ou se conseguirá recebê-la com serenidade, mas descreve, com detalhe quase doméstico, o estado em que espera que ela o encontre: o campo já lavrado, a casa limpa, a mesa posta, cada coisa devidamente em seu lugar.

A força dessa imagem está exatamente na sua modéstia. Bandeira não fala em obras grandiosas, monumentos ou feitos que atravessem séculos. Fala do trabalho comum do dia, terminado, arrumado, pronto para ser encontrado em ordem por quem quer que chegue. É a versão poética exata da cobrança de Sêneca: não adianta prometer viver de verdade amanhã, porque a visita pode chegar antes de amanhã existir. A única preparação possível é deixar, todos os dias, a casa em condições de receber a visita, mesmo sem saber se ela vai bater à porta hoje.

O que impressiona em Consoada é a ausência de grandiloquência num tema que, em tantos outros poetas, vira palco para desespero ou súplica. Bandeira, que conviveu com a proximidade da própria morte por décadas antes de finalmente morrer, em 1968, parece ter chegado, através da doença longa, a algo parecido com a serenidade que Zhuangzi descreve depois do luto. Não é ausência de medo, o próprio poema admite a possibilidade do medo. É a decisão de que, medo ou não, o trabalho de viver bem continua sendo feito até o fim, porque é esse trabalho, não o resultado dele, que compõe a vida inteira.

V

O Que Fica

Fechamento

As quatro tradições, vindas de continentes e séculos diferentes, convergem sem terem combinado nada entre si. Sêneca cobra que o tempo seja usado agora, não guardado para um futuro hipotético. Zhuangzi tira do fim o peso de interrupção trágica, tratando-o como continuação natural de um processo que começou muito antes do nascimento. Mbiti mede o verdadeiro alcance de uma vida pela profundidade da marca deixada em quem conviveu com ela, não pela extensão da fama. Bandeira reduz tudo isso a um gesto doméstico e possível todos os dias: deixar a casa em ordem, o trabalho feito, antes que a visita chegue sem avisar.

Nenhuma dessas quatro vozes promete vencer a morte. Nenhuma delas finge que o medo desaparece só porque foi bem argumentado num texto antigo. O que elas oferecem, juntas, é outra coisa: um jeito de perguntar, todo dia comum, se o que está sendo construído hoje é o tipo de coisa que resistiria a ser encontrado pronto, se a visita decidisse chegar justamente hoje. Quem você está transformando com a forma como trata as pessoas ao seu redor. Que parte sua vai continuar existindo, na memória de quem te conheceu, depois que você não estiver mais aqui para explicar por si mesmo o que quis dizer com a própria vida.

Talvez a utilidade real de pensar no último dia não esteja em produzir medo nem em produzir conforto fácil, mas em produzir clareza sobre o que realmente importa entre hoje e o dia, seja ele qual for, em que a visita finalmente chegar. Sêneca pediria que esse tempo fosse gasto de propósito, não desperdiçado em espera. Zhuangzi pediria que o medo do fim não impedisse ninguém de viver o presente como ele realmente é, transformação contínua, não posse permanente. Mbiti pediria atenção a quem está por perto agora, porque são essas pessoas que vão carregar sua lembrança quando você já não puder carregá-la sozinho. E Bandeira, com a economia de quem já fez as pazes com o assunto, pediria só uma coisa simples e possível: que a casa esteja em ordem, hoje, por precaução.

Não sei que dia é hoje, no calendário que ela guarda.
Por via das dúvidas,
deixo o campo lavrado,
a casa limpa,
a mesa posta,
e alguém, por perto,
que ainda vai lembrar meu nome
depois que eu for embora.

Dedicatória

Este texto é dedicado a todo aquele que, sem saber qual dia é o último, ainda assim deixa a casa em ordem todos os dias.

Ainda arrumando a casa, por precaução, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · Sêneca e o Tempo Que Se Desperdiça
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