Ode · Gratidão · Escrito CXVIII

CXVIII

Enkosi

Ode de gratidão pelos dez dias que dois amigos transformaram num portal para a África do Sul

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Aba I

Abertura, Cape Town e o primeiro obrigado, e a cidade em cores

Aba II

Elvis, Tsatso e a savana inteira, e a estrada do lado direito e as vinícolas

Aba III

Os pinguins, as baleias, o Waterfront, e o fechamento em dedicatória

Tudo começa com um convite para um lugar inusitado. Minha esposa, no primeiro instante, hesitou, o medo de encarar animais selvagens de perto pesando mais do que qualquer promessa de paisagem bonita. Mas o roteiro chegou cercado de experiências que nenhuma hesitação resistiria por muito tempo, e fomos.

Este texto não é sobre a África do Sul propriamente. Já existem, nesta coleção, escritos suficientes sobre a desigualdade que a paisagem denuncia, sobre a montanha que testemunha tudo sem opinar, sobre o rinoceronte sem chifres, sobre o vinho que carrega terra dentro da taça. Este texto é sobre as duas pessoas que tornaram tudo isso possível, que não apenas planejaram cada etapa da viagem com um cuidado quase artesanal, mas a habitaram ao nosso lado, transformando cada dia num presente entregue com as próprias mãos.

Dez dias, sete lugares, uma centena de pequenas decisões tomadas por amigos que sabiam exatamente o que estavam oferecendo. Este é o relato, capítulo por capítulo, do que esse presente continha.

Existem presentes que não cabem em nenhuma mala, porque o presente real é a própria viagem sendo desenhada, com cuidado, por outra pessoa.

I

Cape Town e o Primeiro Obrigado

Sobre a chegada, a vista do hotel, e a primeira palavra em xhosa

Tudo começou em Cape Town, num hotel com uma vista que parecia exagero de cartão postal: o litoral oeste se estendendo até onde os olhos alcançavam, o perfil inconfundível do Lion's Head recortado contra o céu, e a imponência silenciosa da Table Mountain, a Hoerikwaggo que os khoikhoi batizaram de montanha no mar muito antes de qualquer hotel existir ali. Foi ali, na primeira manhã, que aprendemos a primeira palavra em xhosa: enkosi kakhulu, muito obrigado, uma frase cuja raiz, descobrimos depois, significa literalmente tratar alguém como chefe.

Um dos dois amigos que organizou cada detalhe daquela viagem sempre fez questão de aprender uma língua local antes de qualquer viagem, um hábito que ele nos ensinou, quase sem perceber, só de fazer diante de nós. Não era estratégia de guia turístico nem curiosidade passageira. Era uma forma de recusar a distância confortável entre visitante e visitado, um pequeno gesto que, como este mesmo tema já mereceu um escrito inteiro nesta coleção, carrega mais peso político e afetivo do que qualquer turista apressado costuma perceber.

Na primeira noite, fomos ao Mojo Market assistir a um dos grandes jogos entre Springboks e All Blacks, cercados por todas as torcidas que aquele lugar reúne. A energia da vitória sul-africana, misturada a uma recepção quase emocionada da cidade inteira, já rendeu, também, um escrito próprio nesta coleção, sobre a alegria de uma criança dançando numa cadeira sem pedir licença a ninguém. Naquela noite, entendemos que a viagem inteira seria assim: grande demais para caber numa única lembrança.

II

A Cidade em Cores

Sobre a orla leste, o Green Market e a arte local

No dia seguinte, conhecemos toda a orla leste da cidade e os mercados que pontuam o caminho, entre eles o Green Market Square, uma das praças públicas mais antigas do país, hoje tomada por barracas de arte, tecidos e artesanato de origens tão diversas quanto os próprios povos que compõem a África do Sul contemporânea.

Caminhar por ali, sem pressa, foi um lembrete físico de que essa nação carrega dentro de si um mosaico de raças e línguas que nenhuma estatística consegue resumir. Cada barraca contava, à sua maneira, um pedaço diferente dessa história: tecidos de tradição khoisan, esculturas de madeira de origem zimbabuana, quadros pintados por artistas locais que vendiam a própria obra debaixo do mesmo sol que via os seus ancestrais séculos antes.

