Eco · Machado de Assis · Escrito LXXIII

LXXIII

Os Olhos de Ressaca

Sobre o menino do morro que virou o maior escritor do Brasil, a ironia como couraça, e por que toda acusação contada só pelo acusador merece ser lida com desconfiança

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I

Os olhos de ressaca, o menino do morro, e a filosofia das batatas

II

A ironia como couraça, e o defunto autor

III

A advogada, a travessia até o mundo, e os ecos

Há uma expressão que Machado de Assis deixou na língua portuguesa antes de morrer, e que sobrevive hoje sem que a maioria de quem a usa saiba de onde veio. Olhos de ressaca. É assim que o narrador de Dom Casmurro descreve os olhos de Capitu: os que puxam para dentro, como a água do mar quando recua na praia e leva areia, concha, tudo, sem que se veja o fundo de onde vem a força.

Não é acaso a escolha dessa força da natureza, e não outra. Uma onda que avança se vê chegando, dá tempo de recuar. A ressaca age ao contrário: puxa por baixo, sem aviso, enquanto a superfície continua parecendo calma. É a imagem exata do que Machado fez a vida inteira com a própria escrita. Descreveu pessoas, cidades, casamentos e traições de um jeito que parecia claro por cima e escondia uma correnteza mais funda embaixo. O leitor lê, acha que entendeu, e só mais tarde percebe que foi puxado para um lugar que não esperava.

I

O menino do morro

Sobre epilepsia, gagueira e o tempo roubado do expediente

Machado nasceu em 1839 num morro do Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes que era neto de escravos alforriados e de uma lavadeira portuguesa vinda dos Açores. Não teve escola regular. Aprendeu sozinho, virou aprendiz de tipógrafo aos dezessete anos, e carregou a vida inteira duas marcas que o Brasil do Segundo Reinado não perdoava com facilidade: a epilepsia, com crises que amigos relataram ter presenciado em público, e uma gagueira que se agravou nos últimos anos, empurrando o já reservado escritor para um isolamento cada vez maior.

Em 1869, aos trinta anos, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa, contra a vontade da família dela, que via no noivo mais problemas do que fama. O casamento durou trinta e cinco anos sem filhos, e foi provavelmente o único porto realmente estável que Machado teve. Carolina lhe apresentou os clássicos ingleses, revisou seus manuscritos, cuidou dele nas crises de saúde. Quando ela morreu, em 1904, o escritor praticamente parou de sair de casa, e os dois últimos romances que publicou, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, carregam um tom de despedida que não existia antes.

Machado provou que dá para contar a verdade inteira sobre um país inteiro sem nunca precisar contar a própria história em voz alta.

Durante quase toda a vida adulta, Machado foi funcionário público, primeiro oficial de secretaria de Estado, e escreveu a obra inteira nas horas roubadas do expediente burocrático. Não houve boemia de artista livre, houve rotina dupla: dia de repartição, noite de literatura. A obra nasceu do tempo que sobrava, não do tempo disponível, o que talvez explique por que cada frase parece pesada, contada, sem desperdício.

Sem nunca ter pisado numa universidade, aprendeu sozinho francês, inglês, alemão e grego ao longo da vida adulta, só para poder ler no original os autores que admirava. Os vizinhos do bairro onde morou seus últimos anos, na rua Cosme Velho, começaram a chamá-lo de Bruxo do Cosme Velho, apelido que hoje soa afetuoso mas nasceu do mistério: ninguém entendia direito como um homem tão discreto produzia, sozinho, trancado em casa à noite, uma obra tão maior que a vida pequena que aparentava levar.

Nada disso está escrito com todas as letras nos livros mais famosos. E é exatamente aí que mora o primeiro eco: um homem que subiu sozinho, sem apadrinhamento de berço, num país que ainda escravizava gente quando ele nasceu, escolheu não fazer da própria origem bandeira nem lamento. Escreveu sobre burgueses, senhores, moças de sala de visita, e o fez com uma precisão que só quem observou aquele mundo de fora, sem nunca pertencer inteiramente a ele, conseguiria ter. Chegou a fundar e presidir a Academia Brasileira de Letras, o posto mais oficial que a literatura do país tinha para oferecer, e ainda assim escreveu como quem nunca se sentiu totalmente em casa em lugar nenhum.

II

A filosofia das batatas

Sobre Quincas Borba, o Alienista e o Humanitismo

Em 1891 Machado publicou Quincas Borba, retomando um personagem que já havia aparecido de relance em Brás Cubas: o filósofo excêntrico que inventa uma doutrina chamada Humanitismo. A tese é simples e perturbadora: existe uma substância única no universo, Humanitas, da qual tudo nasce e para a qual tudo volta, e por isso a guerra não é tragédia, é apenas um mecanismo de seleção, já que nada realmente morre, só muda de forma. Resumida numa frase que o personagem repete ao amigo Rubião, herdeiro ingênuo de sua fortuna, a filosofia inteira cabe em quatro palavras: ao vencedor, as batatas.

