Diário · África do Sul · Escrito CXVII

CXVII

O Mapa Que Cresceu Depois da Viagem

Sobre dez dias na África do Sul, e as fronteiras internas que uma viagem consegue expandir

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Aba I

Abertura, o rugido da multidão, e a savana que lembra

Aba II

A terra que vira taça, e o sublime na água

Aba III

A cidade que não cabia no mapa, as línguas que abriram portas, e o fechamento em dedicatória

Dez dias não parecem tempo suficiente para mudar coisa nenhuma, e ainda assim voltamos diferentes. Não porque o corpo tenha percorrido uma distância grande, embora tenha percorrido, mas porque alguma coisa mais interna, mais difícil de medir em quilômetros, se moveu junto. Rugby lotando um mercado de rua na Cidade do Cabo. Três dias de savana cercados por centenas de animais, de pouco mais de uma dezena de espécies diferentes. Uvas cultivadas há séculos nas encostas de Stellenbosch. Baleias emergindo a poucos metros da costa em Hermanus. Uma orla inteira reconstruída à beira do Atlântico. Línguas que nunca tínhamos ouvido de perto, faladas por gente que nos recebeu com uma generosidade que a pobreza material do continente não consegue apagar.

Existe um conceito da psicologia do desenvolvimento, cunhado pelo suíço Jean Piaget, que ajuda a nomear o que aconteceu nesses dez dias. Piaget descreveu dois movimentos que a mente faz diante de qualquer experiência nova: a assimilação, quando encaixamos o que vemos dentro das categorias que já possuíamos, e a acomodação, quando a experiência é grande ou estranha demais para caber nas categorias antigas, e a própria estrutura mental precisa se expandir para dar conta dela. A maior parte do turismo é assimilação pura. Uma viagem de verdade exige acomodação.

Este ensaio percorre seis fronteiras internas que essa viagem específica conseguiu expandir: a fronteira entre o eu individual e a multidão, revivida ao som de uma torcida inteira gritando junto; a fronteira entre o humano e o restante do reino animal, reativada por três dias de savana; a fronteira entre produto e origem, aprendida taça a taça nas vinícolas; a fronteira da própria capacidade de compreender, testada pela imensidão de uma baleia emergindo do mar; a fronteira entre expectativa e realidade, redesenhada pela cidade inteira; e a fronteira do próprio mundo, ampliada por cada palavra nova aprendida numa língua que não era a nossa.

Seis fronteiras internas, seis lugares diferentes, uma única mente que precisou crescer para caber tudo isso dentro.

I

O Rugido da Multidão

Sobre o Mojo Market, o rugby e a efervescência coletiva

No Mojo Market, em Sea Point, quando os Springboks venceram os All Blacks, um mercado inteiro parou de ser um conjunto de mesas e cadeiras individuais e virou, por alguns minutos, um único organismo emocional. Estranhos se abraçaram sem se conhecer. Uma criança subiu numa cadeira e dançou sem pedir licença a ninguém, cena que já ocupou um escrito inteiro nesta coleção, mas o fenômeno maior, que envolveu centenas de pessoas ao mesmo tempo, ainda merecia nome próprio.

O sociólogo francês Émile Durkheim, no início do século vinte, descreveu esse fenômeno como efervescência coletiva: o estado psicológico intenso que emerge quando um grupo grande se reúne em torno de um mesmo foco de atenção emocional, dissolvendo temporariamente a fronteira habitual entre a identidade individual e a identidade do grupo. Segundo Durkheim, é exatamente nesse estado de efervescência que sociedades inteiras costumam gerar os seus símbolos mais duradouros, das religiões aos rituais cívicos.

Estar dentro daquela multidão, sem entender todas as regras do rugby, sem torcer historicamente por nenhum dos dois times, e ainda assim sentir o peito se apertar no mesmo instante que o mercado inteiro gritava, foi uma pequena demonstração de como a fronteira entre o eu e o outro é mais porosa do que a vida cotidiana costuma deixar perceber.

O mais notável, olhando em retrospecto, é o contraste entre aquele minuto de efervescência total e a rotina educada e contida que caracteriza a maior parte do convívio social moderno. Vivemos organizados, em geral, para minimizar o contato emocional bruto com estranhos. A torcida coletiva é uma das poucas situações em que a sociedade contemporânea ainda permite, e até incentiva, que a fronteira caia por completo, mesmo que só por alguns minutos.

II

A Savana Que Lembra

Sobre o Kruger National Park e a biofilia que a vida moderna esqueceu

Três dias no Kruger National Park bastaram para reorganizar a relação entre nós e o que chamamos, de forma genérica demais, de natureza. Centenas de animais cruzaram o caminho dos veículos de safári ao longo dos três dias, reunidos em pouco mais de uma dezena de espécies diferentes: elefantes atravessando a estrada de terra sem pressa nenhuma, leões deitados à sombra de uma árvore solitária, girafas se movendo com uma elegância que parece desafiar as próprias proporções do corpo, um único rinoceronte branco, sem chifres, emergindo dos arbustos ao entardecer, e uma variedade de antílopes que nenhum guia conseguia nomear rápido o suficiente antes que o próximo aparecesse no horizonte.