Um deles negociava em xhosa com uma naturalidade que parecia ter décadas de prática, e cada vendedor respondia com um sorriso um pouco maior do que o sorriso comercial padrão, o mesmo sorriso, descobrimos depois em outras paradas da viagem, que qualquer pequeno gesto de reconhecimento costuma provocar.

III

Elvis, Tsatso e a Savana Inteira

Sobre a reserva Ndzhaka, o guia Elvis, e centenas de animais

No dia seguinte, voamos para a reserva Ndzhaka, nas imediações do Kruger National Park. Durante três dias, vivemos cercados de conforto numa cabana acolhedora, com uma interação profunda e constante com a savana africana. Nosso guia, Elvis, apresentou as espécies com um conhecimento que ultrapassava qualquer roteiro decorado: sabia ler pegadas, prever movimentos, e contar, sobre cada animal avistado, uma pequena história que nenhum livro de safári traria.

Foram centenas de animais, reunidos em pouco mais de uma dezena de espécies: os elegantes nialas, os kudus de chifres em espiral, impalas em bandos que pareciam não ter fim, babuínos observando de longe com uma curiosidade quase humana, girafas se movendo com aquela lentidão que desafia a própria altura, zebras, leões deitados à sombra, hipopótamos submersos até os olhos, muitos elefantes atravessando a estrada sem pressa nenhuma, pássaros de cores impossíveis, o incrível rinoceronte, já lembrado num escrito próprio desta coleção, e um camaleão lindo, quase invisível, que Elvis encontrou onde nenhum de nós teria olhado sozinho.

Conhecemos também o nosso motorista de transfer, Tsatso, que nos ensinou mais uma palavra, ke a leboga, obrigado em setswana, e nos apresentou as marulas, árvores típicas da savana cujo fruto, quando cai maduro e fermenta naturalmente no chão, alimenta uma lenda local sobre elefantes bêbados que a ciência trata com ceticismo, mas que ninguém ali parecia disposto a desmentir com muita convicção.

Durante esses dias, conhecemos também um casal das Ilhas Reunião, um lugar que, até então, nenhum de nós sabia localizar num mapa, e que se tornou, depois daquela conversa ao redor da fogueira, uma referência bem mais próxima do que qualquer atlas jamais tinha oferecido. Voltamos surpresos, não apenas com tanta beleza selvagem, mas com a dedicação e o carinho de cada pessoa que nos recebeu, todas exercendo, à sua maneira, o mesmo espírito de acolhida que já ganhou nome nesta coleção: ubuntu, a ideia de que uma pessoa só é pessoa através de outras pessoas.

Um casal desconhecido, encontrado ao acaso ao redor de uma fogueira, pode deixar um lugar inteiro do mapa mais perto do que qualquer guia turístico.

IV

A Estrada do Lado Direito e as Vinícolas

Sobre alugar um carro, dirigir do lado errado, e chegar a Stellenbosch

Nossa próxima experiência foi desembarcar de volta no aeroporto de Cape Town, alugar um carro, e dirigir desajeitados pela mão inglesa, o volante posicionado do lado direito do carro, até chegar a Stellenbosch, a incrível cidade das vinícolas sul-africanas que também já mereceu um tratado inteiro nesta coleção.

Conhecemos vinícolas de trenzinho, cercados de vinho e da culinária local, e visitamos uma fazenda de morangos que contrastava, de um jeito quase engraçado, com a seriedade histórica das propriedades vinícolas vizinhas, algumas fundadas há mais de três séculos. Depois, seguimos para a linda Hermanus por uma das estradas mais bonitas do mundo, a costa se abrindo à esquerda em curvas que pareciam desenhadas de propósito para arrancar suspiros de quem passava.

V

Os Pinguins Que o Mundo Salvou

Sobre a reserva de pinguins e o resgate que se tornou história

Nossa primeira parada em Hermanus foi numa reserva de pinguins. Mesmo com muito frio, o lugar mostrou, além da elegância cambaleante desses animais, uma história de força coletiva que merece ser contada. Em junho de 2000, o navio MV Treasure afundou entre as ilhas Dassen e Robben, exatamente onde vivem as maiores colônias de pinguins-africanos do mundo, derramando mais de mil toneladas de óleo no oceano.