É paródia cruel do darwinismo social e do positivismo que a elite carioca do século dezenove tanto idolatrava, vestidos de ciência para justificar desigualdade. Rubião, professor modesto do interior de Minas Gerais, chega ao Rio de Janeiro com a herança na mão e a doutrina na cabeça, decidido a testar na própria vida o que aprendeu. Não decifra os códigos da cidade grande, é devorado por ela, e termina na loucura, sem nunca entender de fato o que a frase do amigo queria dizer.

Toda filosofia levada ao extremo cabe inteira numa frase de efeito, e é exatamente aí que ela consegue esconder o próprio horror que carrega.

O mesmo teste, em outra chave, aparece em O Alienista, de 1882: um médico chega a uma pequena cidade decidido a mapear cientificamente a loucura, interna quem discorda dele, expande a definição de insanidade até que a maior parte da população esteja trancada, e no fim é ele mesmo quem se torna o único caso a internar. Machado gostava de levar qualquer sistema de pensamento ao limite até ele desmoronar sob o próprio peso, inclusive a razão que a época mais reverenciava.

III

A ironia como couraça

Sobre dizer sem dizer, e o narrador que convence antes de informar

O pensamento central de Machado não é uma tese, é um hábito de escrita que virou visão de mundo: dizer sem dizer. Ele raramente afirma o que pode insinuar. Deixa a frase aberta, o adjetivo ambíguo, o juízo pela metade, e é o leitor quem precisa fechar o sentido.

Isso não é frieza gratuita. É a arma de quem cresceu sem o direito de errar em público. Quem nasce por baixo aprende cedo que a afirmação categórica custa caro, e que a insinuação bem colocada rende mais e machuca menos quem a diz. A ironia machadiana é elegância de sobrevivência antes de ser estilo literário.

Um narrador com interesse na própria história nunca é neutro. É apenas convincente o bastante para que ninguém perceba a diferença.

E há uma segunda marca, ligada à primeira: seus melhores romances não são contados por uma voz neutra. São narrados por gente que tem interesse direto em como a história vai ser lida. Machado não inventou só personagens, inventou narradores que convencem antes de informar, e que o leitor só desconfia depois de já ter sido levado.

IV

O morto que escreve livre

Sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas e Laurence Sterne

Em 1881, durante uma convalescença em Nova Friburgo, ditando trechos à própria Carolina, Machado começou Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro que mudou sozinho o rumo da literatura brasileira. O narrador é um homem já enterrado, que decide escrever suas memórias porque a eternidade é monótona e ele, defunto, não precisa mais fingir nada para ninguém. Fala mal de quem quiser, expõe a hipocrisia de quem conviveu com ele, ri da própria vida fracassada, tudo com a leveza de quem não tem mais reputação a perder. A forma livre, confessadamente importada do inglês Laurence Sterne e do seu Tristram Shandy, virou nas mãos de Machado uma arma inteiramente nova, tratada por leitores futuros como o marco que separou a literatura brasileira do romantismo raso que vinha antes.

É um livro sobre a liberdade que só a morte parece dar. E é, ao mesmo tempo, uma pergunta incômoda para quem ainda está vivo: quanto do que fazemos, dizemos e escondemos existe só porque ainda temos algo em jogo? Não é difícil imaginar que a ideia de uma voz livre de consequências tenha nascido também de um corpo que já sabia, na pele, o que era sentir a vida escapando em cada crise.

V

A advogada que chegou tarde

Sobre Helen Caldwell e a absolvição de Capitu

Em 1899 veio Dom Casmurro, e com ele a pergunta que a literatura brasileira levaria mais de meio século para reformular. Bento Santiago conta a história do próprio casamento, do ciúme que sentiu do melhor amigo, da suspeita de que o filho não era seu, e conclui que Capitu o traiu. Por quase sessenta anos, três gerações de leitores e críticos aceitaram essa versão como fato, simplesmente porque foi Bento quem contou a história e ninguém pensou em duvidar de um narrador tão seguro de si.

Em 1960 a pesquisadora norte-americana Helen Caldwell publicou um livro que virou o romance do avesso. Sua pergunta era simples e devastadora: e se o livro inteiro não for o relato confiável de uma traição, mas a autodefesa cuidadosa de um homem que precisa se inocentar diante de si mesmo? A tese foi resistida no Brasil por anos, tratada como estranhamento de quem lia de fora, e hoje é praticamente consenso entre os estudiosos que o romance foi escrito para deixar a dúvida instalada, não para resolvê-la. Capitu nunca teve voz própria no livro.

Uma acusação sem defesa nunca é a verdade. É só a única versão que teve tempo de ser contada antes que alguém perguntasse o resto.