O biólogo americano Edward O. Wilson, num livro de 1984, propôs a hipótese da biofilia: a ideia de que os seres humanos carregam, geneticamente, uma afinidade inata por outras formas de vida, um resquício evolutivo dos milhões de anos em que a sobrevivência da espécie dependia de prestar atenção constante aos animais ao redor, fossem eles presa, predador ou sinal de água próxima. Segundo Wilson, a vida urbana moderna não elimina essa afinidade. Apenas a mantém adormecida, sem estímulo suficiente para se manifestar no dia a dia.

Três dias observando animais selvagens em liberdade, sem cercas visíveis, sem roteiro cronometrado, reativaram algo que a vida de escritório e cidade grande havia deixado hibernando havia anos. Não era apenas entretenimento visual. Era uma espécie de reencontro com um tipo de atenção que a espécie humana treinou por muito mais tempo do que treinou qualquer habilidade digital das últimas décadas.

A fronteira que o Kruger expandiu foi, talvez, a mais antiga de todas: a que separa o humano do restante do reino animal, uma linha que a civilização urbana desenha cada vez mais grossa, e que três dias de savana, cara a cara com centenas de animais, ajudaram a tornar, de novo, um pouco mais porosa.

O corpo humano ainda reconhece, mesmo depois de gerações vivendo em cidade grande, o tipo de atenção que a savana exige.

III

A Terra que Vira Taça

Sobre Stellenbosch e o vinho como fronteira entre produto e origem

Em Stellenbosch, a segunda cidade mais antiga fundada pelos europeus no país, aprendemos que uma taça de vinho carrega, dentro de si, muito mais do que fruta fermentada. Carrega o tipo específico de solo onde a uva cresceu, o vento que secou as folhas na hora certa, a decisão do enólogo sobre quanto tempo deixar a casca em contato com o mosto. Esse aprendizado, já registrado com mais profundidade em outro escrito desta coleção, expandiu uma fronteira específica: a que separa, na cabeça de quem nunca prestou atenção nisso antes, o produto genérico da paisagem exata que o produziu.

Depois de Stellenbosch, é difícil olhar para qualquer garrafa de vinho num supermercado sem se perguntar, mesmo que rapidamente, que encosta, que clima, que decisão humana está escondida ali dentro. A fronteira entre consumir algo e compreender a sua origem, uma vez expandida, raramente volta ao tamanho anterior.

IV

O Sublime na Água

Sobre os pinguins e as baleias de Hermanus, e o conceito kantiano de sublime

Em Hermanus, considerada uma das melhores localidades do mundo para observar baleias diretamente da costa, sem precisar de embarcação, vimos baleias-francas-austrais emergirem a poucos metros da terra firme, o corpo inteiro maior do que qualquer carro, maior do que a maioria das casas, movendo-se com uma lentidão que parecia desafiar o próprio peso. No caminho, em Betty's Bay, uma colônia de pinguins-africanos caminhava pela areia com uma desajeitada dignidade que contrastava, de um jeito quase cômico, com a imensidão das baleias vistas horas antes.

O filósofo alemão Immanuel Kant, na Crítica da Faculdade do Juízo, de 1790, descreveu uma categoria estética que ele chamou de sublime: a experiência de se deparar com algo tão vasto ou tão poderoso que a imaginação humana falha, momentaneamente, em processá-lo por completo. Diferente do belo, que agrada de forma equilibrada e compreensível, o sublime perturba antes de encantar, porque ultrapassa a capacidade imediata de compreensão.

Segundo Kant, é exatamente nesse momento de falha da imaginação que a razão humana se afirma, capaz de conceber conceitualmente aquilo que os sentidos, sozinhos, não davam conta de abarcar. Ver uma baleia de trinta toneladas emergir silenciosamente a poucos metros da costa é sentir, na pele, essa mesma falha e essa mesma afirmação: por um instante, o cérebro simplesmente não sabe onde guardar aquela informação, e depois, aos poucos, encontra um espaço novo, maior do que o espaço que existia antes.

Existe um tipo de espanto que a mente processa em câmera lenta, porque não tem, à mão, nenhuma categoria pronta para guardá-lo.

V

A Cidade Que Não Cabia no Mapa

Sobre o Waterfront e a fronteira entre expectativa e realidade

O V&A Waterfront, a orla portuária reformada no coração de Cape Town, surpreende por reunir, num único trecho de poucos quilômetros, um porto ativo, restaurantes de qualidade internacional, lojas, música ao vivo, e a vista constante da própria Table Mountain vigiando tudo de cima, silenciosa. Nenhuma fotografia vista antes da viagem preparou completamente para a experiência de caminhar por ali ao entardecer, com o cheiro do mar se misturando ao som de idiomas diferentes vindos de todas as direções.