Cerca de vinte mil pinguins ficaram encharcados de óleo. Uma organização local, a SANCCOB, mobilizou quase quarenta e cinco mil voluntários vindos de todas as partes do mundo, num esforço de doze semanas que se tornou, até hoje, a maior operação de resgate de vida selvagem já registrada. Mais de dezoito mil pinguins foram limpos, tratados e devolvidos ao mar, uma taxa de sucesso de noventa por cento que poucos desastres ambientais da história conseguiram igualar.

Ver aqueles pinguins caminhando desajeitados pela areia gelada, sabendo dessa história, transformou a visita em algo maior do que passeio turístico. Era testemunho vivo de que, diante de uma tragédia, milhares de estranhos sem relação nenhuma entre si podem se organizar, com as próprias mãos, para reverter o que parecia perdido.

VI

A Parede de Vidro e as Baleias

Sobre o hotel alemão e as baleias vistas a poucos metros

Dormimos num hotel sofisticado de proprietários alemães, com uma arquitetura e uma culinária incríveis, onde uma das paredes do quarto voltada para o mar era inteiramente de vidro, projetada especificamente para a observação de baleias direto da cama.

No dia seguinte, fomos a Hermanus observar as baleias de verdade, e vimos baleias-francas-austrais emergindo a poucos metros da costa, o corpo inteiro maior do que qualquer carro que já dirigimos naquela viagem. Foi a experiência que, nesta coleção, ganhou o nome de sublime, na acepção que o filósofo Kant deu à palavra: algo tão vasto que a imaginação falha em processá-lo de imediato, e a mente precisa se expandir, ali mesmo, para dar conta do que os olhos acabaram de registrar.

VII

Waterfront e a Montanha Que Vigia

Sobre o retorno a Cape Town e o fechamento no topo do mundo

Voltamos para Cape Town, agora hospedados no Waterfront, a poucos metros de um dos cenários mais agitados e cheios de vida da cidade, cercados de marina, lojistas, museus, artistas locais e toda a energia acolhedora que aquele trecho da orla concentra.

Encerramos os nossos dias na Table Mountain, essa majestosa parede de granito que vigia a cidade inteira sem nunca opinar sobre o que vê, testemunha silenciosa de tudo que a região já atravessou, e que nos mostrou, na última tarde, paisagens espetaculares que resumiam, num só olhar, tudo o que os dez dias anteriores tinham nos ensinado.

VIII

Enkosi, Dudu e Dani

Fechamento

A África do Sul nos acolheu e nos mostrou, com uma clareza que só a distância de casa consegue proporcionar, o quanto somos pequenos diante daquilo que ainda não conhecemos, não vivemos, não experimentamos. Saímos de lá transformados e muito maiores, exatamente como esse mesmo sentimento já foi descrito nesta coleção como um mapa interno que cresce e nunca mais volta ao tamanho anterior.

Mas nada disso teria acontecido sem duas pessoas específicas. Dudu e Dani não apenas organizaram um roteiro perfeito. Ofereceram, com um cuidado que raramente se encontra fora do círculo mais próximo de uma família, a experiência de sermos recebidos, guiados e cuidados como se a viagem fosse deles para dar, e não apenas nossa para receber.

Enkosi kakhulu. Ke a leboga. Inkomu. Nas três línguas que aprendemos ao longo desses dez dias, obrigado, Dudu e Dani, por nos proporcionar uma viagem incrível, cercada de carinho do início ao fim.

Um convite chegou, e a hesitação recuou diante dele.
Dez dias depois, voltamos maiores do que saímos.
Uma montanha nos vigiou em silêncio.
Um rinoceronte sem chifre nos ensinou sobre proteção.
Baleias emergiram para lembrar do nosso próprio tamanho.
Pinguins caminharam sobre a história de quem os salvou.
Mas o presente mais bonito não foi a paisagem.
Foi a generosidade de dois amigos
que transformaram um roteiro em carinho,
e um carinho em memória que não se apaga.
Enkosi kakhulu, Dudu e Dani.
Vocês nos deram um mundo maior do que cabia em nós antes.

Dedicatória

Este texto é dedicado a Dudu e Dani, que transformaram dez dias em um presente que continuamos, ainda hoje, desembrulhando aos poucos.

Ainda maravilhado com o que vocês nos deram, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

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