A fortuna crítica de Machado guarda ainda um segundo episódio, mais recente e mais desconfortável, sobre o próprio corpo do escritor, não sobre seus personagens. Pesquisadores que compararam retratos oficiais de Machado ao longo do tempo notaram um padrão de retoque que suaviza seus traços afrodescendentes, um embranquecimento silencioso da imagem do maior escritor do país, feito por quem preferia um Machado mais confortável para os salões que o celebravam. A mesma sociedade que aplaudia sua obra parecia incomodada com o rosto de quem a escreveu. E paralelo a isso corre outro debate, ainda aberto: Machado viveu a infância e a juventude inteiras dentro de uma sociedade escravista, neto de escravos ele mesmo, e raramente tocou o tema de frente na ficção. Crítica recente se pergunta se esse silêncio foi omissão de quem precisava de trânsito social para sobreviver, ou código deliberado, dito nas entrelinhas para quem soubesse ler. A obra, mais de cem anos depois de terminada, continua sendo relida, nunca fechada.

VI

A travessia até o mundo

Sobre Susan Sontag, Harold Bloom e meio século de silêncio internacional

Por quase um século, Machado foi praticamente invisível fora do Brasil, contido pela barreira de uma língua que o mundo literário anglófono não fazia questão de aprender. A virada começou a se desenhar lentamente ao longo do século vinte, mas foi um texto de 1990, assinado pela ensaísta americana Susan Sontag na revista New Yorker, que empurrou Machado de vez para o centro da conversa internacional, colocando-o ao lado dos maiores nomes da literatura já produzida nas Américas. Harold Bloom, crítico que passou a vida ranqueando o cânone ocidental, chegou a chamá-lo de o maior artista literário negro já registrado. Escritores como José Saramago e Carlos Fuentes reconheceram nele uma influência tardiamente descoberta, como quem encontra um mestre que já devia conhecer há décadas.

A primeira tradução de Brás Cubas para o inglês só saiu em 1952, quase setenta anos depois do original, e passou décadas circulando quase sem eco fora dos departamentos acadêmicos, até Sontag pegá-la e apresentá-la a um público inteiramente novo, descrevendo o livro como uma ideia conceitual tão perfeita que só um narrador defunto poderia sustentar. Antes dela, Machado era, para o mundo de língua inglesa, praticamente um nome em nota de rodapé.

O reconhecimento pleno de Machado levou mais de meio século para acontecer fora das fronteiras do Brasil, quase o dobro do tempo que a crítica levou para reler Capitu com justiça. É a mesma imagem de abertura se repetindo em escala maior: também o mundo precisou de tempo para ser puxado para dentro da obra, sem perceber de início a força que havia por baixo da superfície.

VII

O que ainda nos puxa

Sobre julgar pela primeira fala, e o que Machado escondeu de si mesmo

Você já discordou de alguém a partir da versão de uma terceira pessoa, sem nunca ter ouvido quem estava sendo julgado? Aconteceu comigo mais vezes do que gostaria de admitir: alguém me contou uma história, com todos os detalhes na ordem certa, com o tom exato de quem só quer que a verdade apareça, e eu concordei antes mesmo de pensar em perguntar o que faltava. Só depois, ouvindo o outro lado, entendi que tinha julgado com os olhos de quem contou primeiro, não com os próprios.

É esse o eco que Machado deixou, cem anos depois de morrer, sem precisar de nenhuma citação em sala de aula para continuar valendo. Toda vez que aceitamos a versão de quem fala primeiro, ou de quem fala melhor, sem perguntar quem ficou de fora da narrativa, estamos fazendo exatamente o que três gerações de leitores fizeram com Capitu. E o mecanismo nunca foi tão veloz quanto é hoje. Uma tela cheia de manchetes e comentários funciona como um Bento Santiago em escala industrial, contando uma única versão com toda a segurança de quem nunca vai ser contestado pelo outro lado, e o leitor apressado julga antes mesmo de terminar de rolar a tela.

Machado escolheu o método oposto ao da confissão: disfarçar a própria ferida na ferida genérica de um personagem, e ainda assim dizer a verdade inteira.

Há um segundo eco, mais silencioso: Machado passou a vida inteira escrevendo sobre máscaras sociais sem nunca escancarar a própria. Não era fraqueza, era método. Existe uma forma de dizer a verdade inteira sobre a condição humana sem precisar expor cada ferida pessoal no processo, e ele encontrou a sua.

Os olhos de ressaca continuam aí, décadas depois, puxando quem lê para mais fundo do que a frase promete. É a marca de tudo que vale a pena ler duas vezes.

Quem julga pela primeira fala
raramente chega ao fundo do mar,
os olhos de ressaca não mentem,
só escondem o que a pressa
não teve tempo de encontrar.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem já julgou alguém pela versão de quem falou primeiro, e só depois descobriu o resto da história.

Ainda aprendendo a ouvir os dois lados antes de julgar, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · O menino do morro
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