Toda viagem carrega uma expectativa prévia, construída por fotos, vídeos e relatos de terceiros. E toda viagem de verdade, mais cedo ou mais tarde, revela a distância entre essa expectativa e a experiência real, geralmente porque a realidade é mais complexa, mais cheia de detalhes sensoriais, do que qualquer imagem plana conseguiria transmitir. Cape Town, e o Waterfront em particular, expandiu essa fronteira específica: a que separa o que se imagina de um lugar do que esse lugar realmente é, quando se está, finalmente, dentro dele.

VI

As Línguas Que Abriram Portas

Sobre Wittgenstein e os limites do mundo que a linguagem desenha

Ao longo dos dez dias, ouvimos e tentamos praticar palavras em xhosa, em setswana, em xitsonga, além do inglês e do afrikaans que dominam a vida pública. Cada uma dessas línguas carregava consigo um povo inteiro, uma história de migração, resistência ou origem que nenhuma tradução automática seria capaz de transmitir sozinha, um aprendizado que já ganhou um escrito próprio nesta coleção.

O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein escreveu, no Tractatus Logico-Philosophicus, de 1921, que os limites da própria linguagem definem os limites do próprio mundo de quem a fala. A frase costuma ser lida como uma limitação, mas também pode ser lida como um convite: se a linguagem delimita o mundo, aprender uma língua nova, mesmo que apenas em fragmentos, é literalmente expandir o território daquilo que se pode nomear, sentir e compreender.

Cada palavra nova aprendida ao longo da viagem, por mais simples que fosse, empurrou um pouco mais para fora a fronteira do próprio mundo. Não porque a palavra em si resolvesse algum problema prático. Mas porque, a partir do momento em que ela existe dentro do próprio vocabulário, o mundo passa a conter uma nuance que não continha antes.

Essa expansão não aconteceu só na língua. Aconteceu também no rosto de quem cruzou o nosso caminho: motoristas negros nascidos no Zimbábue buscando trabalho numa economia mais forte do que a do próprio país, guias descendentes de khoikhoi e san contando a história de um povo que a maioria dos livros escolares mal menciona, empresários afrikaans cuja família chegou há séculos, imigrantes indianos com raízes que remontam ao trabalho contratado no século dezenove. Dez dias não são suficientes para compreender inteiramente uma sociedade formada por tantas camadas de migração, colonização e resistência sobrepostas. Mas foram suficientes para que a palavra diversidade parasse de ser um conceito abstrato de discurso institucional e passasse a ter nomes, rostos e sotaques específicos, lembrados um por um.

VII

O Portal Que Não Se Fecha

Fechamento

Dez dias terminaram, o avião pousou de volta em casa, a rotina retomou o controle dos dias. Mas o mapa interno que orientava a vida antes da viagem não voltou ao tamanho original. A multidão do Mojo Market expandiu a fronteira entre o eu e o outro. A savana do Kruger expandiu a fronteira entre o humano e o restante do reino animal. Stellenbosch expandiu a fronteira entre produto e origem. Hermanus expandiu a fronteira da própria capacidade de compreender o vasto. O Waterfront expandiu a fronteira entre expectativa e realidade. E cada palavra nova aprendida expandiu, silenciosamente, a fronteira do próprio mundo.

Nenhuma dessas fronteiras vai se contrair de volta ao tamanho anterior só porque a viagem terminou. É essa, talvez, a definição mais honesta do que significa um portal: não uma porta que se abre e se fecha num único movimento, mas uma passagem que, uma vez atravessada, deixa quem passou permanentemente maior do lado de dentro, mesmo depois de voltar para o lugar de onde saiu.

Dez dias na África do Sul não foram um episódio fechado, guardado em fotos e lembranças isoladas. Foram um portal, exatamente como a intuição inicial já suspeitava antes mesmo da viagem terminar. E um portal, por definição, continua aberto para quem já aprendeu a atravessar um.

O mapa que eu carregava antes não cabe mais dentro de mim.
Cresceu com o rugido de uma multidão gritando junto,
com o silêncio atento de três dias observando a savana,
com o gosto de uma terra que virou taça,
com o peso silencioso de uma baleia emergindo do mar,
com uma cidade que a foto nunca conseguiu conter inteira,
com palavras novas que agora moram no meu vocabulário.
Dez dias não mudam o calendário de ninguém.
Mas mudam o tamanho do mundo que cabe dentro de uma pessoa.
Um portal não fecha depois que se atravessa.
Continua aberto, esperando a próxima vez que alguém tiver coragem de entrar.

Dedicatória

Este texto é dedicado a cada fronteira interna que só cresce depois que alguém tem a coragem de atravessá-la.

Ainda com o mapa maior do que antes, Santos Moisés.

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I · O Rugido da Multidão
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